Tony Goes

Com cinco comediantes mulheres, A Culpa É da Carlota faz política em sentido amplo

Versão feminina de A Culpa É do Cabral estreou no canal Comedy Central

Fotos do programa "A Culpa É da Carlota"
Fotos do programa "A Culpa É da Carlota" - Victor Silva

"La Culpa Es de Colón" ("A Culpa é do Colombo") nasceu na Argentina, com o propósito de ser um programa de humor acessível ao público todos os países de língua espanhola da América Latina. 

O formato é simples: diante de uma plateia, cinco comediantes de nacionalidades diferentes, sentados em meio-círculo, desfiam as mazelas de seus respectivos países. A culpa desses problemas seria de Cristóvão Colombo, que descobriu a América e pôs em marcha o projeto de subdesenvolvimento que nos aflige até hoje.

O sucesso foi imediato, e logo gerou derivados: "La Culpa Es de Cortez" (México), "La Culpa Es de Llorente" (Colômbia) e, claro, "A Culpa É do Cabral", que, desde 2016, é a maior audiência do canal Comedy Central no Brasil.

A proposta inicial era ter cinco humoristas de várias regiões do país, não necessariamente só homens. Mas, por questões de agendas e contratos, "A Culpa É do Cabral" se firmou com cinco caras heterossexuais no elenco –Fabiano Cambota, Nando Viana, Rafael Portugal, Rodrigo Marques e Thiago Ventura, os mesmos desde o início do programa– mesmo tendo mulheres e homens gays na equipe de roteiristas.

Esse Clube do Bolinha agora tem sua contrapartida feminina, "A Culpa É da Carlota", com Cris Wersom (que foi roteirista do "Cabral") como a anfitriã e Ariana Nutt, Bruna Louise, Carol Zoccoli e Dadá Coelho completando o elenco.

A primeira temporada, gravada em julho de 2019, estreou na segunda passada (3) no Comedy Central. No mesmo dia, eu conversei com Cris Wersom e Fabiano Cambota sobre as semelhanças e diferenças entre os dois programas, ambos dirigidos por Marina Ragusa, e também sobre os rumos da comédia no Brasil.

"O humor brasileiro foi, historicamente, feito na base da zoação. Se eu fizer isto hoje, eu ainda vou ter público”, afirma Cambota. "Mas nós passamos por uma mudança profunda nos últimos dez anos. Eu tenho uma banda, e me espanto com algumas das músicas que eu cantava antigamente. A verdade é que dá para fazer rir sem oprimir ninguém, e isto não é mimimi". Cris acrescenta: "Não faz sentido dar tapa em quem já está levando tapa da vida".

Como seu congênere masculino, "A Culpa da Carlota" evita as piadas abertamente políticas. Uma das razões é o tempo: a temporada é gravada muito antes de ir ao ar, e piadas sobre acontecimentos políticos envelhecem de um dia para o outro.

"Mas também queremos relaxar as pessoas”, emenda Cambota. "Eu sigo algo que o Michael Jackson dizia: ‘nós vendemos escapismo’. A palavra é perigosa, porque pode dar a entender que queremos alienar o público dos problemas do país. Mas ninguém liga no Comedy Central para se indignar".

Cris Wersom complementa: "Quando a Dadá Coelho faz piada com o fato de ter sido abandonada pelo primeiro marido e obrigada a criar sozinha sua filha, ela não deixa de estar falando de política".

De fato, as cinco humoristas do programa não se furtam de assuntos como o prazer feminino, a menstruação e os "boys lixo". “Mas dizer ‘vamos pautar o programa na luta’ seria um desperdício”, completa Cris. “Claro que nós temos um viés, mas não fazemos crítica ao machismo o tempo. Fazemos humor com tudo”.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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