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Estilista André Carvalhal diz que vestimos 'planta, bicho e petróleo' sem nos darmos conta

Criador da marca Ahlma, ele participou do programa Se Essa Roupa Fosse Minha

Estilista André Carvalhal, idealizador da ALHMA
Estilista André Carvalhal, idealizador da ALHMA - Instagram/carvalhando
São Paulo

É preciso informação para consumir moda de forma sustentável, e o estilista André Carvalhal é um dos especialistas que ajuda a disseminar essa cultura e conceito de desenvolver roupas sem prejudicar o ecossistema que existe ao redor da cadeia de produção.

Criador da marca Ahlma, escritor e professor, Carvalhal comemora a existência de programas como o Se Essa Roupa Fosse Minha (GNT), do qual participa e que desincentiva o exagero do consumo. Em conversa com o F5, ele tirou dúvidas e derrubou mitos, como o fato de que há opções para quem não consegue investir grandes somas em tecidos sustentáveis.

"Há novas formas de acesso a moda que são baratas e acessíveis, como a troca, o aluguel, o pegar emprestado, repetir roupa, ir a brechós", explica ele. Mas a principal barreira contra a moda sustentável ainda é a desinformação. "Sem nos darmos conta, a gente veste planta, bicho e petróleo."

O estilista também é autor dos livros "Moda com propósito: Manifesto pela Grande Virada" (2016), " Viva o fim: Almanaque de um Novo Mundo" e "A Moda Imita a Vida - Como Construir Uma Marca De Moda", ambos de 2018.

Leia trechos da entrevista com André Carvalhal.

O que já é palpável na questão da moda sustentável? Como manter hábitos ecologicamente corretos?
O principal impacto ambiental é provocado pelo uso de determinada matéria-prima, e o principal impacto social é provocado pela forma como se produz uma roupa. O caminho para um consumo mais consciente tem a ver com questionar e entender mais sobre esses assuntos. Antes de comprar, procure questionar quem fez aquilo, de que forma a peça foi feita, de onde a matéria-prima veio, qual foi o processo de produção dela e quais impactos que aquilo vai gerar no mundo. Esses são os primeiros passos para o caminho de um consumo mais consciente. 

É muito caro ser ecologicamente correto na moda? É um hábito para poucos?
Consumir moda de forma consciente não é um hábito para poucos, até porque o que gera menos impacto na natureza é não consumir. Brincadeiras à parte, há também novas formas de acesso à moda que são baratas e acessíveis, como a troca, o aluguel, o pegar emprestado, repetir roupa, ir a brechós. Todos esses são novos hábitos de cultura de moda que estão cada vez mais em alta e não tem, necessariamente, a ver com produção ou custo alto.
E quando a gente fala de uma roupa nova feita com impacto ambiental mais baixo também há opções mais baratas, como upcycling que tem a ver com você transformar peças que já existem através de sua criatividade, produzir peças com matéria-prima de sobra, tudo isso tem a chance de ter um custo menor do que uma roupa nova. Existe caminho de sustentabilidade para todos. 

A escolha dos tecidos faz diferença? Couro sintético pode ser considerado ecológico?
A escolha do tecido faz diferença porque é na matéria-prima que começa o impacto da roupa no meio ambiente. Mesmo sem se dar conta, a gente veste planta, bicho e petróleo. Tudo o que a gente usa vem da natureza e, de alguma forma, volta para a natureza. Pensar os impactos e entender o processo sobre o que a gente usa, vai fazer toda a diferença para um consumo mais consciente. Nesse quesito, toda matéria-prima tem um lado positivo e um negativo.
Tem muito a ver com a visão e o que você quer privilegiar. O couro normal, proveniente da pecuária, ele gera um impacto ambiental altíssimo desde o consumo de água até a devastação de área de soja para alimentação desse gado, e quando você passa para um couro sintético, você preserva o animal, uma vida, mas por outro lado, você tem consumo de materiais de fontes não renováveis, gasto de água também muito grande. Existem prós e contra em tudo. O importante é tentar entender. 

Como você usa esses conceitos em suas marcas?
Procuramos utilizar o que pode causar o menor impacto possível. E a gente acredita que o menor impacto ocorre quando usamos coisas já prontas. Peças feitas a partir de tecidos e roupas que já estão prontas e por algum motivo não foram utilizados.
São tecidos com qualidade e que estão em boa condição de uso ou sobraram na fábrica ou na linha de produção de parceiros. Isso acontece por mudança de cartela de cor ou por mudança de estação. E essas peças que já causaram impacto para serem produzidos são reinseridas no mercado. Outra forma mais sofisticadas de reciclagem é a nossa linha de jeans, que é feita a partir de outros jeans. 

O que achou de participar do programa Se Essa Roupa Fosse Minha?
Foi uma grande evolução para a cultura de moda. E pensar que anteriormente os programas de moda no mesmo canal tratava de desfile, tendências de produto, com o estilo de usar o novo e comprar o que era lançamento.
Agora, a gente fala que é legal trocar de roupa com as amigas, que é legal comprar coisas que foram de alguém, vender suas roupas quando você não quiser mais. São novos valores da moda que quebram muitos paradigmas e que, certamente, trará um futuro para o universo da moda mais saudável para o planeta e para as pessoas. 

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