Música

Fafá de Belém lança álbum intimista e diz que busca conversa no ouvido em meio a tanta gritaria

Artista canta músicas de Adriana Calcanhoto e Lulu Santos

Fafá de Belém

Fafá de Belém Marlene Bergamo/Folhapress

São Paulo

“Eu quero agora falar no ouvido, porque todo mundo está gritando”. É assim que Fafá de Belém, 62, começa a falar sobre seu novo álbum, “Humana”, lançado nesta sexta-feira (5) nas plataformas digitais, com dez músicas novas. Cinco são inéditas, mas as outras cinco, embora regravações, aparecem com uma nova roupagem, mais intimista. 

A cantora, que chega aos 44 anos de carreira no próximo mês, diz que o estilo mais enxuto e introspectivo de seu 24º álbum de estúdio foi escolhido por conta do momento atual da sociedade, em que “a palavra é dita da boca pra fora e os discursos não têm essência, são feitos para ficarem bem nas mídias sociais”. 

“Fico indignada com esse desleixo, essa falta de olho no olho. Tem uma música, ‘Resto do Resto’, da Fátima Guedes, que eu poderia cantar como um hino, mas não é essa a nossa intenção. Esse trabalho é viver e poder ter opinião, não é pegar uma placa e sair gritando sem saber o que defende. E essa sou eu.” 

A cantora chega a citar a tragédia de Suzano, na Grande SP, como um exemplo de falta desse olho no olho. “Os pais ficam tranquilos por que os filhos estão em casa, mas eles estão trancados nos quartos”, afirma ela.

A ideia para o álbum surgiu após o Carnaval do ano passado para mostrar “o outro lado do sorriso, o que sustenta Fafá”. Em agosto começaram as pesquisas, até chegarem ao formato e às canções, que inclui desde a inédita “O Terno e Perigoso Rosto do Amor”, de Adriana Calcanhoto, até a regravação de “Toda Forma de Amor” (1988), de Lulu Santos. 

Para alcançar o resultado esperado para esse novo trabalho, Fafá conta que teve que mudar também a forma de fazer música. Não o modo de cantar e muito menos os tons, que ela afirma orgulhosa manter aos 62 anos os mesmos que usava aos 17, mas o cuidado com cada uma das canções, o que demandou muito mais tempo. 

“No meu último disco eu coloquei todas as vozes em quatro horas, porque eu estava ali dançando roda, era festa, mas nesse não, eu tive que mergulhar em cada canção e tirar os excessos. Foi como eu fazia em 1975. Entrar no estúdio, ficar cinco horas e terminar falando ‘nada deu certo, amanhã a gente começa tudo de novo’”, conta ela. 

E como a ideia é uma mensagem no ouvido um olho no olho, a cantora também não pensa em fazer apresentações em campos de futebol e divulgações superlotadas. A ideia com “Humana” é ocupar pequenos espaços, como teatros e casas de show, com um cuidado para não ficar chato, um monte de mensagens. 

EMPODERAMENTO E SOPHIA LOREN

A partir de um retrato intimista de si mesma, Fafá de Belém afirma que “Humana” é um mergulho na alma das mulheres renegadas pela sociedade: “Mulheres que dizem não ao convencional. Não usam manequim 38 e mesmo assim vão a luta, são lindas, pegadoras, mas quando são retratadas pela mídia são uma caricatura. Essa sou eu”. 

Vinda de Belém para o São Paulo quando ainda tinha 17 anos para fazer música —apesar do sonho de ser psicóloga que ainda nutria naquela época— Fafá afirma que passou por muita situação de preconceito: por ser paraense, por ser gorda e depois por conta de seus posicionamentos políticos e sociais, mas poucas vezes por ser mulher. 

“Quando entrei na primeira gravadora, o diretor falou ‘primeiro emagreça 10 kg’. Eu respondi: ‘Mas eu não quero ser vedete’. Saí chorando, mas enfrentei [risos]”, conta Fafá, que na época tinha como inspiração a atriz italiana Sophia Loren, 84, com suas roupas acinturadas e decotes provocantes, sempre misturado ao estilo amazonense. 

“Quando eu vi Sophia Loren eu falei ‘Yes, I can’ [garagalhadas], por que nenhuma roupa ficava bacana em mim aos 12 anos. Aí eu comecei a desenhar eu mesma: decotão, saião. Eu me libertei”, recorda ela que levou esses modelitos para São Paulo: saias de carimbó, pé descalço, a flor no cabelo, que ela mesma pegava na rua. 

