Mariliz Pereira Jorge

Brasileiros como Jéssica, do BBB 18, não fazem a menor ideia do que seja desigualdade

Personal trainer disse que ricos e pobres têm mesmas oportunidades

Jéssica no BBB 18 (Globo)
Jéssica no BBB 18 (Globo) - Reprodução/Globo

Finalmente parece que Jéssica mostrou a que veio ao ser selecionada para o BBB 18. Representar os brasileiros que não fazem ideia do que seja desigualdade social e os efeitos dramáticos dela em nossa sociedade. Na manhã de quarta (28), ela tentou convencer Gleici de que ricos e pobres têm as mesmas oportunidades para fazer uma faculdade no Brasil. Sim, teve isso.

“Você tem que se esforçar tanto quanto um rico, pois as oportunidades são iguais. Para passar num vestibular, a prova é a mesma, as questões são as mesmas e o preço é o mesmo”, disse a personal trainer.

Gleici discordou e contou, mais uma vez, o quanto teve que ralar para entrar numa faculdade. “Eu andava quase duas horas para chegar na escola no sol quente. Comecei a trabalhar com 12 anos. As oportunidades não são iguais.”

Não contente com esse depoimento, Jéssica diz que “o ser humano fica arranjando desculpas e não sai do lugar. É necessário ir atrás das oportunidades, senão, Deus colocaria todo mundo no mesmo patamar.”

“Não é questão de Deus, é de políticas públicas”, respondeu Gleici.

É, princesa, parece que do alto do seu castelo você tem uma visão míope da realidade brasileira.

Jéssica mostrou que se sai muito melhor no papel de planta, que vinha desempenhando no BBB 18, do que ao opinar sobre as mazelas de nossa sociedade. A princesa deixou claro que não faz a menor ideia de que vive num país com um abismo entre ricos e pobres e que não basta apenas se esforçar para ter acesso a uma faculdade.

Isso me lembrou uma pesquisa divulgada no fim de 2017 em que o Brasil é o segundo país do mundo em que as pessoas mais têm a percepção equivocada da realidade. Pior do que os brasileiros apenas o sul-africanos, num universo de 38 países avaliados pelo instituto Ipsos Mori.

Chamado de Os Perigos da Percepção, o resultado das entrevistas mostra que o brasileiro tem pouca familiaridade com assuntos que digam respeito à saúde, imigração, tecnologia e segurança, por exemplo. As respostas foram comparadas a dados oficiais e nos colocam numa posição um tanto vergonhosa.

No ano anterior, o ranking foi chamado de Índice de Ignorância, bem menos politicamente correto, mas muito mais próximo da realidade que ele revela. Somos um país de ignorantes e Jéssica acabou mostrando que é legítima representante desse triste universo de gente desinformada –e socialmente alienada. 

E isso não se restringe à percepção de mundo, mas também à própria existência. As pessoas vivem num mundo tão paralelo que não têm ideia do que os outros pensam sobre elas e seu comportamento. Pegue o eliminado da semana, Caruso. Passou semanas acreditando que era forte e amado pelo público. Foi eliminado com mais de 80% de rejeição.

Caruso, se for esperto, vai aproveitar esse choque de realidade e rever a forma como se relaciona com as pessoas. Jéssica deveria fazer o mesmo, sair do seu castelo de princesa e ver que o mundo aqui fora –do BBB 18 e da sua bolha limpinha– é bem menos cor-de-rosa do que ela pensa. 

Mariliz Pereira Jorge

É jornalista e roteirista.

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