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Kelzy Ecard revela como lida com as emoções de viver drama de Nice, na novela 'Segundo Sol'

Atriz tem 25 anos no teatro e faz sua 1ª personagem em novela

A atriz Kelzy Ecard está no elenco de "Segundo Sol", trama das 21h da Globo
A atriz Kelzy Ecard está no elenco de "Segundo Sol", trama das 21h da Globo - Sergio Baia/Divulgação
Cris Veronez
Rio de Janeiro

O texto que apresenta a novela "Segundo Sol" (Globo) à imprensa cita o nome da personagem Nice, interpretada por Kelzy Ecard, 52, apenas uma vez. No entanto, a trajetória da mulher de Agenor (Roberto Bonfim), mãe de Rosa (Letícia Colin) e Maura (Nanda Costa), parece ter agradado tanto ao público que tomou uma proporção muito maior do que era previsto. O nome dela, agora, está em todo lugar.

A atuação de Ecard, que tem 25 anos de experiência no teatro e vive sua primeira grande personagem na TV, emociona o público, que sofre e torce pela felicidade de Nice na mesma proporção em que fica extasiado com sua força e delicadeza.

Mulher contemporânea e longe de se identificar com a forma submissa como sua personagem reagia ao relacionamento abusivo imposto por Agenor, a atriz afirma que vive um aprofundamento nos campos da aceitação e da doçura.

“Vou dizer uma coisa que é lugar comum, mas é verdade: aprendemos muito com os personagens, porque é preciso se colocar no lugar daquela pessoa. Nice reage às agressões de uma forma muito diferente de como eu reagiria. Estou tendo que buscar bem fundo em mim uma compreensão e uma aceitação dessa maneira dela de enfrentar ou não as coisas”, diz Ecard.

Nice surpreendeu o público com a forma afiada com que passou a enfrentar Agenor nos capítulos mais recentes da trama. "Acho que Agenor também está passando por uma transformação. Até onde sabemos, o jeito dele é fruto de uma questão cultural arraigada em seu extremo. Ele tem as tintas mais fortes desse lugar. É misógino, machista, homofóbico e gordofóbico."

A atriz afirma ter construído sua personagem com muito amor pelo marido, ainda que seja um sentimento impregnado de memórias antigas. "Há muitos anos eles não têm uma relação amorosa de verdade, mas em algum lugar dela existiu muito amor por esse homem. Fiquei durante muito tempo pensando que era possível resgatar esse amor entre eles. Neste momento, confesso que não sei."

Ecard afirma que, às vezes, tem vontade de que Nice dispense o marido e encontre um namorado. "Não é obrigatório ela ter um novo amor para ser feliz, mas a pessoa amar e se sentir amada de verdade é condição essencial do ser humano. Todo mundo quer. [...] Um lado meu quer que ela arrume um homem bem maravilhoso, que a trate muito bem. Mas vamos ver o que nos aguarda. Estou preparada para tudo."

“Segundo Sol” ainda ficará no ar por cerca de dois meses, mas Kelzy Ecard já vive um luto antecipado. "Já estou sofrendo. É outra coisa que nunca vivi. Quando se faz uma temporada de alguma peça, no fundo você acredita que possa retomar aquilo um dia. Mas a Nice eu nunca mais farei."

Os fãs de Ecard, no entanto não ficarão órfãos da atriz. Em 2019, ela estreia seu primeiro longa: “Maria do Caritó”, protagonizado por Lília Cabral. “Minha personagem [chamada Fininha] é uma fofa. Sou a melhor amiga da protagonista, Maria, que é uma mulher de 50 anos, virgem, que foi prometida a um santo pelo pai quando nasceu”, adianta.

DO TEATRO PARA A TV

Formada em arquitetura aos 21 anos, Kelzy Ecard começou a estudar teatro aos 25. De lá para cá, não parou mais de atuar. Até pouco tempo atrás, a paixão da atriz era os palcos, e não o audiovisual. Mas tudo mudou quando foi encontrada pelo diretor Dennis Carvalho, que a assistiu em uma peça e a convidou para viver Nice em "Segundo Sol".

"As oportunidades que eu tinha tido até então em audiovisual não eram muito sedutoras. Fiz algumas participações em TV, tinha começado cinema com algumas participações e curiosamente veio tudo ao mesmo tempo", conta.

Entre os desafios que enfrentou ao topar a novidade de fazer sua primeira novela, aos 52 anos, está o processo de construção da personagem. "Na obra aberta, você constrói o personagem junto com o desenvolvimento da trama. Sabia que iríamos trabalhar primeiro o drama das filhas de Nice, que tinha uma trajetória com conflitos e descobertas, mas não fazia ideia da proporção que ia tomar."

Algumas cenas do núcleo da família Câmara foram tão pesadas que o elenco demorou um pouco para se recuperar. "Por mais experiências que tenhamos, nós mobilizamos sentimentos muito profundos. Tem cenas que são tão intensas emocionalmente que saio delas tremendo."

Uma das cenas mais desafiadoras na novela foi, segundo a atriz, quando Agenor joga as quentinhas de Nice no chão e em cima da mulher, ao descobrir que ela está trabalhando. A expulsão de Maura por ser homossexual e de Rosa por ser prostituta e a que Nice diz para Agenor que não aguenta mais a vida que leva ao lado do marido são foram marcantes para ela.

"Roberto [Bonfim] ficou transtornado depois das cenas das quentinhas. Nem dormiu direito. No dia seguinte, ele estava me ligando preocupado em saber se eu estava bem."

A história de Nice fez com que diversas mulheres –ou seus filhos– enviassem mensagens para Ecard, com relatos semelhantes ao drama da personagem. A atriz diz que já presenciou situações de relacionamentos abusivos com vizinhas e amigas de infância.

"Algumas mulheres acho que nem tem consciência do que estão vivendo. É mais fácil você perceber o abuso quando ele é físico. Às vezes, o abuso cotidiano é uma perda de um direito aqui, uma desqualificação ali, a pessoa vai relevando e nem se dá conta de que está vivendo uma relação abusiva."

Diante das mulheres que têm buscado seu empoderamento, Ecard afirma que percebe nos homens uma dificuldade em se colocar. "Estar perdido é um bom sinal, porque mostra que pelo menos a pessoa está tentando se achar. O ruim são as pessoas que continuam cristalizadas, apoiadas em suas convicções que excluem o resto do mundo", reflete.

Ela afirma ainda que estamos diante de um momento revolucionário, em que muitas pessoas que viveram por séculos massacradas estão reivindicando seu lugar ao sol. "Nosso padrão cultural está tão acostumado com determinadas estruturas que romper com elas está fazendo um monte de gente ficar perdida. Mas está perdido quem está tentando se realinhar."

Criada no interior do Rio, Kelzy Ecard diz que tem hábitos simples. Gosta de cozinhar, cuidar da casa, ouvir música. MPB, jazz e samba fazem parte da trilha sonora de sua vida. Mãe de Pedro, 15, ela diz que foi na gravidez que descobriu seu gosto real pela pintura, algo que já praticava desde criança.

Sem neuras quando o negócio é subir em um palco para se apresentar, Ecard revela que um dos momentos em que mais ficou nervosa foi quando participou de uma exposição coletiva de artes plásticas. "Nenhuma estreia se comparava àquilo. Depois disso nunca mais quis me arriscar. Mas vamos ver, quem sabe eu não tenha amadurecido."

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