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Televisão

Só me arrependo de ter entrevistado João de Deus e Roger Abdelmassih, diz Amaury Jr.

Pioneiro do colunismo social eletrônico, apresentador anunciou sua saída da TV aberta, mas diz que não consegue ficar longe da cobertura de festas e eventos

Colunista Amaury Jr.
Amaury Jr: 'Me falta entrevistar a Marisa Monte' - Divulgação
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Rio de Janeiro

Amaury Júnior almoçava em sua casa em Orlando, na tarde deste sábado (22), quando deixou garfo e faca de lado para conversar por telefone com o F5. Queria acabar logo com as especulações sobre uma possível demissão ou um suposto desentendimento com a direção da RedeTV!, onde trabalhou nos últimos 21 anos —ele anunciou sua saída nesta sexta-feira (21).

"Saí numa boa. Foi uma decisão minha. Tenho que cuidar mais dos meus negócios e deixar o vento me levar para onde for o melhor". No caso, "o melhor" é um canal de televisão próprio, antigo projeto de Amaury. Ele diz que agora há chances.

Enquanto não chega o momento de ter a própria emissora, ele quer produzir mais conteúdos e até comandar um talk show para a sua plataforma transmitida no exterior e no Brasil. Pioneiro do colunismo social eletrônico no Brasil (parece que dá para ouvir, ao fundo, a música de seu programa enquanto ele fala), Amaury tornou-se popular em 1982, com o programa Flash, na Gazeta.

Lá se vão mais de 40 anos. Ele agora quer diminuir o ritmo, ter mais tempo para fazer outras coisas. Mas o fato é que não consegue se afastar definitivamente da cobertura de festas e eventos, mesmo com alguns desconfortos que esse tipo de trabalho traz. Entrevistar convidados de pilequinho ou exalando salgadinhos fritos, por exemplo. "Isso faz parte", diz, lembrando do "bafo de coxinha" que muitas vezes teve que encarar ao conversar, de pertinho, ao pé do ouvido, com personalidades de diferentes áreas, muitas vezes em ambientes barulhentos.

Aos 72 anos, o comunicador se orgulha de ter entrevistado João Gilberto, arrepende-se de ter dado espaço para o médico Roger Abdelmassih e para o médium João de Deus, ambos condenados por crimes sexuais. Também nega ser de direita. "Não gosto de revelar meu partido ou preferências políticas. Não digo qual é o meu time de futebol nem o meu boi de Parintins. Onde tem divisão de opiniões, não me meto". Confira a seguir a entrevista de Amaury ao F5.

Por que você saiu da RedeTV!, onde trabalhou por 21 anos? Eu já estava prevendo isso na minha programação de vida. Conversei com Amilcare [Dallevo Júnior, presidente e coproprietário da emissora] e disse que não queria mais continuar porque tenho novos projetos pela minha produtora. Tenho uma plataforma, um canal de língua portuguesa que passa aqui em Orlando, em alguns estados americanos e no Brasil. Precisava e preciso me dedicar mais. Ele concordou comigo e saí numa boa.

Ficou alguma mágoa ou ressentimento? (Interrompendo) De jeito nenhum! Nós somos muito amigos, sou padrinho do casamento, padrinho de batismo da Alice, filha mais velha do Amilcare. Foi uma decisão minha. Não estava conseguindo fazer aquilo que eu queria e acho também que chegou a hora de fazer uma revisão no meu tipo de jornalismo, não é? Então, quero me afastar para ver e analisar. Não dá mais para fazer essas gravações, essas festas e viagens. Tenho que cuidar mais dos meus negócios e deixar o vento me levar onde for o melhor.

Vai morar em definitivo em Orlando? Não. Vou continuar morando no Brasil, onde ainda tenho novos anseios, novas inquietações... Estou muito animado e entusiasmado. Me aguardem.

É verdade que você busca ter seu próprio canal de TV? Opa! Você acha que eu não estou atrás disso? Quero ter o meu canal e tenho certeza de que seria vitorioso não só em audiência, como também em publicidade. Claro que seria um canal com audiência qualificada porque isso eu sempre tive, mas quero isso para poder ter faturamento e manter uma programação digna.

O senhor pensa em abandonar de vez a apresentação de um programa, uma coluna social na TV? É um formato que o público gosta e eu também. Se eu vier a voltar com o programa e essa possibilidade existe, eu quero ir aos grandes eventos, viajar e mostrar curiosidades. Também quero fazer um talk show. Quando chegar em São Paulo nos próximos dias vou organizar tudo.

