Tony Goes

Casamento de Harry e Meghan juntou marketing e emoção

Ao casar a geração mais nova com plebeias, a família real dá um ponto com nó

O príncipe Harry e sua esposa Meghan Markle passeiam de carruagem após cerimônia de casamento
O príncipe Harry e sua esposa Meghan Markle passeiam de carruagem após cerimônia de casamento - Phil Noble-09.05.2018/Reuters

Tony Goes
São Paulo

Neste sábado (19), o mundo inteiro foi convidado para uma festa.

Claro que teve gente que não aceitou: um casamento real seria uma relíquia do século 19 e um acinte ao ideal de uma sociedade mais justa e igualitária. Sem falar em seus custos astronômicos, uma hemorragia para os cofres públicos.

Só que, na ponta do lápis, o enlace do príncipe Harry - o sexto na linha de sucessão do trono britânico - com a atriz americana Meghan Markle rendeu muito mais do que custou. Cerca de dois bilhões de libras foram injetadas na economia do Reino Unido.

A monarquia é um dos pilares da identidade britânica e uma peça fundamental da engrenagem que move o país. Um casório real atrai turistas, gera mídia espontânea e aumenta o “soft power” da nação.

A monarquia também é o negócio da família Windsor, que se profissionalizou ao extremo com o longo reinado de Elizabeth 2ª. A atual monarca encarnou o papel com quase perfeição, e segurou as rédeas quando a princesa Diana provocou uma crise palaciana ao se divorciar do príncipe Charles.

Se Charles não seguiu à risca o que se esperava dele, seus filhos estão perfeitos. O mais velho, William é discreto, ligeiramente sem graça, ideal para ser rei algum dia.

E seu irmão mais novo Henry, sempre tratado pelo apelido Harry, é tudo o que o público quer de um príncipe que dificilmente irá reinar: rebelde, divertido, com fama de “bad boy”.

Esta fama, é óbvio, agora se aposenta com o casamento. Mas a escolha de Meghan Markle parece ter sido feita por especialistas, tanto para chocar os conservadores como para agradar aos moderninhos - e, assim, garantir mais um século de vida para a monarquia britânica.

Até a cerimônia religiosa na capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, ressaltou a ascendência africana da noiva (que é filha de mãe negra e pai branco). Havia um número surpreendente de negros na igreja: entre os convidados, no coral que cantou “Stand by Me” e até no púlpito, pregando o amor em um sermão (o admirável bispo americano Michael Curry).

Os Windsor se misturam, se miscigenam, se blindam. E não perdem a majestade: ao casar a geração mais nova com plebeias que seriam rejeitadas poucas décadas atrás, a família real dá um ponto com nó.

É marketing? Não deixa de ser. Mas não é só marketing. A mudança não é só de fachada. William e Harry levam a vida que querem ter, ao contrário do infeliz tio-avô Eduardo 8º, que precisou abdicar do torno para ficar com Wallis Simpson em 1936. Ah, e não vamos nos esquecer: vêm aí os principezinhos de avó negra.

Com uma cerimônia impecável, convidados escolhidos a dedo, repertório musical misturando clássico e popular em doses exatas, o casório deste sábado foi marcado pela diversidade e pela abertura da nobreza britânica aos novos tempos.

Os Windsor estão aí para ficar, se é que alguém ainda não percebeu.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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