Tony Goes

O "Pânico" quer pedir desculpas. Já pensou se a moda pega?

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Nada como um dia depois do outro. Até ontem, dizia-se que a Band não iria recorrer da decisão judicial que proíbe os integrantes do "Pânico" de se aproximarem de Silvio Santos. Hoje saiu a notícia de que o departamento jurídico da emissora do Morumbi procurou o SBT para chegar num acordo.

O mais surpreendente é o anúncio de que o pessoal do "Pânico" pretende pedir desculpas públicas a Silvio Santos. Por um lado, é compreensível: o programa e o apresentador sempre tiveram uma relação afetuosa, que só azedou quando a trupe de Emílio Surita saiu da RedeTV!. Ceará até se gabava de que sua imitação de SS era a única "autorizada" pelo próprio.

Por outro lado, é intrigante. Silvio Santos não é nem de longe a figura pública mais zoada pelo "Pânico" nesses anos todos. Esta honra dúbia talvez caiba ao falecido Clodovil, que sofreu até mesmo a humilhação da campanha "Lota, Clô" - promovida pelos humoristas quando seu espetáculo "Elas e Eu" se revelou um fracasso de público.

Aposto que jamais passou pela cabeça do pessoal do "Pânico" pedir desculpas a quem quer que fosse. Enfrentar processos, sim; se desculpar, jamais. Faz parte do DNA do programa.

Crédito: Divulgação A equipe do "Pãnico" pretende pedir desculpas públicas a Silvio Santos
A equipe do "Pãnico" pretende pedir desculpas públicas a Silvio Santos

Acontece que Silvio Santos não é um artista qualquer. Também é um dos empresários mais poderosos do país. E é óbvio que interessa à Band manter as melhores relações possíveis com um concorrente tão importante.

Há um precedente na casa: Rafinha Bastos foi defenestrado do "CQC" por causa da infame piada sobre Wanessa Camargo, supostamente por pressão de anunciantes e agências de propaganda.

Mas o próprio Rafinha jamais se redimiu. Sim, ele admitiu que a piada não era das melhores, e até convidou Wanessa para seu novo programa. Mas ela não quis nem saber, porque ele nunca lhe pediu perdão com todas as letras.

Tenho mil restrições à linha de humor adotada por Rafinha Bastos, mas admiro sua coragem. "Alguém se ofendeu com a piada? Dane-se. Peço desculpas se não foi engraçada, mas não retiro o que disse. Afundo junto com ela".

Claro que é fácil ter princípios quando a conta no banco está recheada, e as responsabilidades de um humorista são infinitamente menores que as de uma empresa.

Mas já pensou se a moda pega? Vai ter fila de gente e entidades exigindo desculpas e retratações. Aliás, já tem: todos os humorísticos da TV, sem exceção, recebem reclamações de "ofendidos" toda semana.

O fato é que nós, brasileiros, ainda não sabemos traçar uma fronteira entre a simples gozação e a ofensa pessoal. Nem as "vítimas", nem os "algozes". E assim se escreve mais um capítulo da saga do nosso humor, em busca dos próprios limites.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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