Em uma entrevista há alguns anos, o senhor disse que se irritava com o "bafo de coxinha" de seus entrevistas nas festas. Cansou de vez? Não, não cansei. Mas quero coisas novas. Adoro cobrir eventos, festas e todas outras possibilidades de entrevistar as pessoas. Essas conversas, esses bate-papos me enriqueceram, me trouxeram coisas maravilhosas. Bafo de coxinha faz parte e graças a Deus, tenho o poder da improvisação para tirar isso de letra e ajudar na troca com o meu interlocutor.

Qual foi a melhor entrevista que o senhor já fez? Eu fiz mais ou menos 70 mil entrevistas e aí não existe isso de melhor ou pior. Geralmente, não classifico os meus trabalhos.

A entrevista que o senhor fez com o estelionatário Marcelo Nascimento em 2001, acreditando que ele era Henrique Constantino, filho do fundador da Gol, te marcou? [Marcelo teve sua extensa ficha criminal narrada no livro "VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso", depois adaptada para o cinema com o ator Wagner Moura no papel do golpista]. Todo mundo caiu naquele golpe, principalmente eu, porque estava em um evento como um repórter de televisão. Absolutamente genial. Se ele não fosse voltado para o mal, eu queria tê-lo na minha equipe. Ele era bom. Sabia que eu fui na prisão em Cuiabá e falei com ele? Conversamos e percebi o quanto era inteligente, sagaz. Ele começou a namorar uma manicure, montou um baita salão de beleza para essa namorada e está super bem de vida. Meu feeling ali falhou.

Tem algum arrependimento? Na vida? Não tenho nenhum e faria tudo de novo. Zero arrependimento, mas profissionalmente me arrependo, sim, de ter entrevistado várias vezes o Roger Abdelmassih (médico brasileiro especialista em reprodução humana, estuprador em série condenado a 278 anos de prisão por 52 violações e quatro tentativas) e também o João de Deus (médium condenado a mais de 370 anos de prisão por estupro). Eu era um discípulo de João de Deus e quando os crimes vieram à tona, fiquei muito chateado. Já pedi desculpas públicas e não canso de pedir. Aproveito peço mais uma vez. Desculpas.

Um orgulho? Ter entrevistado o João Gilberto. Fazia uns 10 anos que ele não dava entrevista, ninguém ouvia a voz dele e no último show que ele fez em São Paulo, eu consegui, graças à ajuda de Nelsinho Motta e da Elba Ramalho. Ele via o meu programa adorava, mas tinha pavor de dar entrevistas. Foram 15 minutos de conversa e de tão tímido, ele respondia às vezes: 'ah, essa o Nelsinho responde' (risos). Simples, humilde e genial. Foi o máximo.

Quem o senhor gostaria de entrevistar? A Marisa Monte. Eu a adoro e já fiz meu apelo público para ela, e nada. A minha produção entrou em contato com a equipe dela e nunca deu certo.

Se lançassem uma enciclopédia da TV brasileira, o que o senhor gostaria que fosse escrito para Amaury Jr? Um homem que trabalhou muito porque gostava da televisão. Sabia que eu batalhei de forma absurda para chegar onde estou? Eu era um colunista de Rio Preto e cheguei em São Paulo para trabalhar sem conhecer ninguém. Tenho muito orgulho da minha trajetória.

O senhor já entrevistou vários presidentes da República, e as pessoas comentam que seu posicionamento político é mais à direita... (interrompendo) Não sou da direita nem da esquerda. Não gosto de revelar meu partido ou preferências políticas. Não digo qual é o meu time de futebol nem o meu boi de Parintins. Onde tem divisão de opiniões, não me meto. Com a minha posição neutra, acho quem ganha é o telespectador.

Não revela seu voto na última eleição presidencial no Brasil? Não votei. Estava fora do Brasil e acho que fiz muito bem. Nem Lula nem Bolsonaro me impressionavam tanto quanto eu queria. Infelizmente.

O senhor ficou rico com a televisão? Não ganhei propriamente dinheiro com televisão, mas ganhei dinheiro fazendo os eventos. Comparecia às festas de lançamentos de um hotel ou um empreendimento e ganhava. Sempre falo que quando tem o conteúdo comercial, tem que pagar. Se não for comercial, tem que ser algo do nosso interesse jornalístico.

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