Tony Goes

Marília Pêra foi a mais completa atriz brasileira

2015 ainda não estava horrível o suficiente. Não bastaram os ataques terroristas, os desastres ecológicos, a barafunda na política e na economia. Também perdemos muitas figuras importantes ao longo do ano, e hoje perdemos mais uma: Marília Pêra, uma das maiores estrelas deste país.

Atriz, cantora, bailarina, diretora, artista desde o dia que nasceu. Marília sempre foi acompanhada por uma série de epítetos, que no entanto não davam da amplitude de seu talento.

Era um assombro no palco. Fazia literalmente de tudo. Fernanda Montenegro, uma de suas poucas "rivais" à altura (mas as duas sempre foram amigas) dizia que ela era a mais bem aparelhada atriz brasileira. E era mesmo: drama, comédia, musical, farsa, revista, difícil dizer qual foi seu melhor papel no teatro.

No cinema é mais fácil. Marília rodou relativamente poucos filmes, mas deixou pelo menos uma performance espantosa: a prostituta Sueli de "Pixote: A Lei do Mais Fraco" (1981), de Hector Babenco. A corajosíssima cena onde ela amamenta o protagonista lhe rendeu vários prêmios da crítica norte-americana, e quase lhe propiciou uma carreira internacional. Que no entanto não foi muito longe, pois Marília não dominava o inglês.


Não importa. Marília continuou a brilhar no Brasil, e ganhou popularidade graças à televisão. Mas nunca encarnou mocinhas sonhadoras: seu tipo físico e seu estilo intenso lhe renderam personagens de pegada mais cômica, ou de personalidade forte. Ela mesma destacava a milionária arruinada Rafaela, de "Brega & Chique" (Globo, 1987), de Cassiano Gabus Mendes, como uma de suas favoritas. Mas houve muitas outras: a Joana Martini de "Superplá" (Tupi, 1969), que depois ganhou vida própria no teatro; a espevitada Shirley Sexy de "O Cafona" (1971); a criada Juliana na minissérie "O Primo Basílio" (Globo, 1988); a Milu de "Cobras e Lagartos" (2006, Globo); a Maruschka de "Aquele Beijo" (2011, Globo).

Nas últimas duas décadas de sua carreira, Marília fez parceria constante com Miguel Falabella. Estrelou "Polaroides Urbanas", o único longa-metragem dirigido por ele. Também foi ao seu lado que fez seu último espetáculo, "Alô, Dolly!", uma superprodução onde pôde se despedir em grande estilo.

Falabella também lhe proporcionou seu derradeiro trabalho na TV, a Darlene de "Pé na Cova" (Globo). As duas últimas temporadas do seriado foram gravadas de uma só tacada, e agora entendemos porquê: Marília já devia estar desenganada, era preciso agir rápido.

Nos últimos anos, circularam muitos boatos a respeito de seu estado de saúde. Diversas enfermidades lhe foram atribuídas. No momento em que escrevo este texto, a causa da morte ainda não foi divulgada.

Não há palavras para descrever a dor de sua perda tão precoce, nem ninguém capaz de preencher sua lacuna. Também não vai ser necessário: Marília nos deixou uma obra imensa, inclusive dois filmes que só serão lançados em 2016. Ainda bem.


Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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