De faixa a coroa

Concurso de beleza tira vaga de modelo que reagiu mal a fora: 'Não aceitamos machismo'

'Eu faço o estilo de todas, até das lésbicas', disse João Pedro Salgado

Mister João Pedro Salgado Divulgação

O modelo João Pedro Salgado, 24, atual detentor do título de mister Bento Gonçalves (RS) viu seu nome viralizar na última semana após reagir mal ao levar um fora de uma garota. “Eu faço o estilo de todas (...) até das lésbicas e dos homens héteros”, chegou a afirmar ele.

As mensagens foram divulgadas pela jovem que teria rejeitado as investidas do modelo, e logo se espalharam pelas redes sociais e até em sites de notícia. Mas essa exposição acabou não sendo muito legal e acabou desclassificando João Pedro da disputa do Mister Brasil CNB.

O concurso, que além de faixas de cada uma das unidades da federação aceita também representantes de regiões turísticas e econômicas do país, considerou o comportamento do mister indevido, e a organização estadual o destitui da vaga. Ele continua com o título de Mister Bento Gonçalves, mas não poderá disputar o nacional.

“Nossa organização não compactua com qualquer tipo de preconceito ou machismo. Muito menos partindo de nossos representantes. Os atos cometidos pelo Mister Bento Gonçalves são de sua total responsabilidade. Por esses atos, ele perdeu a vaga ao Mister Brasil, não fazendo parte do time gaúcho”, se pronunciou o certame, em nota.

Após a repercussão, Salgado deletou suas redes sociais e divulgou um vídeo de desculpas: “Vim pedir desculpas mais uma vez. Eu sei que viralizou, tudo bem. O mundo dá voltas, cuidado. Quem me conhece, sabe quem eu sou, não sou um babaca: eu fui um babaca. Já aprendi a lição e estou arrependido. Estou pedindo paz. Sou um cara legal. Errar é humano”, disse.

A coluna tentou contato com João Pedro por telefone, mas ele não atendeu às ligações. Já Marcelo Soes, diretor do Mister Rio Grande do Sul CNB, falou com exclusividade e se diz triste com a situação, que, segundo ele, é inédita em seus 17 anos trabalhando com disputas de beleza masculinas.

“Quando vemos que histórias desse gênero tomam uma proporção tão grande, a gente percebe que infelizmente os concursos às vezes são mais visados por qualquer tipo de escândalo do que pelas partes boas que eles oferecem”, lamenta o empresário, que se diz preocupa com a repercussão negativa do caso.

Soes trabalha com concursos de beleza há 29 anos e foi um dos responsáveis pela realização do Miss Brasil Be Emotion, que até o ano passado elegia as brasileiras que concorriam a Miss Universo. Veja a entrevista completa com ele:

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Como você se sentiu ao ficar sabendo da história do fora?
Minha reação é de tristeza, pois não gostaria que tivesse sido dessa forma. Queríamos que fosse diferente, que ele tivesse uma conduta bacana assim como a dos outros meninos, e desenvolvesse um trabalho de representação legal envolvendo sua comunidade e a região. Realmente meu sentimento é de profunda tristeza, não só por ele mas também pela menina, pois afinal de contas ninguém gosta de ser agredido de alguma forma, nem com agressão verbal.
Eu li a conversa enviada e o informei que ele não fazia mais parte do nosso elenco. Eu percebi que ele usava a palavra mister para se referir a si mesmo, o que o conectava ao nosso concurso, então decidi publicar um comunicado oficializando sua saída.

O que você achou da repercussão negativa? E quais lições você tira desse episódio?
Sobre a repercussão negativa, acho que todas as pessoas têm o direito de expor o que acham. A gente sabe que houve um erro e não compactuamos com isso, mas não gostamos de ver nenhum jovem envolvido numa situação como essa. Percebemos também que as coisas negativas vendem muito mais que as positivas, uma vez que os concursos são intrinsecamente ligados a projetos sociais, e isso infelizmente não tem espaço algum. Aí quando vemos que histórias desse gênero tomam uma proporção tão grande, a gente percebe que infelizmente os concursos às vezes são mais visados por qualquer tipo de escândalo do que pelas partes boas que eles oferecem.

