Tony Goes

Será que novela 'Órfãos da Terra' deveria mesmo passar na faixa das 18h?

Produção da Globo impressiona pelo tema e pela produção

Elias (Marco Ricca) revela para Missade (Ana Cecília Costa) e Laila (Julia Dalavia) as reais intenções de Aziz (Herson Capri)
Elias (Marco Ricca) revela para Missade (Ana Cecília Costa) e Laila (Julia Dalavia) as reais intenções de Aziz (Herson Capri) - Divulgação/ Globo

Uma animada festa de aniversário é interrompida pela chegada de guerrilheiros. Um deles está gravemente ferido. Os outros falam para os convidados fugirem. Tarde demais: uma bomba atinge a casa, e vai tudo pelos ares.

O primeiro bloco de “Órfãos da Terra” foi muito mais impactante do que o de qualquer uma de suas antecessoras na faixa das 18h da Globo, conhecida pelas tramas açucaradas.

Nas redes sociais, os internautas se derramaram em elogios pela produção requintada, semelhante à dos melhores seriados americanos. Mas também levantaram uma questão pertinente: a novela não deveria estar sendo exibida num horário mais tardio?

De fato, é estranho ver tanta gente ferida na TV aberta quando ainda nem escureceu lá fora. Por outro lado, há a sensação de que “Órfãos da Terra” precisou ser suavizada para ser exibida tão cedo. A guerra civil na Síria e o drama dos refugiados, temas da trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, renderiam cenas ainda mais fortes em faixas horárias mais tardias.

Quando submeteram a sinopse de “O Sal da Terra” à Globo, há cerca de dois anos, as autoras haviam passado por uma experiência traumática. “O Homem Errado”, que marcaria a estreia delas no horário nobre, foi cancelada quando a produção estava prestes a deslanchar. Em seu lugar, entrou “O Outro Lado do Paraíso”, de Walcyr Carrasco.


Concebida originalmente para as 18h, “O Sal da Terra” foi “promovida” a supersérie, para a faixa das 23, e teve seu nome alterado para “Filhos da Terra”. Só em agosto do ano passado que ganhou o título atual. A cúpula da emissora também decidiu que a faixa das 18h era, afinal de contas, o horário mais adequado para a trama.

De qualquer forma, a julgar pela ótima estreia, “Órfãos da Terra” é o que nenhuma outra produção atual da dramaturgia da Globo consegue ser: uma novela relevante, que vai além do mero escapismo e dialoga com problemas contemporâneos.

E tudo isto sem abrir mão dos elementos folhetinescos. O primeiro capítulo terminou com o encontro entre Jamil (Renato Góes) e Laila (Julia Dalavia), em um campo de refugiados em Beirute. O problema é que a moça está sendo cobiçada pelo cruel sheik Aziz (Herson Capri), patrão do rapaz.

“Dono” talvez não seja um termo mais adequado. Jamil chegou a ir para a cadeia para livrar Aziz de uma acusação de assassinato. Esse sacrifício absurdo talvez tivesse sido melhor explorado no horário nobre: às 18h, só vimos Jamil pouco antes de ser preso e, depois de uma elipse, já novamente em liberdade.

O esmero da direção de arte e dos efeitos especiais não foi refletido em todas as atuações. Alguns atores ainda estão “duros”, recitando seus textos de maneira artificial. E por que, no núcleo sírio, tem uns que falam com sotaque e outros não?

Mas tudo isto é detalhe, e facilmente sanável. O importante é que “Órfãos da Terra” chega no momento em que muitos brasileiros acham que o país está sendo invadido por imigrantes, pondo em risco nossos empregos e até mesmo nossa cultura. Nada como uma boa novela para dar um close no drama dos refugiados e mostrar que não é nada disso.

Mesmo assim, acho que “Órfãos da Terra” seria ainda melhor se fosse exibida mais tarde.
 

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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