Tony Goes

'Na crise, a culpa é sempre do ator', diz Fernanda Montenegro a Pedro Bial

Atriz estará no Conversa com Bial desta quinta (3) lançando sua autobiografia

Pedro Bial entrevista Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro em Conversa com Bial (Globo) - Fabio Rocha/Divulgação

Fernanda Montenegro completa 90 anos de idade no dia 16 de outubro e ganhou todo um mês de homenagens na Globo, a emissora onde trabalha há quase 40 anos.

No dia 11, uma sexta-feira, ela estará no Encontro com Fátima Bernardes. Na noite do mesmo dia, o Globo Repórter fará uma retrospectiva de sua carreira. E no dia 14, uma segunda, a sessão Tela Quente exibirá o filme lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz: “Central do Brasil”, em cópia restaurada.

Mas, antes disso, Fernanda estará no Conversa com Bial desta quinta-feira (3), ao lado da escritora Marta Góes. Juntas, elas escreveram a autobiografia de Fernanda: “Prólogo, Ato, Epílogo”, que já chegou às livrarias.

Tive o privilégio de estar na plateia durante a gravação do programa. Já havia visto Fernanda inúmeras vezes no teatro, interpretando as mais diversas personagens. Desta vez, ela estava apenas sendo ela mesma.

Bial foi genro de Fernandona: durante um breve período na década de 1980, ele foi casado com Fernanda Torres, a Fernandinha. A intimidade entre entrevistador e entrevistada é tão grande que a conversa fluiu naturalmente, como se as câmeras não estivessem ali.

Com o livro nas mãos, Bial ia lembrando passagens da vida de Fernanda, que ela completava com riqueza de detalhes e uma dose indisfarçável de emoção. A atriz falou dos pais, filhos de imigrantes –o pai, de portugueses, e a mãe, de italianos da Sardenha. Falou das irmãs, de várias das peças que protagonizou, dos muitos amigos que perdeu.

Também falou muito de seu marido, o ator e diretor Fernando Torres, morto em 2008. Mesmo depois de 12 anos, sua ausência ainda dói na atriz: Fernanda deixou claro que esta é uma perda que ela jamais irá superar.

Como o assunto eram as memórias de sua convidada, Bial evitou tocar num assunto desagradável: as ofensas direcionadas a Fernanda por uma figura do quarto escalão do governo Bolsonaro, cujo nome nem merece ser citado. Chamada de “sórdida” e “mentirosa” por alguém que desconhece sua integridade ou simplesmente não bate bem da cabeça, a atriz teve a elegância de ignorar seu agressor.

Mas a política deu as caras no finalzinho do programa. Depois de homenagear sua amiga Dercy Gonçalves, Fernanda soltou um desabafo sobre o momento de obscurantismo que o Brasil atravessa.

“Nós, atores, somos tão poderosos, tão importantes, que quando tem crises na área da cultura, o autor desaparece, o produtor desaparece. Quem leva sempre a culpa é o ator, é a atriz. Nessa crise toda da Lei Rouanet, sobrou para nós, atores. Nós estamos vivendo isso agora. A 'responsabilidade', entre aspas, do que 'não deu certo', entre aspas, está em cima do ator. Somos nefandos!” Claro que a plateia explodiu em aplausos.

Bial encerrou o programa parafraseando Nelson Rodrigues: “O Brasil vai subir no próprio conceito no dia em que entregar a Fernanda Montenegro o país que ela merece”. Nunca me senti tão longe desse dia, mas que bom que merecemos Fernandona.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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