Tony Goes

"Histórias Cruzadas" e as empregadas brasileiras

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Parte do conflito de "Histórias Cruzadas", que estreou no Brasil sexta passada, vem da insistência de algumas patroas brancas em construir banheiros separados para suas empregadas negras.

"Questão de higiene", alega a mais racista de todas, "porque elas carregam doenças diferentes das nossas".

Isto nunca foi problema no Brasil. Por aqui jamais se cogitou a hipótese de uma empregada doméstica usar o mesmo banheiro que os patrões.

As "dependências de empregada" sempre incluíram um banheiro, que foi ficando menor e menos aparelhado à medida em que o tamanho das residências foi diminuindo.

Não dá para assistir a "História Cruzadas" sem fazer paralelos mentais com o que acontece no Brasil.

Nunca tivemos leis explicitamente racistas como alguns estados americanos do sul, e nada parecido com o movimento pelos direitos civis que agitou aquele país no começo dos anos 60.

Nosso racismo sempre foi "cordial", implícito, e por isto mesmo mais difícil de ser identificado e combatido.

O filme fez um sucesso enorme nos Estados Unidos e está indicado a quatro Oscars (deve ganhar dois: melhor atriz para Viola Davis e melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer, que estão realmente fantásticas em seus papéis).

Mas "Histórias Cruzadas" também recebeu uma saraivada de críticas de intelectuais e líderes negros, que apontam o tom paternalista da história.

Que, aliás, é totalmente fictícia: não houve na vida real um livro com as histórias de empregadas negras, compiladas por uma jornalista branca.

O que há é um romance recente chamado "The Help" (algo como "A Criadagem", mas que no Brasil ganhou o nome de "A Resposta"), cuja autora, Kathryn Strockett, é branca, e que serviu de base para o filme.

Os negros reclamam que nunca precisaram de nenhum branco para se manifestar, e que Strockett superdimensiona o papel dos brancos na conquista dos direitos civis. Mas o recurso funciona a nível mercadológico.

Nem o livro nem o filme teriam feito tanto sucesso por lá se não apresentassem brancos "bonzinhos".

Por aqui a coisa é diferente. As plateias brasileiras de cinema são desproporcionalmente brancas em relação à população do país, e filmes sobre conflitos raciais não costumam ir bem de bilheteria.

"Ali", cinebiografia do grande boxeador e ativista Muhammad Ali (e que rendeu a Will Smith uma indicação ao Oscar), entrou em cartaz apenas em Salvador. No resto do Brasil, foi direto para o DVD.

A sessão de "Histórias Cruzadas" a que eu fui no sábado estava relativamente vazia. E isto apesar da badalação toda e do filme ser cinemão americano clássico, sem invenções formais nem grandes elocubrações. É quase um novelão.

Por falar em novela, as empregadas domésticas serão as protagonistas de "Marias do Lar", a substituta de "Aquele Beijo" no horário das sete da noite e que já começou a ser gravada.

Vem em boa hora: o tema é riquíssimo, mas rendeu poucas obras de ficção. Vamos ver se dá audiência.

As histórias cruzadas de patrões e empregadas brasileiras são complexas, e muito diferentes das americanas. Também precisam ser contadas. Mas será que o espectador médio está interessado nelas?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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