De faixa a coroa

Mineira vence Miss Cadeirante Brasil e considera disputar Miss Universo: 'Por que não?'

Karen Aguiar superou mais de 150 candidatas e pretende seguir carreira como miss

Karen Aguiar é a Miss Cadeirante 2020 Arquivo Pessoal

Um concurso virtual, devido à pandemia da Covid-19, definiu, no início do mês, a nova Miss Cadeirante Brasil. O evento, que está em sua quarta edição, teve uma disputa acirrada. Por fim, foi anunciada como vencedora a mineira Karen Aguiar, 22, que é estudante universitária e está no quarto período de psicologia.

“Ser miss nunca foi um sonho de criança. Eu não esperava ou imaginava que poderia viver essa possibilidade. Entrei no concurso por indicação e incentivo de amigas, mas confesso que não estava botando muita fé. Agora que aconteceu, estou muito feliz!”, afirmou a miss em conversa com a coluna.

Karen é cadeirante há 12 anos. Tinha apenas oito quando teve diagnosticado um tumor na coluna. Após a retirada, ela perdeu os movimentos do peito pra baixo e começou a usar a cadeira de rodas. “Passei por um processo longo de dois anos de quimioterapia e comecei minha reabilitação em cima da cadeira”, recorda.

“É um processo de autoaceitação e adaptação em todos os setores do seu cotidiano, como em casa e na escola, além de uma transformação em relação às companhias, amizades e relacionamentos.”

Apesar de sua história, Aguiar afirma que nada a limitou e que já realizou coisas que pessoas que andam nem imaginam conseguir, como tornar-se miss. Além de estudante, ela é instrutora de dança cigana para cadeirantes e considera que seu diferencial para a vitória foi a simpatia, que irradia uma luz diferente.

Para a miss, o título chega para mostrar a ela que tudo é possível. “Eu saio sozinha na rua, faço esportes, nado, danço. Já fiz mergulho, voei de paraglider e posso ainda namorar, casar, ter filhos... A gente consegue fazer o que quiser e der na telha, só basta querer. E quero usar meu título para mostrar isso às mulheres”, diz Karen.

“Depois que fiz a inscrição, comecei a ter muita vontade de vencer e representar todas as brasileiras cadeirantes. Que trabalham tanto, correm atrás para alcançarem seus sonhos. Quero mostrar para todas as meninas que elas são capazes de tudo, sejam cadeirantes ou não”, completa ela, natural de Belo Horizonte.

Sobre o atual cenários dos concursos de beleza, que estão em constante evolução e adaptação, Karen considera seguir carreira como miss. Se abrirem inscrições para o Miss Brasil que elege uma representante ao Miss Universo, ela também considera se inscrever.

“Não precisa ter um padrão de corpo. Sendo inteligente, simpática, tendo uma voz ativa, por que não? Nós não somos diferentes de ninguém que anda, e acho sim que existe espaço para que uma cadeirante participe de um concurso de miss tradicional. O importante é participar e, querendo, pode existir esse espaço”, conclui.

PROCESSO SELETIVO

O Miss Cadeirante Brasil contou com 321 mulheres inscritas, sendo que a final teve 157 selecionadas, de 19 estados. Um grupo de 40 jurados avaliou as candidatas por meio de fotos nas redes sociais e deram seus votos por vídeo. O único pré-requisito era ser cadeirante e, de acordo com a idealizadora Lu Rufino, 45, ser empoderada.

“Precisa ter amor próprio, o que é fundamental para qualquer mulher. Também confiar e ter objetivos de vida, além de não aceitar nenhuma limitação imposta pela sociedade”, destaca Rufino.

A ideia do concurso nasceu, por acaso, em 2017, quando Lu precisou fazer um seminário sobre políticas públicas voltadas para pessoas com deficiência.

“Eu não estava conseguindo quórum para lotar o auditório com capacidade para 200 pessoas. Foi aí que decidi abordar, além de direitos, vida afetiva e sexual das PCDs (pessoas com deficiência), e anunciei um desfile das 15 cadeirantes mais bonitas. Como resultado, lotei o local com 400 pessoas”, diz ela, que também é cadeirante.

Advogada e psicóloga há 20 anos, Lu também atua como porta-bandeira da escola de samba Embaixadores da Alegria, que há 14 anos abrem o desfile das campeãs no sambódromo do Rio de Janeiro.

“Este ano o show ia ser realizado no Teatro Municipal do Rio. Com a pandemia, ia ser adiado, mas percebi que as mulheres cadeirantes começaram a ficar meio deprimidas e só falavam de coronavírus, então montei uma estrutura virtual. Foi totalmente gratuito, as meninas não tiveram que pagar nada e todas vão receber um certificado de miss.”

“Temos planos de expandir a competição num âmbito internacional, mas ainda precisamos de parceiros e patrocinadores”, completa ela. A disputa online deste ano bateu quase 2 milhões de visualizações nas redes sociais.

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo e Mister Brasil. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias e comunicação corporativa.
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