Tony Goes

Nem todo artista é de esquerda, e precisamos nos acostumar com isso

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As duas décadas de ditadura militar (1964-1985) diminuíram as opções políticas no Brasil. Eleições indiretas, censura à imprensa e hiperinflação criaram um cenário que era impossível de defender. Ou você era contra o governo, ou era contra.

Na classe artística, então, havia quase que unanimidade. Poucos se atreviam a manifestar qualquer opinião que não fosse de esquerda. E quem se atrevesse, enfrentava aquilo que o cineasta Cacá Diegues batizou de "patrulha ideológica".

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As coisas mudaram com a redemocratização. Atrizes como Marília Pêra e Claudia Raia apoiaram explicitamente Fernando Collor nas eleições de 1989. Foram muito atacadas durante a campanha, e ainda mais quando Collor se revelou uma fraude.

Esse fiasco fez com que muitos artistas e intelectuais que não eram de esquerda simplesmente não se manifestassem mais. E, quando Lula finalmente foi eleito presidente, em 2002, os poucos artistas que não o apoiaram foram ridicularizados. Regina Duarte é perseguida até hoje por ter dito que "tinha medo".

Mas nada como um dia depois do outro e doze anos de um mesmo partido no poder. Agora há dezenas de famosos se posicionando claramente contra a presidenta Dilma. Malvino Salvador, Christine Fernandes, Márcio Garcia, Alessandra Maestrini, Kadu Moliterno e muitos outros chegaram a gravar vídeos conclamando as pessoas a irem para a rua protestar. Vários deles foram mesmo, assim como Marcelo Madureira, Solange Couto e muitos outros.


Claro que a repercussão desses vídeos não foi 100% positiva, e chegou muito além da mera discordância. Nas redes sociais, muitos também questionavam as credenciais políticas desses famosos. Tipo, "quem é ele para reclamar?".

Para esses eu digo: bem-vindos ao século 21. O mundo não é mais em preto e branco, ricos contra pobres, o bem contra o mal. Tem gente decente em todos os pontos do espectro político, e precisamos nos acostumar.

Mas isto ainda é incompreensível para muitos. Preferem tirar sarro do Ronaldo Fenômeno ou da Wanessa, como se essas figuras fossem débeis mentais sem direito a opinião própria.

Veja bem, não estou defendendo a posição política de quem quer que seja. Mas também não estou criticando. Faz parte da democracia convivermos com quem não concorda conosco. Só que ainda não aprendemos direito como é que se faz isto.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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