Tony Goes

Por que 'Um Lugar ao Sol' ainda não decolou na audiência?

Apesar das qualidades, novela de Lícia Manzo vem desapontando no Ibope

Os gêmeos Christian e Christofer/Renato (Cauã Reymond) trocam de identidades em 'Um Lugar ao Sol'
Cauã Reymond em cena de 'Um Lugar ao Sol' - Reprodução/Gshow
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A primeira semana de "Um Lugar ao Sol", a primeira novela 100% inédita na faixa das 21h da Globo em quase dois anos, encantou a crítica e os internautas. A autora Lícia Manzo conseguiu dar frescor e atualidade a uma das tramas mais batidas dos folhetins, os gêmeos que trocam de lugar. A direção artística de Maurício Faria não fica nada a dever à das melhores séries do streaming, e o elenco bem escalado teve muitas chances de brilhar.

Apelidada de "Cauã Pobre, Cauã Rico" nas redes sociais, a novela é sempre um dos assuntos mais comentados do dia. Mas estar no topo da lista dos trending topics não significa que ela também seja um sucesso de audiência. Pelo contrário: desde sua estreia no dia 8 de novembro, "Um Lugar ao Sol" vem entregando números aquém do esperado.

O movimentado primeiro capítulo, que introduziu a história dos gêmeos separados ao nascer e criados em meios sociais diferentes, ambos vividos por Cauã Reymond, bateu um recorde negativo. Com média de 25 pontos na Grande São Paulo, o episódio agora ostenta o título de pior estreia do horário de todos os tempos. A recordista anterior, "A Lei do Amor", marcou 31 pontos quando estreou em 2016.

Estes dados podem não querer dizer muita coisa. Quase toda estreia de novela hoje em dia é "a pior de todos os tempos". Muitas se recuperam depois. Mesmo assim, o resultado não deixa de ser surpreendente. Afinal, o público não estava faminto por uma novela totalmente inédita?

Alguns fatores externos ajudam a explicar esse relativo fracasso. Digo relativo porque 25 pontos é muita coisa em qualquer lugar do mundo –menos para os padrões estratosféricos da Globo, que se acostumou a dar médias de 60 pontos ou mais nos áureos tempos.

Um deles é a época em que a novela estreou. O final do ano costuma ser inclemente com a audiência da TV, pois muita gente está mais ocupada em fazer compras de Natal e planejar férias. Além disso, as duas primeiras semanas de "Um Lugar ao Sol" coincidiram com jogos classificatórios cruciais da Copa do Mundo de 2022. A atração foi ao ar mais cedo, com capítulos mais curtos, nada menos do que três vezes nesses dias. E novela, como todos sabemos, é hábito.

Para complicar, "Gênesis", na Record, está em sua reta final. A trama bíblica foi a primeira novela inédita a estrear durante a pandemia, e ganhou público ao longo dos meses. Chega a bater a Globo em praças como Goiânia. Aproveitando a onda, a Record vem esticando os capítulos. Mas "Gênesis" termina na próxima segunda (22), para alívio de sua concorrente.

E os fatores internos? Vou arriscar alguns palpites. "Um Lugar ao Sol" será uma novela curta, com apenas 107 capítulos. Isso permitiu que Lícia Manzo evitasse ao máximo a famosa "barriga", aquela fase da trama em que nada de importante acontece, e acelerasse o andamento dos conflitos principais. Talvez tenha acelerado demais. O ritmo vertiginoso dos três primeiros capítulos agradou quem está acostumado às séries do streaming, mas pode ter causado estranheza no público mais velho e sem acesso às plataformas.

O segundo episódio, aliás, foi uma sucessão de desgraças difícil de acompanhar. O personagem Christian, o "Cauã pobre", precisava levantar R$ 2.500 para tirar seu amigo Ravi (Juan Paiva) da cadeia. Menos de 48 horas depois, ele devia R$ 50 mil, havia perdido o emprego e estava jurado de morte por traficantes. Num tempo em que tanta gente passa por tremendas dificuldades, este capítulo não foi exatamente um divertimento escapista.

Tem ainda a questão da complexidade dos personagens. Lícia Manzo se notabilizou por criar figuras de carne e osso, cheias de defeitos e qualidades. Em suas novelas, ninguém é totalmente bom ou mau. E Christian, apesar do ar de bom moço, revelou pequenos desvios de caráter nos três primeiros dias. Isso pode ter afugentado o espectador que prefere mocinhos e vilões bem marcados.

Não há como a Globo mudar a trama de "Um Lugar ao Sol": os capítulos já estão totalmente gravados. A emissora sempre pode reeditá-los, sob o risco de deixar a novela ainda mais curta. Prevista para terminar em março, ela pode acabar saindo do ar em fevereiro, às vésperas do Carnaval –a pior data possível para a estreia de "Pantanal", a grande aposta da Globo para 2022.

Mas há um sinal alvissareiro para a audiência. "Um Lugar ao Sol" tornou-se, desde sábado (13), a atração mais vista da plataforma Globoplay, desbancando "Verdades Secretas 2", novela exclusiva do streaming. Isto quer dizer que o interesse pela trama vem aumentando, e pode se refletir no Ibope em breve.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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