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'Nos Tempos do Imperador': Pesquisador aponta erros e acertos da trama

Paulo Rezzutti é autor do livro 'Dom Pedro 2º - A História Não Contada'

Pedro (Selton Mello) e Luísa (Mariana Ximenes) se beijam e Thereza (Letícia Sabatella) os vê - Paulo Belote/Globo
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São Paulo

No primeiro capítulo de "Nos Tempos do Imperador" (Globo), dom Pedro 2º (Selton Mello) tem um encontro com Solano López (Roberto Birindelli), filho do ditador paraguaio Carlos Antonio López e seu sucessor. O vizinho propõe se casar com a princesa Isabel (Any Maia) para formar um grande império sob o comando dele.

Pedro nega a proposta e faz um belo discurso sobre a liberdade. "O Brasil nunca se renderá a um ditador", diz o texto dos autores Alexandre Marson e Thereza Falcão. A rixa entre os dois líderes a partir desse episódio, inclusive, é o prenúncio de uma guerra que ainda estourará entre os dois países na trama.

Só que, apesar das belas cenas executadas com apuro técnico, nada daquilo aconteceu. Pedro não estava naquela localidade e o militar paraguaio jamais invadiu o Brasil para falar de um casamento arranjado com a família imperial. Na verdade, ele já era vivia maritalmente com uma mulher, com quem tinha filhos.

"Pedro e Solano nunca se encontraram", afirma o pesquisador Paulo Rezzutti, autor do livro "Dom Pedro 2º - A História Não Contada", entre outras obras sobre o período imperial. O paulista se debruçou sobre cartas e despachos do imperador, e leu todos os seus diários.

Além de manter um canal no YouTube onde trata do período, ele aproveitou a estreia da novela para fazer lives nas redes sociais acompanhando os capítulos e apontando os erros e acertos da trama no que diz respeito à acuidade histórica. Ele afirma que muito do que é mostrado na telinha é apenas para tornar a trama mais atrativa para o espectador.

"É claro que acho válido toda e qualquer produção que trate desses momentos históricos, ainda mais do nível da Globo, que tem uma receptividade grande com o costume de gerações e gerações de verem novela", avalia. "É um público cativo em que pode ser despertado o interesse pela história."

No entanto, ele faz uma ressalva. "Nem todo mundo tem a curiosidade de procurar saber mais, muita gente apenas aceita aquela informação", diz. "Graças a isso o Brasil está nesse nível em que a gente se encontra. E você tem erros históricos gravíssimos na novela."

Procurados pelo F5, a Globo e os autores não se manifestaram sobre o tema. No lançamento da novela, eles fizeram questão de destacar que a novela não é um documentário histórico.

"É uma ficção, mas temos o cuidado de ser respeitosos com as pessoas que existiram", disse Marson. "A nossa grande inspiração em termos de estilo é a ficção histórica. A gente gosta muito das ficções históricas, algo que não fazemos tanto no Brasil —não sem razão, porque sempre que fazemos somos muito atacados."

AS AMANTES DO IMPERADOR

Para Rezzutti, um dos incômodos com a novela é a forma como o imperador é mostrado em relação à condessa de Barral (Mariana Ximenes), responsável pela educação das filhas dele. A paixão de Pedro por ela é tão avassaladora que o personagem pouco tem sido visto em outras atividades.

"Parece que ele não tem nada para fazer além de catar a Barral, parece que não fazia nada da vida", comenta. Ele diz que a própria relação entre os dois não chega a ser consenso entre os historiadores.

Na vida real, o imperador teve diversas amantes. Rezzutti conta que Pedro costumava trocar com elas declarações de cunho sensual, falando do corpo delas, de como era difícil controlar seus impulsos e dando a entender que eles haviam tido relações sexuais. Isso não ocorria com Barral.

"Não é uma certeza histórica [que os dois viveram uma paixão]", afirma. "Tem quem defenda que sim e quem defenda que não. Eu não consigo afirmar se houve uma relação sexual entre eles. O que comprovadamente existe é uma afinidade intelectual. Dentre essas mulheres, foi o maior relacionamento dele, mas não sabemos se foi sexual ou platônico."

Outra coisa que ele observa é como a relação de Pedro com as filhas é mostrada para exaltar uma suposta preocupação dele com a educação das meninas. "Ele às vezes participava de uma aula ou outra das princesas, mas não era algo frequente", conta. "As crianças também não participavam da refeição dos adultos. A princesa Isabel só se senta à mesa com os pais quando já está para casar, com quase 20 anos."

Ele elogia a caracterização da imperatriz Teresa Cristina. "Esse resgate que fazem dela é muito importante, porque muitas vezes ela é mostrada apenas como uma pessoa silenciosa e discreta, mas ela muitas vezes se impunha, há registros disso", conta.

No entanto, a novela preenche algumas lacunas históricas ao mostrá-la como uma mulher que sabe dos casos extraconjugais do marido e até arma para afastá-lo de Barral. "Essa parte é uma fanfic", comenta. "Não tem lógica esse tipo de argumentação. Ele realmente tinha amantes, agora se ela sabia não tem como ter certeza."

Outro questionamento do pesquisador é como o imperador, criado para ser alguém bem mais discreto que seu pai, dom Pedro 1º, sai confessando sua paixão pela amante para várias pessoas. "Parece que não sabe guardar segredo", brinca.

"Sinto falta na trama de um personagem histórico com quem ele realmente se confessaria: o Negro Rafael", diz. Ele explica que tratava-se do antigo guarda-costas de Pedro 1º, que ficou no Brasil para cuidar de Pedro 2º e foi uma figura constante ao lado dele por toda a vida.

