Tony Goes
Descrição de chapéu Emmy

Em ano com poucas injustiças, maior disputa no Emmy se dá entre minisséries

Indicações ao prêmio da TV americana saíram nesta terça-feira

Estátua do Emmy - Robyn Beck / AFP
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A Academia de Televisão dos Estados Unidos, cujos associados votam nos prêmios Emmy, é conhecida pelo conservadorismo. Durante muitas décadas, a mais importante premiação da TV americana favoreceu grandes sucessos de audiência, em detrimento de programas de maior qualidade. Também era comum que um mesmo ator fosse agraciado pelo mesmo papel durante anos a fio, enquanto sua série estivesse no ar.

Em alguma medida, tudo isso ainda acontece, mas, nos últimos tempos, o gosto da Academia vem se alinhando ao da crítica. A maior razão é o avanço da TV paga e, mais recentemente, das plataformas de streaming, cujas produções costumam ser mais ousadas –e mais “de nicho”– do que as da TV aberta. Simplesmente não deu para ignorar títulos como "Família Soprano”, “Mad Men” ou “Breaking Bad”, que mudaram o curso da história da TV.

Algumas mudanças nas regras também influíram nos resultados. Antigamente, cada categoria podia ter, no máximo, cinco indicados. Hoje algumas podem chegar até oito, o que reduziu drasticamente o número de injustiçados. Mas o aumento de concorrentes também deixou as corridas mais acirradas, gerando, vez por outra, resultados surpreendentes.

Nos últimos dois anos, algo inédito aconteceu: produções estrangeiras, ainda que faladas em inglês, venceram o Emmy de melhor série cômica. A britânica “Fleabag” foi a campeã de 2019, e a canadense “Schitt’s Creek”, a de 2020, ambas em suas temporadas finais.

Essas vitórias inusitadas também se deveram, em parte, à saída de antigos favoritos do páreo. Séries queridinhas da Academia, como “Game of Thrones”, “Modern Family” ou “Veep”, encerraram seus ciclos, deixando o campo aberto para novidades.

A tendência se acirrou em 2021. A lista de indicados ao Emmy, divulgada nesta terça (13), traz inúmeros programas novos, ainda em suas primeiras temporadas. Algumas barbadas já se impõem. Entre as comédias, deve vencer “Ted Lasso”, da Apple TV +, e também seu ator principal, Jason Sudeikis, que interpreta um técnico de futebol americano contratado para treinar um time de futebol tradicional, em Londres. A veterana Jean Smart, protagonista da ótima “Hacks” (HBO Max), deve sair vencedora entre as atrizes cômicas.

Entre os dramas, as apostas se concentram em duas séries já bem conhecidas: “The Crown”, da Netflix, e “The Handmaid’s Tale”, da plataforma Hulu, disponível no Brasil no Paramount +, no Globoplay e no UOL Play. Meu palpite vai para a primeira, por ser uma produção suntuosa eivada de bons atores e que, apesar de sempre ser indicada, nunca venceu como série dramática (“The Handmaid’s Tale” ganhou logo por sua primeira temporada, em 2018).

hacksÉ entre as minisséries que se dá a disputa mais emocionante. Alguns críticos já perceberam que o nível delas está, de modo geral, bem mais alto do que o das séries com várias temporadas. Talvez porque, com um número limitado de episódios, boas histórias possam ser contadas sem enrolação.

Todas as cinco indicadas são boas: “Mare of Easttown” (HBO), “I May Destroy You” (HBO), “Wanda Vision” (Disney +), “The Underground Railroad” (Amazon Prime Video) e “O Gambito da Rainha”, um dos programas da Netflix mais assistidos de todos os tempos. Meu coração se divide entre “Wanda Vision”, que presta homenagem às sitcoms antigas, e "I May Destroy You”, que começa em tom de comédia e se torna um contundente libelo contra o assédio sexual.

Há pelo menos duas omissões gritantes nesta lista: “Halston” (Netflix), que narra a trágica vida de um dos maiores nomes da moda americana e é talvez o melhor trabalho do prolífico produtor Ryan Murphy, e a britânica “Small Axe” (BBC) —na verdade, cinco longas-metragens dirigidos por Steve McQueen, que exploram a experiência negra no Reino Unido na década de 1970. Sem falar em outra produção britânica, “O Paraíso e a Serpente” (Netflix), sobre um serial killer que atacava viajantes na Ásia. Faltou lobby, talvez?

O fato é que é impossível que uma premiação dessas não cometa alguma injustiça. As omissões do Emmy deste ano até que foram poucas, e os indicados refletem, de modo geral, o melhor da TV produzida em inglês nos últimos 12 meses. Agora é torcer pelo seu favorito.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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