Já teve contato com casos similares ao longo da sua carreira?
Eu trabalho há 17 anos com concursos masculinos e nunca vi um caso como esse. Sempre friso que é um caso isolado, e essa é a primeira vez que vejo uma situação assim, ainda mais vinda de tantas pessoas ao mesmo tempo, pois comecei também a receber coisas diferentes. Enfim, é muito complicado e triste.

O que o levou a destituir o título do Mister Bento Gonçalves?
Após o concurso estadual começamos a receber um material, prints enviados por algumas mulheres, que haviam se sentido agredidas verbalmente de alguma forma pelo candidato de Bento Gonçalves. Imediatamente o procuramos e conversamos com o rapaz para entender melhor o que aconteceu. Num primeiro momento ele negou, mas quando mostramos os prints ele acabou admitindo e, posteriormente, se desculpou com essas meninas.
Tentamos então seguir com nosso trabalho, mas infelizmente esse tipo de situação voltou a acontecer mais duas ou três vezes, até que tivemos mais um fato e entendemos que não tinha mais como seguir. Ele tinha vaga para disputar o Mister Brasil e estava batalhando para ter condições de ir, porém com esses acontecimentos nós o informamos que ele não fazia mais parte do nosso time. Não poderíamos compactuar com esse tipo de comportamento.

Como foi feito isso e qual foi a reação do rapaz?
Foi por telefone, eu fiz uma ligação, conversei e dei a notícia de que não teria mais como ele estar no concurso. Ele se mostrou indignado. Questionou como que ele não teria mais vaga, depois afirmou que ‘não queria mesmo’... Disse que ia fazer outras coisas da vida dele, e nós então desejamos sucesso a ele em tudo que fosse fazer.

Como fica agora o título de Bento Gonçalves? Vai haver substituição? Quando será o nacional?
Ele conquistou essa faixa no concurso estadual que foi feito em novembro, e assim ficou. O título municipal em si segue com ele, nós apenas cancelamos a vaga dele ao Mister Brasil CNB. Então não houve a substituição dele por outra pessoa. Nós temos cinco vagas gaúchas para o Mister Brasil, pois além do vencedor mandamos também os outros finalistas para disputar o nacional.

Na sua opinião, quais as principais diferenças entre miss e mister (fora gênero)?
Não vejo tantas diferenças entre os concursos. Teoricamente, a mecânica e o funcionamento são os mesmos. O que sinto mais é que os homens são mais companheiros, fazem mais amizades, ajudam uns aos outros e tornam-se mais parceiros. Eles trabalham muito sua autoestima e autoconfiança. É algo muito bacana e tem esse lado bastante positivo.

De maneira geral, qual é a conduta ideal esperada de um mister?
Acredito que o que mais se espera da conduta de um desses meninos seja de um homem representativo, bacana, que demonstre bons valores de conduta, de caráter, de questões éticas e morais. Que seja educado, carismático e que não seja um homem só bonito ou de corpo perfeito, mas que represente coisas boas e exemplos legais.

Quais as mudanças que você sentiu nos concursos com a pandemia?
A principal mudança foi a não realização dos concursos físicos, uma vez que existem várias regras no país para não aglomeração. Como não tem uma previsão de retorno ainda, o setor de eventos provavelmente deve ser o último nessa lista. Nós até realizamos um evento virtual, online, mas foi uma outra experiência, para ver como funcionava. Mas obviamente não é a mesma coisa de um concurso no formato tradicional, com público.

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo e Mister Brasil. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias e comunicação corporativa.
Contato ou sugestões, acesse instagram.com/defaixaacoroa e facebook.com/defaixaacoroa

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