Tony Goes

Sóbria e trajando preto, cerimônia do Globo de Ouro foi altamente politizada

 Oprah Winfrey foi homenageada com o prêmio especial pela carreira Cecil B. DeMille
Oprah Winfrey foi homenageada com o prêmio especial pela carreira Cecil B. DeMille - Lucy Nicholson-07.jan.2018/Reuters

TONY GOES COLUNISTA DO "F5"

Já que não pode dizer que é a premiação mais importante do cinema americano --essa honra cabe ao Oscar-- o Globo de Ouro gosta de vender a si mesmo como "a melhor festa de Hollywood".

 Há uma boa justificativa para isso: o álcool corre solto, antes e depois da cerimônia de entrega dos troféus. Os vencedores costumam estar "altos" quando ouvem seus nomes anunciados, e os discursos de agradecimento, não raro, saem cheios de imprevistos e até gafes. Todo mundo ri à pampa.

 Mas não foi isso o que aconteceu neste domingo (7) no hotel Beverly  Hilton, em Los Angeles, na Califórnia (EUA). A festa do Globo de Ouro foi sóbria, contida e altamente politizada.


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O preto dominou o figurino. A cor foi escolhida como sinal de protesto pelo recém-formado grupo "Time’s Up" (ou o "tempo acabou"), formado por atrizes, diretoras, produtoras e outras profissionais da indústria do entretenimento, para denunciar o assédio sexual que ainda grassa nos bastidores.

O tapete vermelho só não ficou com cara de funeral porque muitas mulheres quebraram a solenidade do preto com brilhos e detalhes coloridos. Mas até os homens aderiram, alguns evitando a tradicional camisa branca do smoking e trajando preto dos pés à cabeça.

A minissérie "Big Little Lies" (HBO) levou o maior número de Globo --quatro ao todo-- e trata explicitamente de violência doméstica. Escolhida como melhor série cômica,"The Marvelous Mrs. Maisel" (Amazon) fala de uma dona de casa da década de 1950 que tenta a carreira de comediante " stand-up". E a melhor série dramática foi a mesma premiada pelo "Emmy", "The Handmaid's Tale" (que será exibida no Brasil pelo canal Paramount), uma alegoria futurista sobre a opressão da mulher pelo homem.

Nas categorias de cinema, os dois grandes vencedores foram a comédia "Lady Bird: A Hora de Voar" --que causou um certo escândalo por não ter sua diretora, Greta Gerwig, entre os cinco indicados ao prêmio de melhor direção--  e o drama "Três Anúncios para um Crime", sobre a luta de uma mãe para descobrir o assassino de sua filha.

Antes que alguém reclame de um suposto conchavo favorável à causa feminista, é bom lembrar que os membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, a entidade responsável pelo Globo de Ouro, não se reúnem para votar --portanto, ficaria difícil combinar uma estratégia.

Além disso, todos os agraciados são produtos de qualidade indiscutível. A premiação apenas refletiu uma tendência da indústria. 

Os discursos foram muito mais sérios do que de costume. E nenhum mais que o de  Oprah  Winfrey, homenageada com o troféu  Cecil  B. DeMille pela carreira. Carismática, inclusiva e sem papas na língua, a apresentadora parece ter dado o pontapé inicial na campanha que pode levá-la à Casa Branca em 2020. Sim, já se fala em Oprah para presidente dos Estados Unidos.

O tom assumidamente feminista deve se diluir na entrega dos Oscars, que só acontece daqui a dois meses. Inclusive porque a premiação da Academia de Hollywood é cheia de categorias técnicas, ainda dominadas pelos homens.

Mas o Globo de Ouro de 2018 mostrou que alguma coisa mudou. Tomara que para sempre.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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