Tony Goes

Fran Lebovitz solta o verbo na série de Scorsese 'Faz de Conta que NY É uma Cidade'

Série documental da Netflix é uma das mais engraçadas do ano

A humorista Fran Lebowitz

A humorista Fran Lebowitz Netflix

Fran Lebowitz tem quatro livros publicados. Os dois primeiros, "Metropolitan Life" (1978) e "Social Studies" (1981), são compilações de crônicas assinadas por ela em jornais e revistas americanos. "The Fran Lebovitz Reader" (1994) é uma compilação das compilações, reunindo os melhores textos que aparecem nelas. Já "Mr. Chas and Lisa Sue Meet the Pandas", também de 1994, é uma história para crianças.

No entanto, mesmo com uma bibliografia tão magra e sem lançar nenhum volume há mais de 25 anos, a escritora continua sendo uma figura relevante na cena cultural de Nova York. É convidada frequente dos talk shows noturnos, e costuma dar palestras que, no fundo, são espetáculos de comédia stand-up mal disfarçados.

Agora Fran Lebovitz está prestes a alcançar a maior audiência de sua carreira, graças a "Faz de Conta que NY É uma Cidade" ("Pretend It’s a City"). A série chegou à Netflix na sexta passada (8), e se define como documental. Mas está longe de adotar um formato tradicional, narrando a vida do biografado desde o berço. É, na verdade, um retrato em largas pinceladas de uma das mulheres mais interessantes do planeta. Também é, desde já, um dos programas mais engraçados de 2021.

"Faz de Conta que NY É uma Cidade" foi concebida e dirigida por Martin Scorsese, amigo de longa data de Fran Lebovitz. Não é a primeira vez em que os dois trabalham juntos. Em 2010, ele a dirigiu no documentário "Public Speaking", exibido pela HBO. Ela também interpretou uma juíza no filme "O Lobo de Wall Street", dirigido por ele em 2013.

Cada um dos sete episódios da série é voltado para um tema: livros, esportes, transporte público, dinheiro, artes, tecnologia e a própria cidade de Nova York, para onde Lebovitz se mudou no começo da vida adulta. Scorsese não se furta a aparecer em cena: sentados a uma mesa em um bar elegante, ele alimenta a amiga com perguntas provocativas, e ri desbragadamente das respostas dela.

Outras imagens não são novas, tiradas de diversas entrevistas e conferências que Fran Lebovitz deu nos últimos 40 anos. É divertido perceber que, ainda bem jovem, ela já havia adotado o estilo de vestir que mantém até hoje: ternos masculinos que parecem um pouco largos, sobre camisas de abotoar abertas no colarinho. A única diferença são os óculos, que passou a usar depois de uma certa idade.

As opiniões também são consistentes. A autora jamais se rendeu à tecnologia. Nunca possuiu um computador, um celular, nem mesmo uma máquina de escrever. Sente saudades da Nova York de seus tempos de mocinha, mas é a primeira a destruir as ilusões nostálgicas dos demais, lembrando que a cidade sempre foi caríssima e difícil de se viver.

Claro que a Nova York de Lebovitz é idealizada, e acessível apenas a quem tem, se não algum dinheiro, pelo menos uma educação requintada. A autora não esconde sua paixão por festas, bons restaurantes, cinemas antigos, sebos e livrarias. Também reclama de quem anda pela rua sem desgrudar os olhos do smartphone, ou dos pais caretas que não deixam seus filhos comerem doces.

Fran Lebovitz fala muito de sua infância, de sua família, da maneira rígida como foi educada. Também menciona as burradas financeiras que cometeu ao longo da vida. Mas um assunto quase não é abordado: sua vida pessoal. Ela foi uma das primeiras celebridades a se assumir lésbica, ainda na década de 1970, mas não revela se está casada, namorando ou seja lá o que for.

Entretanto, quando se abre, Lebowitz ostenta uma verve comparável à de Woody Allen ou à de Jerry Seinfeld, dois comediantes que compartilham com ela a sensibilidade típica dos judeus de classe média. As conversas que mantém com seus interlocutores estão mais para monólogos, em que ela realmente não está interessada na opinião alheia. E por que deveria estar?

Muita gente vai achar Fran Lebovitz uma pessoa desagradável, com um ponto de vista antiquado e irrelevante. Mas quem gosta de humor ferino, raciocínio rápido e uma dose de bom senso vai se divertir muito com "Faz de Conta que NY É uma Cidade".

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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