Música

Funtastic, que se intitula 1ª banda gay, diz que veio tapar fenda que há na representatividade

Grupo é formado por ex-bailarinos de Anitta, Ludmilla e Valesca Popozuda

Funtastic
Funtastic - Reprodução/Instagram/Funtastic
São Paulo

Diversidade é algo que parece não faltar na música e entre os músicos nacionais nos últimos tempos. A cada botão do rádio ou do controle da TV, pode-se ir da sofrência de Marília Mendonça à delicadeza de Anavitória. Ou quem sabe espiar o rebolado de Anitta, vibrar com os agudos de Pabllo Vittar, curtir o rap do Projota.

Alguns artistas, porém, ainda apontam buracos nessa representatividade e veem espaço para novos estilos. É o que acontece com a banda Funtastic, que surgiu há um ano e meio como a primeira banda gay do país. “Veio Pabllo [Vittar], veio Lia [Clark], veio Gloria [Groove], mas nem todos se identificam com uma drag, nem todo menino tem que colocar peruca para ser aceito”, afirma Jhury Nascimento, que ao lado de Edson Bibiu, Lucas Oliveira e  Thiago Basseto formam o quarteto do grupo. 

"A gente acha incrível o trabalho delas, Pabllo Vittar abriu uma porta gigantesca, muito grande. A gente é muito grato, mas viemos para dar voz a outros meninos, que querem se vestir mais ‘bofinho’, querem usar mais maquiagem, às vezes querem uma roupa mais feminina ou mais masculina", completa ele apontando para os membros da banda destacando o estilo de cada um.

Nascimento, que toma a frente na hora de falar pela banda, diz sem constrangimento que não tinha experiência alguma com o canto quando decidiu se unir aos três colegas. Na verdade, foi a dança que uniu o quarteto, já acostumado com o estrelato por conta de “suas artistas” --as famosas para quem eles dançavam. Sim, a formação dos novos cantores foi toda na dança. 

Nascimento dançou por quatro anos com Valesca Popozuda, mesmo período de Bibiu com Ludmilla, Lucas Oliveira ficou seis fazendo as coreografias de Anitta e Thiago Basseto, embora não fosse fixo de nenhuma das celebridades, já fez parte da equipe de dança de Pabllo, Valesca e Anitta. 

A união dos, agora, cantores aconteceu em 2017 para um projeto ainda voltado para a dança. Todos já se conheciam de academias de dança, testes e de encontros pela estrada. Naquele momento, a ideia era pouco audaciosa. Eles só queriam dançar, fazer uns vídeos, talvez gerar um canal no YouTube, meio estilo Fit Dance. 

“Nós já dançávamos nas maiores tops do Brasil e isso dá força nas redes sociais. Eles mesmo, os fãs, começaram a compartilhar nossos posts. Até que um pessoal grande de produção começou a ver e a se interessar por isso. Nós viramos uma novidade, a primeira gay band. Isso não existe”, recorda Bibiu. 

A ideia de cantar não partiu do grupo, que diz ter se assustado com a proposta desses “grandes produtores”. “Eles falaram: ‘Quero que vocês cantem também’. A gente parou e disse: “O que que ele está pensando?!’”, recorda Oliveira. "Dançar é fácil, vamos sair dessa zona de conforto", teria dito o produtor antes do quarteto aceitar. 

"Saímos com uma agenda de compromissos, como fonoaudióloga e aula de canto. Eles deixaram claro que uma preparadora de voz ia nos avaliar e dizer se seria possível a gente cantar. Mas a gente já tinha ouvido pra música, já trabalhava com isso. Essa coisa de tom, afinação, a preparadora falava e a gente pegava na hora", conta Bibiu.

A primeira música de trabalho, "Balança a Raba" foi lançada em fevereiro de 2018. “A aceitação do público foi maravilhosa. Até então, todo mundo achou que era uma união para fazer vídeo e dança, e quando veio a música as pessoas ficaram surpresas e disseram: “Caramba”, brinca Nascimento aos risos.

Apesar de afirmar que ainda está em fase de aceitação do público, a banda já tem apoio de fãs e de “suas artistas”, a ponto de Ludmilla ser considerada madrinha do grupo. "Nossas primeiras apresentações foram oportunidades dentro de shows dela. Ela também escreveu musica para a gente, gravou e depois fez um clipe", conta Bibiu. 

Depois da música de lançamento e de “Não Vou Parar”, gravada com Ludmilla, o grupo aposta agora em “Taku Fogo”, música apontada pelo quarteto com o “start do público”. E quem pensa que a primeira banda gay do país quer atingir a comunidade LGBTQI+ está enganado: “Nós somos a bandeira, mas a nossa música é popular." 

"A gente não faz música para um único público. É para todos, é para dançar, é para se sentirem felizes. É exatamente isso que a gente traz. O fato de nos rotularmos com a primeira gay band é porque somos quatro gays, mas somos também quatro meninos que se vestem do jeito que querem, têm personalidades diferentes", afirma Nascimento. 

E como atingir esse público variado? O quarteto afirma que tem como base o pop funk, mas quer ir além, buscar novidades, um pouco do afrobeat, um pouco da Angola, um pouco de ragga --gênero eletrônico com influência da Jamaica. “Queremos misturar o que não tem aqui ainda, mas que achamos que vai agradar a todos." 

‘O PROBLEMA NÃO É A GENTE, SÃO ELES’

Apesar da proposta de aumentar a representatividade, o Funtastic também encontra preconceito e, por incrível que pareça, vindo da própria comunidade LGBTQI+. "Além dos preconceitos diários que a gente sofre na sociedade por viver num país hipócrita, existe uma competição dentro desse meio", diz Bibiu. 

"Acho que eles [os preconceituosos] pensam: 'Essa bichinha estava na mesma boate que eu, dançando do meu lado e agora está querendo aparecer’. Como eles não trabalham com o que eu gostam, acabam criando uma casca da frustração e fica só alfinetando, sem nem saber se o nosso trabalho é bom”, afirma Basseto. 

O quarteto, no entanto, sabe que o preconceito não deve acabar mesmo com a chegada do sucesso ou com o reconhecimento da maior parte dos fãs. “Pabllo sofre muito isso ainda. Se entrar hoje num post dela você fica chocado. No começo a gente se assustou um pouco, mas hoje damos gargalhadas. O problema não é a gente, são eles." 

Preconceito também não é uma coisa nova para os quatro amigos que chegaram a passar por isso dentro de casa na infância e adolescência. Bibiu, Nascimento e Basseto contam que tiveram resistência, principalmente do pai na hora que optaram pela dança. Bibiu deixou o jiu-jitsu na época, e Nascimento só pode dançar após a morte do pai. 

“O colégio tinha como atividade extracurricular judô pros meninos e balé e jazz pras meninas. O que eu queria fazer? Jazz! Na minha casa foi o maior escândalo, meu pai não aceitou. Mas eu bati o pé. Eu sou adotado e estava dando dor de cabeça. Mas minha mãe viu que eu podia ser artista”, conta Basseto. 

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