Tony Goes

Reconhecimento do funk é bacana, mas falta relevância aos Grammys Latinos

Ritmo foi classificado como música urbana na premiação

cantora Anitta de branco nos arcos da lapa cantando com dançarinas
Anitta em performance nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, para o Grammy Latino de 2020 - Ricardo Brunini/Divulgação
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São Paulo

Os prêmios Grammys Latinos existem desde 2000. Eles são promovidos pela Academia Latina de Gravação, um braço da poderosa Academia de Gravação (Recording Academy) —a responsável pelos Grammys, a premiação de música mais famosa do mundo.

Os Grammys tradicionais já incluíam algumas categorias voltadas à música latina, mas sua variante regional aumentou bastante o escopo. Surgiram troféus específicos para gêneros como o tango, a cumbia e o flamenco, além de oito categorias exclusivas para gravações em língua portuguesa.

Nas categorias principais —gravação, álbum, canção e artista revelação do ano— todos os países latino-americanos concorrem entre si, além de Espanha e Portugal. Sabe quantas vezes o Brasil saiu vencedor em alguma delas? Exatamente duas: Maria Rita foi eleita a revelação de 2004 e, no ano seguinte, Ivan Lins levou o prêmio de álbum do ano por “Contando Histórias”. Ponto. Todos os outros troféus dessas categorias, em todos os anos, foram ganhos por artistas que cantam em espanhol.

Alguém aí sabe dizer de cabeça quem venceu como melhor canção em língua portuguesa na última edição do prêmio? Ou como melhor álbum em língua portuguesa? Pois é, nem eu. Parabéns aos vencedores, mas a repercussão por aqui dessas vitórias ainda é ínfima.

No entanto, neste domingo (18), os Grammys Latinos foram parar nos trending topics do Twitter. A razão foi singela: em seu site, a Academia Latina de Gravação incluiu o funk brasileiro como um dos ritmos musicais que podem ser considerados para as categorias de música urbana, junto com o rap, o hip-hop, o reggaeton e outros estilos.

Não que a Academia tivesse ignorado o nosso funk até hoje. Anitta já concorreu duas vezes ao prêmio de melhor canção urbana, com “Downtown” (2018), ao lado de J. Balvin, e com “Rave de Favela” (2020), com MC Lan e Major Lazer. Seu disco “Kisses” foi indicado a melhor álbum de música urbana de 2019. Em todas essas vezes, Anitta saiu de mãos abanando.

Mas o anúncio deste domingo foi comemorado pelos internautas como uma vitória pessoal dela e de toda a música popular brasileira. A hashtag “Anitta, você venceu” já acumula milhares de tuítes, e nomes como Lexa e Ludmilla também se juntaram à celebração.

Devemos estar muito carentes de triunfos, após derrotas no esporte como a perda da Copa América para a Argentina, e tragédias como as 550 mil mortes que a pandemia já causou no Brasil.

O reconhecimento por escrito pela Academia Latina de que o funk brasileiro está habilitado para concorrer nas categorias urbanas é bem bacana, mas não chega a ser uma novidade que tornará nossa música a mais ouvida no resto do mundo.

Para isto começar a acontecer, mais artistas brasileiros precisam ser indicados nas categorias principais, e mais artistas brasileiros precisam vencer essas categorias. Enquanto os Grammys Latinos forem um clubinho dos falantes de espanhol, com uma ênfase exagerada no México, na Colômbia e em Porto Rico, ele continuará sendo uma premiação meio irrelevante para a cultura brasileira.

Honrarias e prestígio são sempre bem-vindos. Mas, no frigir dos ovos, o que mede a importância de um prêmio é sua capacidade de afetar a carreira dos premiados, e as bilheterias ou vendas dos títulos agraciados. O Oscar costuma fazer isto, os Grammys tradicionais também. Neste quesito, os Grammys Latinos ainda têm muito chão pela frente.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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