Aviso
Este conteúdo é para maiores de 18 anos. Se tem menos de 18 anos, é inapropriado para você. Clique aqui.

Música
Descrição de chapéu The New York Times

Lil Nas X, Olivia Rodrigo e outros da Geração Z deixam sua marca em 2021

Inspirados, artistas disputam espaço hoje com seus principais ídolos

Lil Nas X durante apresentação em festival de Fort Lauderdale, na Flórida Giorgio Viera/ AFP

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Lindsay Zoladz
The New York Times

Em 30 de agosto, Drake, um astro arquetípico da geração milênio, mostrou a capa de seu novo disco, "Certified Lover Boy". Criada pelo artista e provocador britânico Damien Hirst, a capa mostra 12 emojis de mulheres de tons de pele diferentes, todas grávidas, presumivelmente por obra de Drake (ou de seu emoji?)

Mais ou menos como a capa de "Views from the 6", o disco de Drake em 2016, que o mostrava sentado no topo da CN Tower, em Toronto, com os pés pendurados para fora, a imagem foi recebida inicialmente com descrença e depois com alguma rejeição, o que foi seguido por uma verdadeira torrente de memes. O mais memorável deles veio de um sujeito que começou como "troll" de internet mas, nos últimos anos, se tornou um dos pares musicais de Drake: Lil Nas X.

Em um tuíte que se tornou sucesso viral, Lil Nas X, 22, simplesmente inverteu os gêneros: 12 emojis de homens, todos grávidos, presumivelmente por obra (do emoji) de Lil Nas X. Sempre esperto na arte da autopromoção, Lil Nas X usou como legenda do tuíte uma referência a "Montero", o álbum que ele lançaria duas semanas depois do disco de Drake.

Em termos de venda de discos, Drake venceu a batalha. Como quase tudo mais que ele toca, "Certified Lover Boy" se tornou um fenômeno cultural com mais de 500 mil cópias vendidas nos primeiros sete dias de lançamento e diversas semanas no topo da parada Billboard 200 –o que significa que "Montero", quando foi lançado, apesar da estreia forte, teve de se contentar com a segunda posição. Em entrevista recente à revista QG, Lil Nas X admitiu que isso o decepcionou, inicialmente, antes de ele se lembrar, chocado, que "Drake é meu ídolo".

Em termos menos quantificáveis, porém, "Montero" serviu como lembrete de que um novo tipo de astro, jovem e muito menos previsível, está subitamente no rastro de Drake e de todos os demais astros da geração milênio. A competição brincalhona que eles oferecem é prova de uma dinâmica que vem sendo cada vez mais perceptível este ano: a divisão crescente entre os veteranos do pop da geração milênio e seus herdeiros na Geração Z.

Nos últimos anos, ao menos entre os nomes mais bem-sucedidos da música, Billie Eilish, 19, vem sendo tratada pelos votantes do Grammy e pelos críticos musicais como a garota símbolo da Geração Z e tem de arcar com o fardo de representar toda uma geração e as mudanças que ela trouxe à música pop. (Até mesmo Eilish acha que já ganhou Grammys demais.)

Mas este ano –nas paradas da Bilboard, votações do Grammy e listas de melhores de 2021—, uma nova leva de astros da Geração Z, como Lil Nas X, Olivia Rodrigo, Chloe Bailey e Kid Laroi, emergiu e parece ter atingido massa crítica. Para citar o LCD Soundsystem, e assim expor minha condição de membro inveterado da geração milênio, a garotada está chegando vindo lá de trás.

Alguns mentores de destaque no pop se alinharam ativamente com a nova safra de artistas. Beyoncé vem promovendo a dupla de R&B Chloe x Halle desde que as contratou para sua gravadora em 2015, quando as duas ainda eram adolescentes e por isso a sensação foi a uma espécie de transferência cósmica da tocha quando "Have Mercy", a estreia solo de Bailey, 23, chegou ao mercado na semana em que Beyoncé completava 40 anos.

No onipresente dueto "Stay", Justin Bieber, 27, fez uma espécie de paralelo pop com o thriller "Projeto Gemini", de Will Smith, ao dividir os vocais com Kid Laroi, 18, um cantor de longas madeixas que ostenta precocidade até em seu nome artístico.

Apesar de toda a sua variedade estilística, o que todos esses artistas jovens têm em comum é que cresceram na era da internet, o que significa que sua história de admirar ou até cultuar os cantores com os quais eles agora dividem o cenário está bem documentada, a uma busca de distância no Google (ou pelo menos no Wayback Machine).

Lil Nas X era parte do exército de fãs extremos de Nicki Minaj e o prolífico responsável pela conta de Twitter @NasMaraj. Olivia Rodrigo, 18, se identifica como "fã enorme de Taylor Swift" e considera a música da cantora, a quem ela define como "mãe", uma influência tão decisiva que chegou a usar o riff de piano de "New Year’s Day", canção lançada por Swift em 2017, na faixa "1 Step Forward, 3 Steps Back", de seu álbum de estreia "Sour".