Isso parece se dar por causa da opção dos autores por mostrar uma corte sem pessoas escravizadas. Não há negros servindo à família imperial, o que segundo Rezzutti não corresponde à realidade. "Ele herdou escravos que pertenciam ao estado brasileiro", conta.

A mudança só se dá a partir da Lei do Ventre Livre, que dizia que os filhos de escravos seriam livres a partir de então. Ela foi promulgada em 1871, um ano após o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). "Nessa lei, dom Pedro conseguiu passar um jabuti, aí sim ele conseguiu libertar todos os escravos da coroa."

Ele diz que Pedro era abolicionista, mas que a questão tem sido exagerada na novela, "Ele até tentava promover a abolição dentro do que era possível, mas nada que não melindrasse o suficiente os donos de terras", diz.

"A questão da abolição é discutida na família real desde dom Pedro 1º", afirma. "Mas, para se manterem no poder e não racharem o Brasil, eles tinham que jogar o jogo da política. Até porque o país não era monarquia absolutista."

A maior parte dos negros mostrados na novela são os que vivem na Pequena África, região no centro do Rio de Janeiro que concentrava negros libertos e fugitivos. "É um palácio de brancos e a África está no centro do Rio de Janeiro", compara. "Parece que tem um apartheid."

O líder da Pequena África é dom Olu, vivido por Rogério Brito, personagem que não existiu. "Ele parece ser inspirado no dom Obá 2º, mas nessa época da novela ele tinha a idade da princesa Isabel, não tinha como ser amigo do dom Pedro", afirma.

Rezzutti também fala da polêmica cena em que Jorge/Samuel (Michel Gomes) sugeriu que a mocinha Pilar (Gabriela Medvedovski) sofreu preconceito por ser branca ao ser proibida de morar no local. O pesquisador disse que a cena foi "absurda". "Eles conseguiram desgostar várias parcelas da população brasileira", comenta.

"Só porque você é branca não pode morar na Pequena África? Como queremos ter os mesmos direitos se fazemos com os brancos as mesmas coisas que eles fazem com a gente", indagou o personagem na sequência, que foi bastante criticada nas redes sociais.

Thereza Falcão, coautora da trama, pediu desculpas pela cena, que qualificou como "um erro grosseiro". "Eu mesma quando vi a cena aqui em casa, falei: 'O que foi isso?'", disse na ocasião.

Ela acrescentou que os capítulos iniciais da trama foram escritos em 2018 e gravados, em sua maioria, em 2019. "Na época não contávamos com uma assessoria especializada, o que só aconteceu no ano passado, com a entrada do [pesquisador de cultura afro-brasileira] Nei Lopes. Hoje assisto a muitas cenas com uma sensação muito longínqua."

Sobre o tema, Rezzutti diz que também vê resquícios de sexualização do corpo do negro em algumas cenas dos personagens Lota (Paula Cohen) e Batista (Ernani Moraes), barões do café mostrados como um casal de interesseiros. "Você vê neles a coisa da lascividade, ela dá intenção dúbia que não quer comprar o negro só para a fazenda, mas para a cama também", avalia.

PONTOS POSITIVOS

​Apesar dos questionamentos, Rezzutti afirma que há muitos pontos positivos na trama. Para ele, a novela mostra seu melhor lado quando não foca nos personagens que realmente existiram e que têm biografias amplamente estudadas. "Nos núcleos ficcionais, tem coisas que são verdadeiras aulas de história."

Ele chama a atenção para as cenas que mostraram Tonico (Alexandre Nero) fraudando as eleições. O personagem obrigou seus escravos a votarem nele, fazendo-os passar por homens livres ao dar sapatos para eles usarem. "Era exatamente assim que acontecia", diz. "O sapato era um símbolo de liberdade, muitos negros não tinham o costume de usar e andavam com os sapatos no ombro."

Sobre Tonico, ele ainda comenta que uma cena em que dom Pedro aparece apanhando quando criança do personagem realmente existiu, mas não teve nada a ver com o coronel baiano fictício criado pelos autores. "Ele teria apanhado do filho do marquês da Palma, então tem um pé na ficção e outro na realidade", diz.

O pesquisador também destaca detalhes como o sotaque paulista ser abominado na corte do Rio, as invasões a terras que pertenciam ao governo e a recriação do Jardim das Princesas, espaço que Teresa Cristina fez para as filhas e que realmente existiu. "Ele ainda está lá, do ladinho do Museu Nacional", lembra.

Outro exemplo é uma cena em que Pedro fala sobre o pai da condessa de Barral, Domingos Borges de Barros, que foi aliado de Pedro 1º. "Foi uma cena inteira dele dando uma aula de história, só que entrou um erro bobo, chamando a esposa dele de Maria Amélia, que era a irmã do próprio Pedro, em vez de Amélia."

Rezutti também conta que há pouco interesse histórico em figuras como Dom Pedro 2º e diz só lembrar de duas obras em que ele aparece como personagem ("O Xangô de Baker Street" e "Mauá - O Imperador e o Rei"). "Tirando isso não tem mais nada", lamenta.

Por isso, "Nos Tempos do Imperador" pode ser uma boa forma de entrar em contato com o personagem, apesar das ressalvas. "Não serve como uma aula de história, não tem acurácia no que está sendo passado", diz o pesquisador. "Mas minha opinião é que novela é uma obra de ficção. E, dentro dessa ficção, eles podem tudo, como estão fazendo."

"NOS TEMPOS DO IMPERADOR"

  • Quando Seg. a sáb., às 18h30
  • Onde Na Globo
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Selton Mello, Leticia Sabatella, Mariana Ximenes, Gabriela Medvedovski e Michel Gomes, entre outros.
Final do conteúdo
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