Tony Goes

Jair Bolsonaro não faz a menor ideia do que é a Ancine

Presidente ameaça acabar com a agência, sem entender o que ela faz

O presidente Jair Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro - Adriano Machado-19.jul.2019/Reuters

“Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá.”

Não foi a primeira vez que Jair Bolsonaro disparou uma opinião descabida e desinformada. Mesmo assim, a fala do presidente durante o evento que comemorou os 200 primeiros dias de sua gestão, realizado nesta quinta (18) em Brasília, surpreendeu a plateia e abalou a indústria brasileira do entretenimento.

“Bruna Surfistinha” não chega a ser um filme erótico, muito menos pornográfico. Sim, tem nudez (parcial) e algumas cenas de sexo –mas quem for assisti-lo para se excitar vai acabar brochando. O drama da jovem Raquel (Deborah Secco), que se torna prostituta depois de se sentir rejeitada pela família e pelos colegas de escola, é mais pungente do que qualquer trepada.

Lançado em 2011, o longa de Marcos Baldini é inspirado nas memórias da ex-prostituta Raquel Pacheco. O livro se tornou um best-seller, e seus direitos para a tela foram disputados por várias produtoras.

Uma disputa justificada. “Bruna Surfistinha” levou mais de dois milhões de espectadores aos cinemas – o dobro do número necessário para que um filme nacional seja considerado um grande sucesso. A história depois foi adaptada para uma série de TV, que já está indo para a quarta temporada.

Mas esses dados impressionantes não interessam a Jair Bolsonaro. Duvido até mesmo que ele tenha visto o filme – deve ter sido o primeiro título que lhe veio à cabeça, ajudado pelo recall da marca.

O que o presidente quer, mais uma vez, é acenar a seus eleitores mais conservadores e religiosos. Mas, ao dizer que o dinheiro público não pode financiar obras como “Bruna Surfistinha”, ele demonstra não ter entendido o que é nem para que serve a Ancine.

A Agência Nacional do Cinema foi criada em 2001, no vácuo da extinta Embrafilme. Não é, como Bolsonaro parece crer, uma empresa estatal destinada a produzir filmes que enalteçam os valores pátrios. É uma entidade voltada a fomentar um braço da economia: a indústria cinematográfica brasileira.

Inúmeras atividades econômicas recebem incentivos estatais, na indústria e na agricultura. O objetivo é criar empregos, fortalecer a produção nacional frente à concorrência estrangeira e até aumentar a arrecadação de impostos.

Mas a extrema-direita elegeu a cultura como sua arqui-inimiga (e com razão, diga-se de passagem). Há anos que uma campanha informal nas redes sociais vem pintando os artistas e intelectuais como parasitas, que mamam nas tetas do Estado e só produzem irrelevâncias e obscenidades.

A verdade é bem outra. Produzir cultura não é simples em nenhum país do mundo, mesmo nos mais avançados. É por isto que existem agências fomentadoras de atividades culturais na França, na Itália, na Alemanha e até mesmo nos Estados Unidos, a meca do presidente.

Bolsonaro quer atrelar a Ancine à Casa Civil, o núcleo duro do governo, provavelmente para se intrometer no processo de seleção dos projetos. Quer ele mesmo praticar o “ativismo” de que tanto acusa com quem não comunga.

Muito mais acertada seria a transferência da Ancine e do Fundo Setorial para o ministério da Economia, como defende a classe cinematográfica e como já estava previsto na medida provisória que criou a agência.

Porque o negócio do audiovisual é coisa séria. Milhões de famílias brasileiras dependem dele. Filmes e programas de TV geram renda, trabalho e até o famoso “soft power” –o poder de influenciar corações e mentes, não-bélico, de que desfruta um país culturalmente forte.

Pelo jeito, não vamos chegar lá tão cedo.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias