De faixa a coroa

Negras, misses Universo e EUA discutem racismo e dizem que George Floyd virou um marco

Zozibini Tunzi e Cheslie Kryst pedem que pessoas denunciem racismo

Zozibini Tunzi, a sul-africana eleita miss Universo em 2019

Zozibini Tunzi, a sul-africana eleita miss Universo em 2019 Instagram/ zozitunzi

Em uma semana de muitos protestos contra o racismo, em todo o mundo, a sul-africana Zozibini Tunzi, 26, eleita Miss Universo 2019, se uniu à atual Miss Estados Unidos, Cheslie Kryst, 29, em uma live, para discutir o assunto, assim como a morte de George Floyd, por um policial branco nos EUA.

As duas misses, que são negras, discutiram, cada uma de sua casa, durante quase uma hora, suas visões sobre a situação. “Não podemos esquecer os fatos que aconteceram anos atrás, de grande brutalidade contra pessoas negras. Mas definitivamente o caso de George Floyd é um marco”, disse Kryst.

No bate-papo, elas comentaram sobre os atos, seus sentimentos como mulheres negras, a forma como as pessoas têm se posicionado e casos que repercutiram nos noticiários nos últimos dias. Tunzi chegou a lembrar de uma mulher branca que perdeu o emprego após uma denúncia falsa contra um homem negro.

Na ocasião, a mulher caminhava com o cachorro no Central Park, em Nova York, quando um homem negro a alertou sobre a necessidade de coleira no animal. Além de não reconhecer seu erro, ela ligou para a polícia e o denunciou por ameaça. Ele, no entanto, gravou tudo e até o prefeito, Bill de Blasio, se manifestou, dizendo que não existe lugar para esse tipo de pessoas na cidade.

“Essa mulher conhece a força que ela tem pela cor da sua pele e a relação problemática entre os negros e a polícia. Então ela sabe que existe um problema aí, e que é real. Mesmo assim, ela e algumas pessoas preferem fingir que não veem esses problemas para se aproveitar deles”, analisou Tunzi.

Kryst completou o raciocínio da colega, fazendo um apelo às pessoas: “Falar sobre e denunciar os comentários e atitudes racistas é o que pode ajudar a mudar este cenário e fazer todos entenderem, de verdade, que vidas negras importam. Continuem criando coragem e encorajando as pessoas a falarem!”.

Ao ser coroada Miss Universo, Tunzi comemorou com um discurso antirracista: “Cresci em um mundo onde mulheres como eu, com a minha pele e meu cabelo, nunca foram consideradas bonitas. Já chegou a hora de parar com isso. Eu quero que crianças olhem pra mim e vejam os seus rostos refletidos no meu”, afirmou.

Com Tunzi, o mundo das misses tem pela primeira vez cinco negras como detentoras dos mais famosos títulos de beleza. Além de Tunzi como Miss Universo e Kryst como Miss EUA, também são negras a jamaicana Toni-Ann Singh (Miss Mundo), Nia Franklin (Miss America) e a adolescente Kaliegh Garris (Miss Teen EUA).

A primeira negra a vencer o Miss Brasil Universo foi a gaúcha Deise Nunes, em 1986. Depois dela, houve um jejum de 30 anos, até que a paranaense Raíssa Santana fosse eleita em 2016, seguida pela piauiense Monalysa Alcântara, em 2017.

Já no Miss Brasil Mundo, em 2015, Ana Luísa Castro foi a segunda negra a conquistar o posto em mais de 50 anos de concurso --a primeira foi Joyce Aguiar, em 2001. Castro renunciou ao título menos de 24 horas depois de conquistá-lo, por ser casada.

De faixa a coroa

Fábio Luís de Paula é jornalista especializado na cobertura de concursos de beleza, sendo os principais deles o Miss Brasil e Miss Universo. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, passou por Redações da Folha e do UOL, além de assessorias, como a da Fox.

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem