Cena do filme 'The Power of the Dog' ('Ataque dos Cães') Netflix

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Roslyn Sulcas
The New York Times

No começo da filmagem de "Ataque dos Cães", novo e denso psicodrama da cineasta Jane Campion, a diretora reuniu os atores e a equipe de filmagem em um canto remoto e magnífico da Ilha Sul da Nova Zelândia, que serviu de locação para uma história que passa em Montana.

Depois de uma bênção maori, Campion começou a apresentar todo mundo. "Este é Phil Burbank", ela disse, quando Benedict Cumberbatch, 45, deu um passo à frente. "Benedict é um amor de pessoa, e vocês vão ter oportunidade de conhecê-lo quando a filmagem acabar".

Phil, o personagem inteligente, raivoso e intimidador interpretado por Cumberbatch, é o mais velho dos dois irmãos que dirigem uma próspera fazenda de pecuária, e ele com certeza não é um amor de pessoa.

Domina e insulta seu irmão, o calado e gentil George (Jesse Plemons), e sua hostilidade, que parece fervilhar constantemente, encontra um alvo fácil quando George se casa com Rose (Kirsten Dunst), uma viúva local, mãe de um filho adolescente, o pedante Peter (Kodi Smit-McPhee).

Phil é um macho-alfa, um caubói soturno e (literalmente) sujo. Mas começamos lentamente a perceber que Phil, que estudou latim e grego em Yale, na verdade também está interpretando um papel.

"À sua maneira seca, ao me apresentar aquele jeito Jane me deu permissão para ser Phil", disse Cumberbatch, em uma entrevista por vídeo de sua casa na Inglaterra. Com cabelo muito mais exuberante do que o de Phil, e desprovido do olhar ameaçador que caracteriza o personagem, ele parecia relaxado, e falou sobre o papel de maneira muito articulada.

"O comportamento dele é repelente, mas existe um grande reservatório de dor, lá, uma vida que não foi vivida, um desenvolvimento interrompido que orienta a maneira pela qual ele se comporta. Se não compreendermos os monstros que vivem em nosso mundo, o que motiva o comportamento deles, se não formos capazes de olhar para além de uma caracterização como bonzinho ou malvado, então teremos problemas".

Para interpretar esse monstro complexo e controlador, Cumberbatch se concentrou no lado físico do papel como jamais tinha feito, e aprendeu a cavalgar e a trabalhar com animais, para personificar o domínio árduo de Phil sobre o seu ambiente.

A experiência foi muito recompensadora para o ator, já gerou rumores de Oscar, e resultou em algumas das melhores críticas que ele já recebeu. "Cumberbatch é espantoso no papel, ao transformar seu sarcasmo tradicional em um torniquete de ameaça constrita", escreveu David Ehrlich, do IndieWire.

"O desempenho inesquecível que resulta disso –com certeza o melhor de sua carreira– é ao mesmo tempo aterrorizante e aterrorizado". Campion, a primeira mulher a conquistar o maior prêmio do Festival de Cannes por "O Piano", em 1993, adaptou "Ataque dos Cães" de um romance de Thomas Savage publicado em 1967.

O filme, que será lançado nos cinemas americanos em 17 de novembro e começa a ser exibido pelo serviço de streaming Netflix a partir de 1º de dezembro, é o seu primeiro em 12 anos, e o primeiro em sua carreira a ser protagonizado por um homem.

Campion disse em entrevista por telefone que admirava há muito tempo a capacidade de Cumberbatch de "fazer algo inesperado". No caso de Phil, o necessário é "a garra e a capacidade de trabalho para criar alguém que valha a pena odiar e temer. Estamos falando de um personagem que talvez seja um dos mais interessantes na história da literatura americana".

O filme surge apenas algumas semanas depois do lançamento de outro trabalho impressionante de Cumberbatch, "The Electrical Life of Louis Wain", que estreou na Amazon Prime em 5 de novembro —no Brasil, a data de disponibilização ainda não foi confirmada. No filme, ele interpreta o ilustrador Louis Wain, emocionalmente frágil, socialmente canhestro, e brilhantemente talentoso, que no final do século 19 se tornou famoso por seus divertidos desenhos antropomórficos de gatos.

Louis é o completo oposto de Phil. Ele é um homem incapaz de cumprir os papéis tradicionais masculinos de provedor e autoridade, em uma era que requer que ele tome conta de sua mãe e de suas cinco irmãs solteiras. Mas Louis se apaixona quando não devia, e termina casado com Emily (Claire Foy), governanta de sua irmã mais nova; quando ela adoece, ele começa a desenhar gatos para ajudá-la a recuperar o ânimo.

