Música

Diretora diz que Alceu Valença se emocionou ao ver documentário sobre sua carreira

Músico completa 73 anos nesta segunda (1°), data que filme será exibido na TV

Alceu Valença no festival João Rock 2019, em Ribeirão Preto (SP)
Alceu Valença no festival João Rock 2019, em Ribeirão Preto (SP) - AgNews-17.jun.2019/Divulgação
São Paulo

Alceu Valença comemora 73 anos, nesta segunda-feira (1º), talvez com o mesmo fôlego do início de suas quase cinco décadas de carreira. Episódios importantes da trajetória do cantor, compositor, cineasta e poeta estão registrados no documentário “Alceu Valença - Na Embolada do Tempo”, que estreia nesta segunda, às 21h30, no canal pago Curta.

Para a produção, a roteirista e diretora Paola Vieira, 56, trabalhou durante dois anos em mais de 300 horas de gravações guardadas por Alceu —a maioria em VHS,  digitalizadas depois. E não faltam momentos marcantes do artista pernambucano em quase uma hora e meia de duração do filme.

O documentário, que teve três exibições em São Paulo no mês passado, foi visto por Alceu no último dia 14 durante o festival In-Edit Brasil. “Ele se emocionou”, diz a diretora. A data era véspera da apresentação do músico no festival João Rock, em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), e em meio a uma maratona de apresentações juninas pelo Nordeste —o que resume bem uma das viradas na carreira de Alceu, resgatada no documentário, quando ele resolve romper com gravadoras e botar o pé na estrada nos anos 1980.

Os 47 anos roteirizados de música, cinema e poesia (Alceu é autor do longa “A Luneta do Tempo” e do livro “O Poeta da Madrugada”) são narrados pelo próprio cantor “metrificado” (como ele se define no início), que canta forró, rock e baião, e sem ídolos, apesar de ao longo do tempo admitir influências de contrastes como Luiz Gonzaga (1912-1989) e Elvis Presley (1935-1977).

 

A obra só não crava os mais de 50 anos de música, pois deixou de fora a "fase americana" de Alceu, quando o então estudante de direito passou em um concurso cujo prêmio eram três meses de aulas na Universidade Harvard. Foi nos EUA que ele começou a ganhar público ao cantar xotes e baiões em praças públicas. "Meu primeiro corte de filme foi com três horas e meia e tive de tirar esta parte, por exemplo”, diz a diretora com a justificativa de falta de imagens.

Talvez esse seja um detalhe que apenas quem é muito fã perceba. Mas estas pessoas vão ter muitas surpresas. O lendário disco “Espelho Cristalino”, gravado em 1977, por exemplo, marcou um momento de decepção de Alceu com a música. “As rádios não tocavam e diziam que primeiro a gente tinha que ir para a televisão, e na televisão diziam que primeiro a gente tinha que ir para o rádio”, narra Alceu.

Como “nada aconteceu”, e por conta da ditadura no Brasil, o artista rescindiu pela primeira vez com uma gravadora e foi para Paris. E lá, compôs “Coração Bobo” para o forrozeiro Jackson do Pandeiro (1919-1982). A volta ao país foi triunfal.

No documentário produzido pela TvZero, Alceu lembra de eternos parceiros, como o guitarrista Paulo Rafael. Ou o surgimento da versão inicial de O Grande Encontro, com Geraldo Azevedo –com quem gravou seu primeiro disco em 1972, considerado o início de sua carreira profissional–, Elba Ramalho e Zé Ramalho. Alceu, que afirma ter acompanhado de perto a produção, se emocionou com uma entrevista dos pais na década de 1980 na fazenda onde ele nasceu em São Bento do Una. 

O documentário viaja pelas andanças de Alceu. Do frevo de Olinda, onde diz ter visto o mar pela primeira vez, ao Carnaval que hoje atrai multidões na capital paulista. Do convite para gravar na Holanda ao sucesso no festival de jazz de Montreaux, na França. O título do filme “plagiou” o de um disco de Alceu . “Eu vivo na embolada do tempo. Estou viajando com as minhas lembranças, como aqui, agora, e projetando o futuro”, define, no documentário.

PERNAMBUCANO FEZ MARACANÃ TREMER

Dizem que só três pessoas calaram o Maracanã: Gigghia, o carrasco uruguaio do Brasil na Copa do Mundo de 1950, Frank Sinatra e o papa João Paulo 2º. Não é para tanto, mas Alceu Valença peitou muita gente para se calar naquele que, na época, era o maior estádio do mundo, completamente lotado.

No Rock in Rio 2, de 1991, Alceu conta ter sido obrigado a fazer sua passagem de som uma semana antes. Para o show, levou uma turma de pernambucanos para tocar exatamente no dia em que o astro pop Prince (1958-2016) era a principal atração. Porém, o palco móvel preparado para o norte-americano quebrou e desbalanceou o som de quem iria se apresentar antes.

Na terceira microfonia, Alceu parou o show e se recusou a continuar. Saiu de cena dizendo que aquilo era uma esculhambação, que só voltaria ao palco quando pudesse passar o som ao seu jeito. O artista foi chamado de louco. Os organizadores achavam que ninguém ficaria lá após a apresentação de Prince. O brasileiro topou o desafio e ganhou a aposta, pois a multidão não arredou o pé. Madrugada adentro, fez o Maracanã tremer.

A história teria sido contada em longos minutos do documentário, mas Alceu pediu para enxugar o trecho. Mesmo assim, ele narra o episódio no filme como se fosse hoje. A edição colocou Alceu cantando uma música que falava de rebeldia pouco antes de interromper o show no Maracanã. É uma marca. No documentário, ele fala de sua eterna insatisfação com as desigualdades sociais no Brasil, da “guerra entre o morro e a cidade”, cantada por ele em “FM Rebeldia”, música de 1990. 

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