De faixa a coroa
Descrição de chapéu miss brasil

Miss Brasil terá 1ª trans na disputa: 'Oportunidade rara para os LGBTQIA+'

Rayka Vieira será uma das 48 candidatas no concurso desta quinta

Rayka Vieira Instagram/raykavs

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A goiana Rayka Vieira, 26, se tornará nesta quinta-feira (19) a primeira mulher transexual a disputar o posto de Miss Brasil. Desde que sua candidatura foi anunciada, em setembro passado por esta coluna, a jovem viu sua vida virar de ponta cabeça. Ela mesma diz que chegou a se assustar com a repercussão.

“Demorei para assimilar. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer na minha vida, já que oportunidades são raras para a comunidade LGBTQIA+. Hoje já absorvi melhor e posso dizer que estou muito feliz de viver este sonho”, conta ela, que vai defender a faixa de Miss Centro Goiano no concurso, entre 48 candidatas.

Vieira diz que apesar de ter assustado um pouco e até se distanciado das redes sociais, viu o número de seguidores em seu Instagram mais que dobrarem, chegando a quase 12 mil. Mas nem tudo foi positivo. A candidata a Miss Brasil também foi vítima de ataques e mensagens com discursos de ódio e preconceito.

“Chegaram até mim inúmeras críticas, ofensas, piadas, ironias, agressividades, machismo. Isso me deixou mais assustada, e com certeza contribui para minha ausência momentânea da internet. Tive receios de postar qualquer coisa, me posicionar, falar...”, recorda ela.

“Eu sempre tive medo do que iam falar de mim”, continua. “Mas minha família, amigos e colegas me deram conselhos e fui ficando mais tranquila. O lado bom disso tudo, é que as mensagens positivas anularam essa coisa negativa, e hoje não tenho medo de me mostrar e aproveitar as oportunidades que a vida me trouxer.”

A faixa de miss também abriu para Vieira portas de trabalhos como modelo e influenciadora social. Para ela, houve uma quebra de paradigma em relação à sua imagem, que pode beneficiar outras modelos trans.

“Acho que começaram a ter uma visão diferente, sem medo de vincular a imagem de uma mulher trans a um produto. Meu título de miss abriu muitas portas para que eu trabalhasse como modelo. Fiz campanhas de moda e divulgações de marcas, produtos e serviços. Uma delas, inclusive, foi para um produto estético nacional, e recentemente fui procurada por um aplicativo de delivery de refeições.”

Viera diz que sua vida foi mudada também no âmbito pessoal. Sua timidez deu lugar a uma mulher mais segura, que quer realmente lutar para ajudar outras, afirma. Ela também se diz “preparadíssima” para vencer e representar o Brasil no mundial.

“Se eu ganhar, vou linda para o Miss Mundo, e sei que vai ser incrível. Seria incrível, e acho que eu caio durinha no chão de emoção. Estou preparada e tenho certeza que usarei esse posto para ajudar outros jovens, mulheres e da comunidade LGBTQIA+. Quero inspirar o empoderamento de mulheres que, assim como eu, trans ou cisgênero, têm medo e se sentem fracas para realizar seus sonhos”, conta.

A miss diz que não quer ser vista só como uma mulher trans, mas se diz orgulhosa disso. “Quero deixar um legado de que o inimaginável pode ser imaginável. Acho que os concursos de beleza nunca mais serão os mesmos depois de mim. Sou a primeira mulher trans em um concurso de Miss Brasil, mas espero que não seja a última”.

“Que a participação de mulheres trans em concursos tradicionais possa ser algo natural, e que meu único atributo não seja ser trans. Eu tenho um sorriso bonito, eu sou engraçada, brincalhona, amiga, dedicada, inteligente, resiliente, não desisto dos meus sonhos e sou muito família”, conclui.

PRIMEIRA VEZ

A final do Concurso Nacional de Beleza (CNB) 2021 —quando será eleita a nova Miss Brasil Mundo— será transmitida ao vivo na quinta-feira (19) pela TV CNB, no YouTube, e pela página do Facebook do Global Beauties, a partir das 18h30.

O evento nacional acontece quase dois anos após sua última edição, isso porque a edição 2020 foi cancelada após ser postergado três vezes por causa da pandemia —o internacional Miss Mundo também não aconteceu pela primeira vez desde sua criação, em 1951. Agora, a etapa nacional acontecerá com todas as precauções entre os dias 16 e 20 de agosto, no Brasília Palace Hotel, na capital federal.

Em mais de 60 anos de realização, esta será a primeira vez que um concurso de Miss Brasil desenhado inicialmente para mulheres cisgênero, recebe uma trans— seja na versão Mundo, Universo, Terra ou qualquer outra. Antes de Vieira, a carioca Náthalie de Oliveira disputou o estadual Miss Rio de Janeiro (versão Universo) no início de 2019, mas não chegou a se classificar para o nacional.

O concurso que Vieira vai participar elege uma brasileira para competir no internacional Miss Mundo, que até hoje também não teve candidata transexual. O Miss Universo, por sua vez, contou com a presença da modelo trans Angela Ponce em 2018, que defendeu a Espanha na disputa e foi homenageada ao vivo na final.

A diversidade marca a disputa deste ano. Além de Vieira, participam do concurso uma representante dos imigrantes coreanos no Brasil, uma miss com ascendência indígena, cinco candidatas afrodescendentes e uma deficiente auditiva. A campeã vai suceder a mineira Elís Miele, detentora do título desde 2019.

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo e Mister Brasil. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias e comunicação corporativa.
Contato ou sugestões, acesse instagram.com/defaixaacoroa e facebook.com/defaixaacoroa

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