"Com o tempo, à medida que a vida de Louis passa por diversas viradas dramáticas, o amor dele pelos gatos se aprofunda e sua arte muda, e o mesmo acontece com o filme e com a interpretação multidimensional de Cumberbatch, um trabalho aberto, terno e que mostra um controle completo de desempenho", escreveu Manohla Dargis em uma resenha sobre o filme no New York Times.

Sharpe disse que o ator "não tem medo de se colocar em qualquer que seja o cenário", acrescentando, em uma entrevista por telefone, que "existe alguma sobreposição entre Louis e Benedict –um diário sempre atualizado, muita energia, muitas ideias".

Cumberbatch disse ter adorado absolutamente tudo em Louis Wain. "Senti uma conexão semelhante à que senti com Alan Turing em ‘O Jogo da Imitação’: eram dois personagens muito quietos em um mundo muito barulhento", ele disse, acrescentando que os problemas de saúde mental de Wain o comoveram, "a maneira pela qual aquela época barulhenta, mecanizada e industrializada era capaz de sufocar alguém que provou ser um verdadeiro herói para muita gente, em múltiplas gerações".

Cumberbatch, que ganhou fama cerca de uma década atrás interpretando o ranzinza, brilhante e emocionalmente desconexo Sherlock Holmes em "Sherlock", série da BBC, tem experiência em interpretar personagens fortemente idiossincráticos.

Ele foi indicado ao Oscar por sua interpretação de Turing; ganhou um prêmio BAFTA pelo papel de um inglês rico, viciado em drogas e vítima de abusos na série "Patrick Melrose", do canal Showtime; e interpreta o Dr. Estranho no Universo Cinematográfico Marvel (Cumberbatch faz parte do elenco de "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa", que está para ser lançado).

"Minha descrição pessoal ficaria enquadrada em categorias bem tediosas", disse Cumberbatch, que é casado e tem filhos. "O que me atrai nessas pessoas é sua alteridade, a diferença delas com relação às experiências que vivi. Quero compreendê-las vendo por dentro, e não simplesmente sair declarando que 'é, sei exatamente qual é a sensação daquilo'."

Os pais de Cumberbatch são atores, e ele relembra a experiência de estar nos bastidores de produções teatrais desde criança, e de ver sua mãe, Wanda Ventham, subir ao palco "e deixar de ser minha mãe". Ele ficou fascinado, conta, por ver "as pessoas ali, sentadas no escuro, escutando aquela narrativa".

Cumberbatch começou como ator enquanto ainda estava na escola, "brinquei com a ideia de me tornar advogado", e depois estudou teatro na Universidade de Manchester e atuação na Academia de Música e Arte Dramática de Londres. Os primeiros seis meses dele como ator profissional passaram sem empregos, "e com um pouquinho de desespero", mas depois disso ele começou a conseguir pequenos papéis no cinema e na televisão.

Em 2010, quando saiu a primeira temporada de "Sherlock", Cumberbatch já era um ator estabelecido e sempre ocupado, no Reino Unido, mas não era possível descrevê-lo como astro internacional. E de repente tudo mudou. "Depois disso, a coisa da fama se tornou bem aguda", ele disse. "Por algum tempo, aquele trabalho era o motivo para eu ter me tornado conhecido, e sou grato por isso.

Mas a possibilidade de que aquilo viesse a dominar minha vida, e que passasse a ser a única coisa pela qual eu era reconhecido, me preocupava. Acho que isso já não é verdade" (Uma nota para os fãs ardorosos de "Sherlock": Cumberbatch não descartou a possibilidade de voltar a fazer o papel. "Nunca dizemos nunca sobre fazer aquele papel de novo").

Foy, que já tinha trabalhado com Cumberbatch no passado em "Wreckers", um filme independente de baixo orçamento, disse em entrevista por telefone que o colega é "o epítome de um ator, e à moda antiga, no sentido de que ele é excêntrico, ele tem manias, e mergulha fundo nos papéis. Para ele, atuar, a técnica e o processo de atuar, são uma paixão, algo que nem sempre é verdade para todos os a tores".

Para "Ataque dos Cães", recordou Campion, "eu lhe disse que o problema estava em que ele era o sujeito mais inglês do planeta, mas o filme o transformaria em um pecuarista americano em 1925". Cumberbatch passou meses se preparando antes que as filmagens começassem na Nova Zelândia, em janeiro de 2020. O trabalho foi suspenso na metade, por conta do lockdown, e retomado três meses mais tarde.

Ele começou por um conjunto de referências visuais que Campion montou. "Isso me deu uma sensação sobre a sensualidade do filme, a natureza erótica de certos aspectos do personagem, sua masculinidade, tingida com os tons sobrenaturais de um sátiro".