Essa pegada feminista, de mulher decidida, aparece neste álbum em músicas como “O Resto do Resto” e “Eu Sou Aquela”, mas Fafá afirma ter ressalvas em relação ao tal “empoderamento feminino” defendido de, as vezes de forma tão extrema, pelas jovens de hoje. “Parece um machismo maquiado de empoderamento feminino”, avalia ela.  

“Há pessoas sérias, pessoas militantes maravilhosas, mas é preciso cuidado com nossas crianças. Eu não entendo uma menina de 12 anos dançando sem calcinha em um baile funk e achando que é empoderamento. Ela não tem maturidade pra saber o que fazer com o corpo dela ainda, nem o que é empoderamento”, afirma. 

TIRADA DE UM PAPEL QUE CONQUISTEI

“O estado está podre, está quebrado, está falido e há muito tempo. E o mundo está moralmente falido”, afirma Fafá de Belém numa versão mais velha e mais descrente no poder político do país se comparada com a Fafá que subiu em palanques e puxou comícios no início dos anos 1980 como parte do movimento pelas Diretas Já. 

A cantora recorda com orgulho daquele tempo, mas logo transparece um ressentimento, uma mágoa pelo preconceito e discriminação que sofreu em decorrência de sua participação. Talvez por isso, hoje se coloque tão a par das disputas políticas do país, focada mais no trabalho de migalhinha de cada um. 

“Mexeu muito comigo, mas eu estava vendo uma minissérie sobre as Diretas Já e eles me tiraram. Os autores me tiraram de uma série sobre as Diretas. É preconceito ou ignorância ou falta de pesquisa. Um comício na Candelária, quando tem um milhão de pessoas cantava comigo ‘Menestrel de Alagoas’, eles editaram e mudaram a música.” 

“Como me tiram do papel, não que eu conquistei, mas que o povo me deu, de condutora das Diretas”, continua ela. “As pessoas pensam que podem apagar a história? É contra isso que me coloco contra: a manipulação da verdade, o falseamento da realidade, as fake news sórdidas que são vendidas como verdade”. 

Lá na década de 1980, Fafá conta que já havia sofrido uma campanha de difamação por ter abraçado as Diretas Já, e que nenhum artista ou político com quem tinha dividido o palanque a ajudou. “Passei quase dois anos sem trabalhar”, afirma ela, garantindo nunca ter sido remunerada ou ter se afiliado a nenhum partido político. 

Hoje, Fafá afirma que não quer se envolver: “Eu entendo que já fiz muito. Todo sabe quem eu sou. Minha trajetória está escrita na história do Brasil, em qualquer livro que estude Diretas e Tancredo. Também existe o nosso movimento, de formiguinha, de conscientização, de postura, de posicionamento. Sério, comprometido e embasado.”

GARGALHADAS E ESPIRITUALIDADE

Apesar do trabalho mais intimista, Fafá, hoje com 62 anos, continua a mesma. Fala alto, canta, gesticula e gargalha constantemente enquanto fala do novo trabalho. Mostra o vestido, tirado do corpo de uma amiga momentos antes da entrevista e fala da fase mais dedicada a espiritualidade que vive hoje. 

“Cada vez mais estou voltando pra esse lado, fazendo coaching, meditando, porque o dia a dia está muito pesado. É fácil se contaminar”, afirma ela, que conta alto e meio aos risos que está fazer um “detox” de celular. “Isso tem controlado meu jeito impulsivo e me ajuda a dirigir melhor meu tempo”, conta em meio aos risos. 

A preparação agora é para a peregrinação que fará da cidade de Nazaré até o Santuário de Fátima, em Portugal, no próximo mês. Serão três dias de caminhada sem poder falar: “Desafio da porra!”, afirma Fafá durante uma longa gargalhada. “E vou com um amigo e uma amiga, vai ser difícil”. 

A cantora conta que sempre quis fazer o caminho de Santiago de Compostela, no Chile, mas nunca deu certo. Agora resolveu fazer pela primeira vez a peregrinação popular em Portugal, país onde Fafá tem uma casa e faz shows regularmente há 34 anos, desde que foi convidada para o relançamento do Cassino Estoril, em Lisboa. 

Na época do convite, Fafá conta que não queria fazer o show, mas foi dissuadida por um argumento muito forte: a aproximação da capital portuguesa da cidade de Paris, na França. “Mas foi maravilhoso! Então todo ano eu vou, faço lançamentos, divulgação. Até deu uma diminuída com a crise em Portugal, mas há dois anos voltamos.” 

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