Tony Goes

Humor da série 'Super Drags' é mordaz, libertário e engajado

Série de animação nacional já está disponível na Netflix

Cena da série de animação "Super Drags", da Netflix, que estreia em 9/11; cantora Pabllo Vittar dubla uma personagem na atração
Cena da série de animação "Super Drags", da Netflix, que estreia em 9/11; cantora Pabllo Vittar dubla uma personagem na atração - Ernnacost/Netflix

Meses antes da estreia, “Super Drags” causou polêmica. Assim que o primeiro trailer da série foi liberado pela Netflix, a Sociedade Brasileira de Pediatria emitiu uma nota de protesto, alertando que o programa utiliza “uma linguagem iminentemente infantil para discutir tópicos do mundo adulto”.

Duas semanas atrás, o deputado federal Alan Rick (DEM-AC) foi às redes sociais reclamar: “estamos presenciando mais um ataque às nossas crianças”.

Tanto a associação quanto o parlamentar ignoraram o fato de “Super Drags” ser destinada a maiores de 16 anos. Crianças só assistirão à animação se seus pais assim permitirem, ou se esquecerem de ativar o controle parental.

 Mas, de resto, os críticos da série têm razão. “Super Drags”, disponibilizada pela plataforma na sexta (9), é mesmo um programa subversivo, capaz de mudar opiniões e percepções, através de um humor escancaradamente engajado e libertário.

Se bem que só quem já for familiarizado com o universo LGBT+ irá desfrutar plenamente desse humor. Os diálogos ágeis estão cheios de referências a gírias, memes e personalidades do mundinho gay. Além disso, como em “Os Simpsons”, há muitas piadas visuais nos cantos da tela, que só são percebidas pelo espectador mais atento.

As “Super Drags” do título são três funcionários de uma loja de departamentos na fictícia cidade de Guararanhém. O gordinho Patrick é o mais sensato; Ralph, apesar de fortão, é sensível e delicado; e o barraqueiro Donizete, o mais engraçado. 

O cotidiano do trio é quebrado pelos chamados de Vedete Champagne (uma brincadeira com o nome da dubladora do personagem, a drag Silvetty Montilla), que volta e meia os convoca para se “montarem” como, respectivamente, Lemon Chifon (uma Dilma Rousseff melhorada), Safira Cian e Scarlet Carmesim, e combaterem os inimigos da causa LGBT+.

Um desses vilões é o “profeta” Sandoval Pedroso, cuja voz desafina como a do pastor Silas Malafaia. Mas é interessante que a maior adversária também seja uma drag queen: Lady Elza, que pretende sugar o “highlight” (a energia vital) de todos os homossexuais do planeta, e assim se tornar ainda mais poderosa.

Há uma reviravolta na última cena do último episódio desta primeira temporada, mas é sintomático que os autores da série identifiquem que os próprios gays sejam os maiores obstáculos ao avanço dos direitos igualitários.

Em apenas cinco episódios, “Super Drags” toca em assuntos importantes para a comunidade LGBT+, como autoaceitação, “cura gay” e subordinação aos padrões estéticos vigentes. Mas o tom não é panfletário, pelo contrário: ninguém escapa do deboche, nem mesmo as heroínas.

E ainda tem Pabllo Vittar, mostrando um inesperado talento de atriz ao dublar a cantora Goldiva. Ela também interpreta a canção-tema “Highlight”, que tem tudo para se tornar seu próximo hit.

Tecnicamente impecável, com diálogos ferinos e alguns palavrões, “Super Drags” corre o risco de pregar apenas aos já convertidos. Mas quem não conhecer direito o segmento gay também irá se divertir. Pior: poderá ver sua tolerância aumentada. Exatamente o que temem os detratores da série.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

Final do conteúdo

Últimas Notícias

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem