De faixa a coroa

Primeira Miss Brasil de ascendência oriental recorda título e carreira internacional

Catharina Choi Nunes ficou famosa na Coreia e participou de programas de TV

Catharina Choi Nunes Instagram/cathchoi

Há cinco anos, mais uma barreira em relação a padrão estético foi quebrada no nicho dos concursos de miss no Brasil. E numa história com uma grande reviravolta, a protagonista desse feito foi a publicitária paulistana Catharina Choi Nunes, 30.

Filha de pai pernambucano e mãe coreana, a jovem cresceu no bairro do Bom Retiro, reduto coreano em São Paulo, e assumiu a coroa de Miss Brasil Mundo 2015, tornando-se a primeira brasileira com ascendência oriental a vestir a faixa nacional.

“Cresci ouvindo que eu não era brasileira e isso me doía. Se nasci aqui, porque eu não seria brasileira? Creio que o Miss Brasil foi uma conquista não só para mim, mas também para muitas brasileiras com ascendência oriental. Nosso povo não é homogêneo e os concursos precisam mostrar mais representatividade”, conta Choi.

​E a conquista quase não aconteceu. A disputa, que aconteceu em Florianópolis (SC), decretou inicialmente a vitória da modelo capixaba Ana Luísa Castro, que renunciou ao título no dia seguinte. A organização descobriu, na manhã seguinte à eleição, que Castro era casada, o que não é permitido segundo o regulamento.

“Naquele dia eu acordei com diversas mensagens com fotos do casamento da Ana e fiquei sem entender nada. Aos poucos fui entendendo até que a confirmação chegou quando eu estava no aeroporto, a minutos de embarcar para São Paulo. Me lembro que não conseguia parar de sorrir. Esse momento me marcou muito e foi lindo”.

COROAÇÃO NA GLOBO E FAMA NA COREIA

Apesar de não ter recebido o anúncio no show da final, Choi passou por outro grande momento de emoção que compensou essa falta: foi coroada ao vivo, em rede nacional, no programa Encontro (Globo), que a destacou não só como primeira Miss Brasil de ascendência asiática, mas também que Castro teria sido a primeira mulher negra eleita Miss Brasil Mundo .

“Realizei um sonho em estar lado a lado com a Fátima Bernardes. Cresci vendo ela todas as noites com o William Bonner e sempre quis conhecê-la. Ela é uma pessoa tão querida e simpática, e o que mais me recordo desse dia é ela conversando com seus convidados e vendo se estão bem, se estão à vontade”, lembrou.

Com o título, a paulistana representou o Brasil no Miss Mundo, , que em 2015 aconteceu na China. Ela disputou provas preliminares e passou quase um mês confinada. A brasileira era apontada como uma das grandes favoritas, que acabou ficando com a “zebra” daquele ano, a espanhola Mireia Lalaguna.

Choi chegou ao Top 15 do concurso e trouxe para casa a faixa de Miss Americas --tradicionalmente entregue para a melhor representante do continente americano.

“O Miss Mundo não é pra qualquer uma, precisa ser muito regrada, disciplinada. Foram muitos dias, bastante intenso, agenda lotada, entrevistas, competições, ensaios. Dei o meu melhor e valeu muito a pena. Hoje me sinto vitoriosa de ter encarado esse desafio de frente e conquistado uma posição bacana para o Brasil”.

Hoje, além de modelo, Choi trabalha na organização do Miss Coreia Brasil, que elege uma brasileira com raízes no país asiático para competir no Miss Coreia. E ela não está ali por acaso, já que venceu a competição em 2013 e foi finalista da etapa coreana. Com isso, ela defendeu o país de sua mãe e ficou em quarto lugar no Miss Terra, mais um dos grandes concursos globais, onde ganhou a faixa de Miss Fogo.

A vitória deixou Choi conhecida na Coreia. A partir daí, foi repórter-correspondente da Copa do Mundo de 2014 para uma TV local e, em seguida, subiu mais um degrau e apresentou durante cerca de dois anos um dos programas de entretenimento mais populares do país na época, chamado Showbiz Korea.

“Esse foi o período mais louco da minha vida. Um dia eu era uma garota comum, e no outro eu estava indo de programa em programa na Coreia, conhecendo todos aqueles apresentadores, atores e comediantes. Foi muito engraçado e acho que não entendi até hoje a grandeza do que foi minha passagem por aquele país.”

“Como lá é superseguro, eu andava de metrô e ônibus como qualquer pessoa e às vezes eu percebia que estavam me olhando, tirando fotos ou fofocando e apontando, e não entendia nada. Era muito divertido e especial”, recorda.

Choi reconhece que o mundo miss mudou sua vida e aconselha quem tiver esse sonho a lutar por ele, se dedicar e não achar que é tudo glamour e fama: “Tem que ralar, e muito. Mas é uma oportunidade incrível que abre muitas portas. O meu conselho principal é: acredite em você e não compare a sua beleza com das outras meninas, pois cada uma de vocês é única.”

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo e Mister Brasil. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias e comunicação corporativa.
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