Tony Goes

Sem anfitrião e sem glamour, Emmy foi mais britânico do que nunca

Pela primeira vez, os canais abertos não foram premiados nas principais categorias

A atriz Michelle Williams pede salários e oportunidades melhores para atrizes negras
A atriz Michelle Williams pede salários e oportunidades melhores para atrizes negras - Mike Blake/Reuters

Reza a tradição que, a cada ano, a cerimônia de entrega do Emmy seja transmitida por uma das quatro grandes emissoras abertas dos Estados Unidos. Em 2019 foi a vez da Fox –uma tarefa ingrata, já que o canal tinha apenas 18 indicações ao prêmio (contra 137 da HBO) e nenhum nome forte para servir de anfitrião.

A Fox, então, aderiu à tendência lançada pelo Oscar no começo do ano: abriu mão do mestre-de-cerimônias, deixando que dezenas de apresentadores se revezassem na condução do programa.

Também economizou na produção. O resultado foi uma festa quase sem glamour, com números musicais de baixo impacto e um único efeito especial (o piano que caiu sobre a cabeça de Homer Simpson no monólogo de abertura, todo em animação).

Pelo menos não faltou o humor negro característico das séries do canal. Logo no começo da transmissão, um segmento animado com os personagens de “Family Guy” lembrou de alguns nomes marcantes da história da TV: “Bill Cosby... Roseanne... Roseanne... Bill Cosby...” Ambos caídos em desgraça: Bill Cosby foi acusado de abuso sexual por dezenas de mulheres, e Rosanne Barr foi condenada ao ostracismo depois de ter feito uma piada racista no Twitter.


Mais cruel foi a estocada desferida pelo comediante Thomas Lennon, que comentava em voz "off" algumas das premiações. “Uma saudação especial a uma das atrizes que venceu anteriormente e hoje está nos vendo da cadeia. Essas duas semanas vão passar voando!”. Era uma referência a Felicity Huffman (“Desperate Housewives”), condenada a duas semanas de prisão por pagar propina a uma universidade para garantir a vaga de um de seus filhos.

O tom político dos discursos de agradecimento, cada vez mais presente nos últimos anos, continuou – mas, dessa vez, sem um foco preciso como o presidente Donald Trump ou o movimento antiassédio #MeToo.

Patricia Arquette (melhor atriz coadjuvante em minissérie, por “The Act”) pediu mais emprego para atores transexuais e lembrou de sua falecida irmã trans, Alexis. Michelle Williams (melhor atriz de minissérie, por “Fosse/Verdon”) clamou por salários e oportunidades melhores para atrizes negras. Billy Porter –o primeiro negro abertamente homossexual a vencer como melhor ator de série dramática, por “Pose”– lembrou de sua longa jornada até aquele palco, vencendo toda sorte de obstáculo.

As premiações em si seguiram duas tendências visíveis. Uma delas só confirmou um fenômeno que já é observado há algum tempo: a progressiva exclusão das emissoras abertas das principais categorias. Em 2019, saíram todas de mãos abanando, pela primeira vez na história. Os prêmios entregues na noite deste domingo (22) foram para canais fechados como a HBO ou plataformas de streaming como a Amazon Prime Video ou a Netflix.

A outra tendência foi uma invasão britânica nessas mesmas categorias. Os três mais importantes troféus de dramaturgia –melhor série dramática, melhor série cômica e melhor minissérie– foram para produções com um ou dois pés no Reino Unido (respectivamente, “Game of Thrones”, “Fleabag” e “Chernobyl”). Atores britânicos também foram muito lembrados, como Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”), Jared Harris (“Chernobyl”) ou Ben Whishaw (“A Very English Scandal”).

No frigir dos ovos, foi uma cerimônia correta, com alguns momentos engraçados e outros emocionantes– mas nenhum digno de entrar para a história. Faltou aquela gafe monumental, ou algum discurso incendiário. Fica para o ano que vem?

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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