Tony Goes

Neymar parece estar empenhado em destruir a própria imagem

Atitudes irresponsáveis do jogador podem custar a ele seguidores e patrocínios

Neymar Jr. no Réveillon
Neymar Jr. na sua festa de Réveillon - @neymar Jr. no Instagram

Craques de futebol não deveriam servir de modelo para ninguém. Não faltam exemplos de jogadores que foram sublimes dentro do campo e, fora dele, tiveram comportamentos desastrosos ou soltaram declarações lamentáveis.

Garrincha era alcoólatra. Pelé nunca reconheceu uma filha que teve fora do casamento. Maradona se afundou na cocaína. Ronaldinho Gaúcho foi preso por tentar entrar no Paraguai com um passaporte falso. Robinho, condenado na Itália por ter participado de um estupro coletivo. A lista é longa.

Costuma-se dizer que muitos deles agiram assim porque não tiveram estudo nem preparo. Vindos de famílias humildes e sem acesso à educação de qualidade, não estavam bem aparelhados para lidar com a fama e a fortuna, que chegaram de supetão. Saíram gastando a rodo com mulheres, noitadas e amigos inescrupulosos, que propunham negócios da China.

Neymar Jr. não se encaixa nesta narrativa. O camisa 10 do Paris Saint-Germain foi treinado desde criancinha para ser um ídolo. Seu talento com a bola foi reconhecido tão cedo que seu passe chegou a ser negociado com um time espanhol antes mesmo de ele estrear profissionalmente.

Aos 18 anos de idade, estourou como atacante do Santos. Quase que do dia para a noite, virou o maior jogador do Brasil. Choveram contratos publicitários e ofertas para jogar no exterior.

Em 2010, o técnico Dorival Junior vetou o craque em uma partida contra o Corinthians, por indisciplina. O time preferiu demiti-lo do que desagradar a sua maior estrela.

Paparicado pelos cartolas, incensado pelo público, subitamente milionário, não tardou para que Neymar passasse a exibir traços de prima-dona. Cercou-se de amigos bajuladores, a quem chama de “parças”. Começou a ostentar um estilo de vida faraônico, repleto de festas luxuosas.

Nada disso seria grave se seu desempenho em campo continuasse impecável. No entanto, também lá ele se transformou em um moleque mimado e pirracento, fingindo dores terríveis a cada esbarrão. Abusou tanto do recurso teatral durante a Copa de 2018 que se tornou uma piada planetária.

Naquela época, protagonizou um comercial da Gillette, um de seus maiores patrocinadores, admitindo que havia caído, mas que iria se levantar. A emenda saiu pior do que o soneto. O texto cabotino da peça publicitária soou falso, e Neymar foi execrado nas redes sociais. Um ano depois, a Gillette preferiu não renovar o contrato. Àquela altura, o jogador já estava sendo acusado de estupro pela modelo Najila Trindade, um escândalo que fez mal para todas as partes envolvidas.

Neymar conseguiu navegar com razoável tranquilidade por 2020. Sua performance em campo melhorou, trazendo muitas alegrias para a torcida do PSG. Também aderiu ao movimento antirracismo – tardiamente, é verdade, mas aderiu. Em dezembro, foi um dos jogadores que se recusou a seguir com a partida contra o Istanbul Basaksehir, depois que um dos árbitros insultou racialmente um integrante do time adversário.

Aí começaram a pipocar na imprensa as notícias de uma megafesta de Réveillon em Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro. O evento teria cinco dias de duração e centenas de convidados. Pegou tão mal que a agência organizadora do evento soltou uma nota jurando que seriam “apenas” 150 pessoas, seguindo todos os protocolos de segurança, blábláblá.

Assustado com a péssima repercussão do rebu, a assessoria de Neymar chegou a dizer que o jogador passaria o Ano-Novo em Santa Catarina e não faria festa alguma em plena pandemia. A celebração em Mangaratiba, porém, ocorreu sim. Apesar de só ter publicado fotos com a família e alguns amigos, diversas mulheres que supostamente estavam na festa ao lado, que chegou a receber o apelido de "Neymarpalooza", publicaram fotos com ele.

Ele ainda posou vestindo um espalhafatoso traje prateado. Poderia ser engraçado, mas, num sintoma de que a imagem do jogador anda mesmo por baixo, a internet não perdoou, chamando-o de “frango embrulhado em papel alumínio” ou coisa pior.

No domingo (3), veio o golpe de misericórdia. Ao deixar a marca de seus pés na calçada da fama do Maracanã, Neymar se deixou fotografar ao lado do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos – RJ). Epicentro de um escândalo que envolve “rachadinhas” e desvio de dinheiro público, o filho do presidente Jair Bolsonaro é uma companhia a se evitar neste momento, ainda mais por quem quer reconstruir a própria imagem. Mas talvez não por Neymar, que pede que a Receita Federal perdoe alguns milhões em impostos que ele se “esqueceu” de pagar.

Na boa: Neymar precisava contratar um bom assessor de imagem, e deixar de se cercar por gente que só lhe diz amém. Nesses tempos de media training e perfis geridos por equipes de marketing, não será difícil encontrar um profissional de altíssimo nível que o ajude a limpar sua reputação. Vai custar caro, sem dúvida – mas garanto que sai bem mais barato do que perder os patrocinadores que ainda investem no jogador.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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