Campion perguntou sobre o que ele precisaria para fazer o papel. Cumberbatch respondeu que precisava fazer aulas "sobre como talhar madeira e aulas de equitação, de banjo, de treinamento como caubói", ele recorda.

O ator passou diversas semanas em fazendas na região de Montana. "Uma forma de vida maravilhosa se abriu para mim", ele disse, acrescentando que "aprendi a fazer quase tudo que apareço fazendo no filme". Ele cataloga: "Aprendi a trançar cordas, a trabalhar com o gado, a castrar animais –a trançar cordas fumando um cigarro, o que é incrivelmente difícil!".

Ele também aprendeu a assobiar, a maneira pela qual Phil tortura Rose quando ela tenta praticar piano. "Foi minha ideia", ele disse. "Achei que seria uma coisa muito cruel, uma forma de exercitar meu controle". Antes da filmagem, o elenco passou duas semanas ensaiando na Nova Zelândia. "Fiz coisas como passar uma semana sem tomar banho, levantar de madrugada para cuidar dos animais, e aprendi a preparar uma sela", ele disse.

"Tudo isso precisava parecer muito natural, na tela". Campion também deu exercícios aos atores, pedindo que os realizassem personificando os personagens. "Nós fizemos uma caminhada de ‘irmãos’", disse Plemons.

"Começamos discutindo coisas como se fôssemos os personagens, por sugestão de Jane, e depois desenvolvemos juntos a história mútua dos dois". No filme, os personagens não conversam muito, acrescentou Plemons.

"Havia muita história a contar por meio de muito pouco texto, e por isso a maneira pela qual eles se comportavam um em companhia do outro era realmente importante; cada ação importava". O lado físico, atlético, muscular de Phil é tão específico e pronunciado quanto a presença sobressaltada de Louis Wain, sua postura tensa, seu hábito de coçar a cabeça e de desenhar com as duas mãos.

"O que as experiências de vida fizeram para ditar o comportamento de alguém, a maneira pela qual isso se manifesta no corpo, é muito importante para mim", disse Cumberbatch, acrescentando ter trabalhado com coreógrafos em ambos os filmes a fim de refinar essas características físicas.

Logo no início do trabalho, disse o ator, ele e Campion decidiram que ele deveria ficar no personagem o tempo todo que estivesse no set –mesmo nas conversas entre ele e a diretora nos intervalos das tomadas. "Não é que eu tentasse levá-la a me tratar como se eu fosse o personagem, mas eu me comportava sempre como ele. Por sorte, Jane parecia gostar bastante de Phil, e eles em geral se davam bem".

Ele acrescentou que "minha teoria sempre foi que o ideal como ator é poder entrar e sair do personagem". Mas porque as experiências, o ambiente e a era de Phil eram tão diferentes, "para mim foi extremamente útil poder ocupar aquele espaço durante todo o da de trabalho", para poder "me sentir centrado quando estivesse diante da câmera".

Dunst, que descreve Rose como uma personagem vulnerável e gentil, incapaz de resistir ao ciúme e ressentimento de Phil quando ela se casa com George, disse em entrevista por telefone que ela e Cumberbatch decidiram não conversar no set.

"Acho que, porque o personagem dele era tão distante de sua personalidade, isso era uma forma de autorizá-lo a ter raiva", ela disse. "Ele tinha de encontrar aquele ódio por Rose, e eu minha resposta a isso". Nos finais de semana, a atriz acrescentou, eles saiam para jantar e almoçar e "passávamos horas divertidas e adoráveis, e ele sempre me pedia desculpas. Uma coisa muito inglesa!"

O que a história do filme tem de extraordinário, disse Cumberbatch, é que "ela ainda é relevante. Continuam a existir traços de personalidade raivosos e masculinidade tóxica em líderes mundiais recentes, isso sem falar em outras formas de abuso doméstico ou comportamentos masculinos repulsivos".

É importante, ele acrescentou, que "estejamos chegando a um ponto em que as mulheres sejam ouvidas. Mas também deveríamos estar contemplando os homens: por que eles são assim?". A experiência de trabalhar em "Ataque dos Cães" foi "embriagante", disse Cumberbatch, mostrando uma prateleira de recordações do filme que ele montou, com adereços de cena, fotos e presentes que ganhou da equipe.

"Não seria nem necessário dizer o quanto é raro assistir a um trabalho seu da plateia e sentir que ‘nossa, era exatamente isso que eu queria naquela cena, naquela interpretação, em toda a trajetória daquele personagem’". Ele apontou para a prateleira. "Agora meu foco é a próxima prateleira que preciso ocupar; é para lá que desejo ir, como artista".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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