Mariliz Pereira Jorge

Torcedores de realities revelam o que há de pior no ser humano

Comportamento do telespectador diz muito sobre o país que somos hoje

Brothers se reúnem na sala à espera do terceiro paredão do 'BBB 18' (Globo)
Brothers se reúnem na sala à espera do terceiro paredão do 'BBB 18' (Globo) - TV Globo

Nunca imaginei encontrar entre o público do BBB um ambiente tão ou mais nocivo do que o que temos visto no debate político. Quando o F5 me chamou para escrever sobre o programa, que eu nunca tinha acompanhado, pensei que seria um refresco nesse momento em que a maioria dos brasileiros parece dividida num ringue ideológico.

Mas o que encontrei foi muito pior. Torcedores de realities se escondem atrás de nomes e fotos-fantasia para destilar sem nenhum senso crítico todo horror do racismo, do machismo, da homofobia, da xenofobia. O Twitter, a rede social mais acessada por esse tipo de internauta, me pareceu divertida e um bom lugar para interagir sobre o BBB, mas se revelou um lugar tóxico, cheio de gente perversa e sem nada para fazer, além de transformar entretenimento numa pocilga insuportável.

Num momento em que se discute tanto o efeito maléfico das fake news no debate político e no resultado de eleições, é chocante a velocidade com que se cria e se dissemina informações mentirosas sobre os participantes do reality, suas famílias e também sobre a produção do programa. Se for acreditar no que dizem as redes sociais, a conclusão é de que a direção escolheu o pior tipo de gente para confinar dentro da casa.

As pessoas não se contentam em acompanhar o jogo como mera diversão. Tentam escarafunchar a vida dos participantes, criam teorias mirabolantes e passam a ter comportamento agressivo não apenas contra os perfis oficiais dos enclausurados, mas também em relação a espectadores que têm outras preferências.

Os torcedores de realities revelam o que há de pior no ser humano. Julgam o semelhante sem ter o mínimo de autocrítica. Não são poucos os comentários que se referem a brothers e sisters como macaca, gorda, viado, sapatona, preto fedido, pedófilo, vaca, piranha, mentiroso. Gente que aponta o dedo, agindo de uma forma ainda pior do que aquela conduta que condena ou critica.

Muitos internautas se orgulham de acompanhar o BBB 18 “24 horas por dia” e saber tudo o que se passa na casa, como se fossem receber um MBA por isso. É muita falta do que fazer na vida, mas cada um é tonto como pode. Esse pessoal da tropa de choque, que não vai ganhar nem um pirulito se os seus preferidos forem os vencedores, se orgulha em ser especialista de um programa de televisão, em ter repertório para descarregar sua verborragia contra todos que se posicionam a favor de outros participantes.

É risível que tanta gente leve entretenimento tão a sério a ponto de ser agressivo, rude, preconceituoso e criminoso, em alguns casos. O que está em jogo não é educação, saneamento, desemprego, para gerar tanto envolvimento e haver tanta discórdia. Mas sem dúvida o comportamento do telespectador diz muito sobre o país que somos hoje. É só um programa de TV, gente. Menos.

Mariliz Pereira Jorge

É jornalista e roteirista.

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