Tony Goes

Michelle Bolsonaro pode ser a popstar do novo governo

Discurso em Libras comoveu até quem não votou no marido dela

Michelle Bolsonaro discursa à frente do marido, o presidente Jair Bolsonaro
Michelle Bolsonaro discursa à frente do marido, o presidente Jair Bolsonaro - Sergio Moraes/Reuters

O cargo de primeira-dama é uma invenção norte-americana. Não está previsto na Constituição nem tem regras específicas. Mas reza a tradição que a mulher do presidente é uma espécie de rainha-consorte, que precisa aparecer bem nas fotos e –se possível– se dedicar a alguma causa social.

Aqui no Brasil as primeiras-damas costumam ser discretíssimas. Marisa Letícia, de quem Lula é viúvo, abria tão pouco a boca que eu não me lembro da voz dela. Ruth Cardoso, de quem FHC é viúvo, era uma socióloga atuante e engajada, mas não gostava dos holofotes. E a bela e recatada Marcela Temer chegou a ser apontada como a “arma secreta” de seu marido para angariar popularidade –só que, sem carisma ou aptidão, não surtiu muito efeito.

Isso pode mudar com Michelle Bolsonaro. A mulher do novo presidente tem potencial para se tornar a figura mais popular do governo, trazendo doçura e simpatia a uma equipe formada quase toda por homens sisudos.

Verdade que as primeiras manchetes envolvendo seu nome não lhe foram muito favoráveis. Em uma entrevista logo depois do segundo turno, Michelle garantiu que o marido não era misógino, pois se casara com a filha de um cearense –ela confundiu o significado da palavra com xenófobo, que é quem tem aversão a estrangeiros. Foi execrada nas redes sociais.

Em dezembro, surgiu a notícia de que Michelle havia mandado retirar todas as obras de arte sacra de seu futuro endereço, o Palácio da Alvorada. Por ser evangélica, ela não gostaria de viver rodeada por imagens de santos. Seu marido correu a dizer que se tratava de “fake news”, mas novamente os internautas a criticaram.

Até que Michelle Bolsonaro surgiu bonita e elegante na posse presidencial, nesta terça (1º). Seu vestido rosa-claro, assinado pela estilista carioca Marie Lafayette, só arrancou aplausos (e deixou na poeira o equivocado modelito azul envergado por Paula Mourão, esposa do vice-presidente).

 

Mas o melhor estava por vir. Contrariando a tradição, Michelle foi a primeira primeira-dama brasileira a discursar durante uma cerimônia de posse. E fez um discurso original: todinho em Libras, a linguagem brasileira de sinais, traduzido simultaneamente por uma intérprete –que não conteve as lágrimas.

Voltado à comunidade surda, o discurso de Michelle Bolsonaro (leia a íntegra) emocionou até quem participou da campanha #EleNão. Desta vez, as redes sociais se encheram de elogios. Nascia uma estrela.

Se o marketing do governo Bolsonaro for realmente esperto, saberá fazer bom uso de Michelle. Ela passa uma imagem de certa independência em relação ao marido. Também demonstrou compaixão e interesse pelas minorias desfavorecidas, tudo o que seus três enteados mais velhos não têm.

Vai ser interessante ver como ela se comporta durante os próximos quatro anos.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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