Mas já que Lil Nas X e Rodrigo provaram que são mais do que cantores de um sucesso só e que são de fato forças formidáveis no firmamento pop, seu relacionamento com aqueles que os antecederam fica um pouco mais complicado. Drake e Minaj não aceitaram convites de Nas para cantar com ele em "Montero".

Rodrigo é filha do espírito criativo da internet e do desrespeito que esta sempre mostrou pelos direitos autorais, mas suas homenagens escancaradas às suas influências também podem ter saído pela culatra: Swift e integrantes da banda Paramore foram acrescentados como compositores aos créditos de "Déjà Vu" e "Good 4 U", dois sucessos de Rodrigo que não aludem aos trabalhos deles que a inspiraram de maneira tão direta quanto "1 Step Forward, 3 Steps Back".

Talvez esses resultados não sejam causa de surpresa. Os dois jovens artistas, afinal, estão tendo de ascender em concorrência com alguns dos astros mais estabelecidos da música. Mas eles também representam algo de animadora –e para alguns até ameaçadoramente– novo.

Como estrela da Disney transformada em cantora de sucesso, Rodrigo seguiu uma trajetória acentuadamente diferente —e mais truncada– na direção da maturidade do que a seguida por predecessoras como Miley Cyrus, Selena Gomez e Demi Lovato, as três com 29 anos, e contratadas da Hollywood Records, a pudica gravadora do grupo Disney, quando tinham a idade de Rodrigo.

Embora ainda deva participar da terceira temporada de uma série que ficou pequena demais para o seu sucesso, "High School Musical: The Musical: The Series", a decisão de Rodrigo de lançar "Sour" pela gravadora Geffen lhe conferiu liberdades de estilo e letra que permitiram que seja mais fiel a si mesma.

"As pessoas sempre me perguntam se disse um palavrão para que todo mundo saiba que não sou mais uma menina da Disney", ela disse em uma entrevista à revista Variety meses atrás. "Mas isso não é uma decisão calculada em minha cabeça, não é como se eu tivesse decidido ser uma garota ousada agora. Eu simplesmente tendo a ser meio boca suja e acho que isso se reflete naturalmente nas minhas composições".

Lil Nas X, um artista de hip-hop declaradamente gay em um gênero que, até pouco tempo atrás, era unidimensional em sua macheza e em seu apego aos papéis de gênero tradicionais, a ponto de usar a expressão "nada de homos" como lema, passou por uma ascensão particularmente radical. Naturalmente, a maneira pela qual ele veio a centrar sua música e suas apresentações em cerimônias de premiação musical na sua sexualidade incomodou algumas figuras da velha guarda, mas também exemplifica uma geração mais jovem, conhecida por suas posições mais abertas quanto a gêneros e fluidez sexual.

Como ele disse em setembro a "The Breakfast Club", defendendo as imagens alegremente subversivas que usa nos vídeos de "Montero (Call Me by Your Name)" e "Industry Baby", "eu quero que os vídeos sejam divertidos. E, quer as pessoas gostem, quer não, ver homens fazendo coisas diferentes do que sempre fizeram é muito mais divertido".

Em um momento no qual os predecessores deles estão amadurecendo ou decaindo para a autoparódia, sou forçada a concordar. Rodrigo ocupou com facilidade o vazio deixado por Swift quando ela começou a produzir música menos pop, em álbuns como "Folklore" e "Evermore". (E, de certa maneira, gravou um disco de Lorde melhor do que o disco que Lorde lançou este ano.)

E Lil Nas X provavelmente será capaz de evitar agilmente os pontos cegos que seus ídolos encontraram, como a estranha reviravolta de Minaj em 2020: "Eu costumava ser bi, mas agora sou só hetero". Drake canta preguiçosamente em "Girls Want Girls", que "você diz que é lésbica, menina, eu também", um single de "Certtified Lover Boy" que parece tanto datado quanto esquisito, mais apropriado para a era de provocação gay em que Katy Perry beijou uma garota do que para um momento em que Lil Nas X troca beijos com um homem na entrega do BET Awards.

"Minha impressão é a que a nova geração do rap vai ter de reformular seu pensamento", disse Lil Nas X ao dramaturgo Jeremy Harris em uma entrevista recente quando perguntado sobre "os colapsos da hipermasculinidade que vêm acontecendo no hip-hop".

E diante da dúbia afirmação da roqueira Courtney Love, da Geração X, de que Rodrigo plagiou a capa do disco "Live Through This", da banda Hole, (que por sua vez claramente tomava elementos de empréstimo do filme "Carrie, a Estranha", de 1976), em uma foto de publicidade, Rodrigo demonstrou ter uma mente igualmente aberta –e uma língua ligeiramente ferina. "Para ser honesta, fico lisonjeada por Courtney Love saber quem sou eu", ela disse à revista Variety. "Ela é de outra geração, completamente, e por isso achei bacana".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem