Tony Goes

Cerimônia do Emmy foi frugal, politizada e um pouco chata

Entrega do maior prêmio da TV dos EUA teve poucos momentos memoráveis

O discurso de RuPaul (E) foi um dos poucos a serem lembrados no Emmy de 2018
O discurso de RuPaul (E) foi um dos poucos a serem lembrados no Emmy de 2018 - AFP

Nos tempos polarizados que correm não há como um evento como a entrega do Emmy não resvalar para a política. Na cerimônia de 2017 –a primeira depois da eleição de Donald Trump– não faltaram protestos contra o atual presidente dos EUA. Nesse ano, era inevitável que assuntos como inclusão e assédio sexual dessem o tom da noite.
 
Sabendo disso, os produtores programaram um musical de abertura ironizando a falta de diversidade na televisão. Um único homem branco e heterossexual teve destaque: o comediante Andy Samberg (da série “Brooklyn 99”). Todos os demais –um grupo que incluía Ricky Martin, Kate McKinnon e Sterling K. Brown– eram mulheres, negros, latinos e/ou gays. Muito bem escrito e ensaiado, o número acabou mostrando que, mesmo com falhas, a TV de lá é muito mais representativa da sociedade que a nossa.
 
Mas, apesar do número de estrelas em cena e da coreografia elaborada, o que me chamou a atenção foi a frugalidade da mise-en-scène. Nada de cenários suntuosos, efeitos de luz ou mesmo fumaça: só atores e bailarinos em um palco despojado. O clima espartano continuou pelo resto da noite.
 
A diversidade acabou se refletindo na distribuição dos troféus, que se espalharam por muitas séries distintas. Só a comédia “The Marvelous Mrs. Masel” (Prime Video) fez um “strike”, levando cinco prêmios importantes. E muitos atores ganharam o primeiro Emmy de suas carreiras –entre eles, o até então injustiçado Matthew Rhys, da recém-terminada “The Americans”.

As piadas estavam um pouco abaixo da média, e os apresentadores Michael Che e Colin Jost (do “Saturday Night Live”) não conseguiram imprimir marca nenhuma. Os momentos emocionantes acabaram sendo os discursos de agradecimento, como os de RuPaul (cujo “RuPaul’s Drag Race” venceu como melhor reality show) ou Ryan Murphy (melhor diretor de minissérie ou filme para a TV, com “O Assassinato de Gianni Versace”).
 
Se bem que houve um discurso bastante esquisito: o de Merritt Wever, que ganhou como atriz coadjuvante em minissérie por “Godless” (Netflix). Foi o segundo Emmy dela, que já havia ganho um de coadjuvante em série cômica por “Nurse Jackie”, em 2013. Na ocasião, ela pegou sua estatueta, disse um lacônico “obrigado” e saiu correndo. Dessa vez, falou um pouco mais, porém, deixou claro seu desconforto em vencer. Coitadinha.
 
No futuro, este Emmy será lembrado por um único instante: o pedido de casamento que Glenn Weiss fez do palco a sua namorada, Jan Svendsen, que estava na plateia. O Microsoft Theater quase veio abaixo de tantos aplausos e lágrimas, e a felizarda ainda teve o pretendente se ajoelhando à frente dela, diante das câmeras e de todo o planeta.

Queria só ver como Weiss reagiria se alguém fizesse o mesmo durante a entrega do Oscar, pela qual ele ganhou um prêmio de direção: a cerimônia da Academia de cinema tem regras rígidas contra quem estoura o tempo reservado aos agradecimentos.
 
Nem esse interlúdio romântico salvou a festa da monotonia. Mesmo com "apenas três horas" cravadas (contra as quatro e tanto que costuma durar o Oscar), o Emmy 2018 conseguiu ser enfadonho. Ainda não saíram os números de audiência enquanto escrevo esta coluna, mas não duvido que eles sejam decepcionantes.
 
E aí, se forem mesmo, não cola a desculpa dos Oscars, de que só filmes-cabeça são indicados. Os concorrentes ao Emmy são, quase todos, grandes sucessos de público. Se a premiação desses sucessos não desperta maior interesse, então está na hora de repensar o modelo.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

Final do conteúdo

Últimas Notícias

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem