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Zapping - Cristina Padiglione

'Peguei a era de ouro da Globo', diz Casagrande na 1ª entrevista após deixar TV

Principal comentarista de futebol da emissora por 25 anos diz que não tem do que reclamar e quer trabalhar na Copa do Qatar

Walter Casagrande Júnior
O comentarista esportivo Walter Casagrande Júnior - @wcasagrandejr no Instagram
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São Paulo

Pouco mais de três horas depois de assinar a rescisão de seu contrato com a TV Globo, onde esteve pelos últimos 25 anos no papel de principal comentarista de futebol da casa, Walter Casagrande Jr. conversou com a coluna em sua primeira entrevista após a saída da emissora.

Atribuiu o fim do contrato a um desgaste gerado pelas várias mudanças pelas quais a Globo vem passando nos últimos cinco anos, inclusive no departamento de esportes. Mas diz que não tem queixas. "Peguei a era de ouro da TV Globo, não tenho do que reclamar."

No momento, além de uma fila de pedidos de entrevista para administrar, ele tem dois propósitos: encontrar um novo espaço para escrever suas colunas, como a que fazia no site GE (Globo Esporte), "De Peito Aberto", e um novo veículo para estar no Qatar trabalhando em mais uma Copa, a sétima como comentarista.

Pela Globo, foram seis Copas, cinco delas atuando na partida final, mais três olimpíadas e uma série de campeonatos mundo afora e no Brasil. Casagrande marca território pela franqueza de seus posicionamentos, incluindo as críticas necessárias à CBF, alvo de seus comentários profissionais ao longo de 20 anos.

Confira principais trechos da nossa conversa:

Você anunciou sua saída da Globo por meio de um vídeo e diz que 'foi um alívio para os dois lados'. Por que foi um alívio?

Walter Casagrande Jr. - Porque eu acho que desgastou, mudou a direção, mudou o modo de dirigir e mudou também o tipo de escolhas dessa direção, né? Então, o alívio que eu digo é assim: talvez o meu perfil estivesse pesado para esse novo modo de dirigir o esporte. E para mim também ficou pesado porque eu sou desse jeito, cara, eu não ia conseguir mudar o meu modo, eu sou crítico, eu sou muito realista nas minhas críticas. Por exemplo, a seleção brasileira: eu sou crítico realista. Pra mim, [a seleção] não jogou contra ninguém até agora, eu não consigo dizer que é favorita. O caso do Neymar: faz quatro anos que ele não joga nada. Os últimos dois anos foram péssimos, muitas contusões, nessa Copa dos Campeões ele não fez nenhum gol, o PSG está querendo que ele saia e eu sou crítico.

Mas alguém pediu que você pegasse mais leve nas críticas?
Casagrande - Não, não, isso não. Nunca tive censura na TV Globo.

Em seis Copas você foi crítico e era a única voz que destoava daquele ufanismo nas transmissões. Por que isso agora gera um desgaste?
Casagrande -
Mas o lance é assim: é questão de mudança de direção. Além de mudar as pessoas da direção [da Globo], muda a direção do esporte, o modo de trabalhar o esporte. Saíram muitas pessoas e eu acho que a direção tem todo o direito de formar uma equipe dela, uma equipe que, na cabeça deles, é o ideal para o momento da TV Globo. Então, eu não vejo problema nisso.

E quando eu falo alívio, é o seguinte: é a primeira vez na minha vida, desde que eu comecei a jogar futebol, que eu estou livre, realmente, de verdade, pra ver o que acontece. Porque eu comecei no Corinthians, fui pra Caldense emprestado, voltei em 82, fiquei até 86, fui pro Porto, fui pro Ascoli, fui pro Torino, voltei pro Flamengo, voltei pro Corinthians.

Eu nunca fui demitido, nunca saí, nunca pedi demissão também, nunca rescindi um contrato. É a primeira vez que eu entro em um acordo com a empresa e cada um segue o seu caminho.
Então, é a primeira vez realmente que eu estou livre, me sentindo livre. Eu até conversei com alguns amigos que falaram: ‘meu, vamos tomar um café?’. E eu disse: ‘vamos, porque agora eu tô que nem o Renato Russo: tenho todo o tempo do mundo'. Eu nunca tive todo o tempo do mundo.

Você tinha tirado 20 dias de férias e nem chegou a voltar a trabalhar. Essa saída não seria algo esperado a poucos meses de uma Copa do Mundo, não?
Casagrande -
Cara, eu acho que já estava se desenhando essa situação, até porque a casa está fazendo isso.

E você já vinha sendo excluído de jogos da seleção nos últimos tempos...
Casagrande -
Então, isso é uma questão de escolhas. Fui comentarista oficial da seleção brasileira desde 1999 até 2019, por 20 anos. Eu entrei na Globo em julho de 97, então eu faria 25 anos agora. Eu fiquei de 1996 até metade de 97 na ESPN. E aí eu fui pra TV Globo. Eu peguei talvez assim um momento de ouro no esporte da TV Globo e da TV Globo como um todo. Vários eventos, vários campeonatos, tudo no local, viajei o mundo todo fazendo seleção brasileira, fiz olimpíada de Sidney, fiz seis Copas do Mundo, cinco finais, tudo lá, no local.

Era um momento em que a TV Globo investia muito na qualidade e na presença. Depois mudou o pensamento, não falo se está certo ou se está errado, entrou um pensamento de economizar mais, de evitar gastos e custos e tal. E aí a coisa mudou, já não é como era antes. Essa turma que entrou hoje na TV Globo, de comentaristas e tal, eles nem imaginam como era antigamente, quando a TV Globo investia na qualidade e na presença no local.

Então, eu peguei a era de ouro da TV Globo e não tenho nada do que reclamar.

Você diz isso porque hoje muitas transmissões são feitas a distância?
Casagrande - A maioria das coisas é a distância, mas acho que são todas as emissoras. O investimento agora é menor, o custo de tudo é alto, foi uma mudança. Por isso é que eu falo que eu não posso reclamar. Eu peguei, primeiro, uma direção muito forte na TV Globo, quando eu entrei, com o saudoso Marco Mora e o Luiz Fernando Lima. Tudo o que eu sei eu aprendi com essas pessoas e com o [José] Trajano na ESPN, que foi meu início, é a minha base.

Então, o meu estilo de comentário foi desenhado por essas pessoas, junto com o meu próprio estilo de ser, minha personalidade. Quando eu fui para a TV Globo, o Marco Mora falou: ‘Eu estou contratando aquele cara da ESPN, eu quero que você fale e dê opinião’. E eu fui desenvolvendo esse tipo de estilo dentro do que eu aprendi: não tenho envolvimento com ninguém dentro do futebol, sou totalmente independente mesmo, não recebo informação, não devo favor pra ninguém, não faço favor pra ninguém.

Sempre deixei muito claro, desde o início, meu estilo é ser pago pra dar opinião, não sou pago pra dar informação, e eu sigo essa linha. Não acho errado o estilo de outras pessoas, mas como eu sou lá de 97, eu fui ensinado, moldado em cima da minha característica de pessoa.

Você acredita que o fato de também opinar com muita franqueza sobre outros assuntos, principalmente política, incomodava alguém da emissora?
Casagrande - Olha, não sei. Isso eu não posso dizer porque nunca me censuraram, e as minhas opiniões são bem claras, seria até absurdo eu não falar nada porque todo mundo sabe o que eu penso. Se acontece uma determinada situação e eu não falo nada, as pessoas vão dizer: ‘pô, tô esperando esse cara falar alguma coisa e ele não vai dizer?’

Outro ruído que causou estranhamento nesse desligamento seu é o fato de o seu documentário, 'Casão em Um Jogo sem Regras', estar super em alta no GloboPlay.
Casagrande -
A série está sendo a mais vista do Globoplay até esse momento. Eu fui na Fátima [Bernardes], fui no Altas Horas, fiz quatro programas no GNT eu acabei indo ao Roda Viva, da TV Cultura.

E o esporte, por exemplo, não se interessou?
Casagrande -
O Esporte Espetacular fez uma matéria sobre a série, na semana mesmo da estreia. As pessoas me procuraram pra falar sobre a série, alguns se manifestaram e me ligaram, mandando mensagem, principalmente o Paulo César Vasconcellos, Odinei, André Rizek, Mansur, vários colegas, mas eu acho que o sucesso da série poderia ter sido melhor explorado no próprio esporte. Mas isso não cabe a mim analisar.

Esse hit da série não teria gerado ciúmes na direção do esporte da casa?
Casagrande - Isso eu não sei. Eu acho que o entretenimento e os outros canais Globo exploraram bem o momento importante da série e o seu resultado.

A transparência de seus posicionamentos também promovia controvérsias saudáveis, mas às vezes incendiadas pelas redes sociais, como aquela vivida com Caio Ribeiro em 2020, quando ele criticou uma manifestação política do Raí, então dirigente do São Paulo, contra o presidente Jair Bolsonaro.
Casagrande -
Mas eu e o Caio resolvemos isso no programa mesmo. É que na ocasião, ele acabou ficando sozinho na defesa da opinião dele, mas nós não ficamos com nenhuma pendência. Nós não somos amigos, somos muito diferentes, pensamos totalmente diferente, mas temos uma relação cordial, convivemos muito bem.

Como eu joguei futebol desde garoto, eu aprendi, aos poucos, a não levar nada pra fora do campo. Chorava, quando eu era pequeno, quando perdia. Acabava o jogo, minha adrenalina baixava e eu voltava ao normal. Por isso que eu não tenho inimizade, eu nunca carreguei nada pra frente, é uma característica da minha personalidade, não é uma questão de conceito, isso é meu.

Sou uma pessoa que discute e depois acaba. E zerou. Não tem problema nenhum com o Caio, nunca tive. Só que eu não sou o cara que fica respondendo rede social, não sou um cara que fica se explicando em rede social.

Eu vejo, você não apaga nem os xingamentos.
Casagrande
- Eu não apago e nem respondo. Eu já vi várias vezes, mas hoje eu nem olho porque eu sei quais são os tipos de comentários, mas eu não respondo porque pra mim, se eu dei a minha opinião e uma parte da população não gosta e fica me atacando, é problema deles. Se as pessoas começam a falar que a briga do Caio e do Casagrande foi isso ou aquilo, isso aí é problema deles, opinião deles, eu não tenho que ficar respondendo pra ninguém, eu não discuto em rede social com ninguém, não importa se é Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, que me atacam nas redes sociais. Problema deles, eu não respondo.

E não é que eu não respondo pra eles, eu não respondo pra ninguém. E não apago. A questão é: isso não é liberdade de expressão. Liberdade de expressão não te dá o direito de atacar as pessoas. Você tem que dar opinião: ‘não gosto do Casagrande’, ‘não gosto dele como comentarista’. Isso é opinião. Você falar ‘viciado, drogado’, isso não é opinião, isso é agressão. Mas cada um lida com os seus problemas.

Eu não posso sofrer com a falta de entendimento das outras pessoas do que é liberdade de expressão. Eu sigo o meu entendimento. Dou a minha opinião e não respondo redes sociais. Quer discutir comigo? Vamos a um programa, frente a frente, a gente discute, agora ficar respondendo pessoas na rede social, não é a minha, não faço questão.

Alguma vez alguém da Globo se mostrou incomodado com a franqueza com que você fala sobre dependência química?

Casagrande - Não, nunca ninguém falou nada sobre isso e eu sempre falei. No período que eu fiquei internado, recebi todo o apoio da direção de esportes da época. Eles me disseram: 'cuida aí de você, não se incomode com nada', e eu continuei recebendo meu salário normalmente. Quando eu falei aquilo no final da Copa da Rússia [primeiro mundial fora do Brasil em que não teve recaídas], foi uma coisa totalmente espontânea que eu quis falar naquele momento, e tudo bem.

A gente está aqui conversando umas 3 horas e pouco depois do anúncio da saída. Já tem proposta de emprego?
Casagrande -
Não, estou recebendo convites de entrevistas, muitas. Eu vou atender todo mundo na medida do possível, de forma que seja confortável pra mim também, porque eu não vou ficar três ou quatro dias dando entrevista. Eu quero caminhar no Ibirapuera, eu quero sair pra jantar, quero ir no teatro, mas vou atender a todas as pessoas que for possível.

Tem duas coisas em que eu vou me empenhar agora. Uma é que eu vou arrumar um lugar para escrever, que eu gosto muito de escrever sobre tudo. E a segunda é que eu quero ir para a Copa do Mundo trabalhar, por algum canal, site, jornal, não sei.

E tenho dois projetos em que eu estou trabalhando. Primeiro é o dos indígenas, com um jogo marcado para o dia 11 de agosto: estou junto com um grupo de pessoas organizando, muita gente empenhada nisso. Esse é o meu projeto principal. O outro é fazer homenagens a grandes compositores do Brasil, como eu já fiz do Adoniran Barbosa. Quero fazer com Luiz Gonzaga, Belchior, Gonzaguinha. Esses são os dois projetos, um social e outro, cultural. Agora, profissional [esporte], nada ainda planejado.

Existe alguma chance de você se engajar em alguma campanha política?
Casagrande -
Pode esquecer. A opção de eu não participar de campanhas ou subir em palanque não é só porque era uma regra da TV Globo. Eu acho que a regra da TV Globo faz sentido, nesse ponto a TV Globo sempre foi correta. Mesmo eu não estando na TV Globo, eu não vou participar de campanha, eu não vou subir em palanque e eu acho que eu não preciso fazer isso. Todo mundo sabe a minha posição, todo mundo sabe em qual partido eu vou votar.

Em quem você vai votar?
Casagrande - Eu vou votar no PT.

No seu discurso, de toda forma, é sempre mais latente o antibolsonarismo.
Casagrande
- Eu sou contra o governo Bolsonaro até o fim da minha vida. Eles estão destruindo o país, na parte política, na parte social, destruindo a Amazônia, destruindo os indígenas, o pessoal tá morrendo de fome e o cara fica gastando dinheiro em motociata. Então, eu sou contra corrupção do MEC, machismo, homofobia, racismo, não posso ser a favor de uma coisa dessas.

Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que eu sempre fui PT, mas gosto do Ciro Gomes também, já votei no Ciro. Foi como eu falei no Roda Viva: eu vou votar no PT porque é o partido em que eu sempre votei. Não sou filiado, não vou subir em palanque, não vou fazer campanha pra ninguém, não sou candidato a nada.

Até porque eu sou um profissional, sou um comentarista, sou um colunista de esporte, eu quero mostrar isso, eu quero continuar sendo isso. Sempre respeitei a TV Globo até hoje. As emissoras de televisão, jornais, rádio, o que for, elas têm as restrições delas em relação a política.

Eu vou esperar ter contratos para trabalhar como comentarista, colunista de esportes, apesar que eu já penso também em fazer outras coisas, penso em fazer um programa de entrevistas, penso em musical.

E agora já pode dar entrevista para outros canais sem pedir autorização.
Casagrande - Vou dar entrevista pro Domingo Espetacular, da Record. Depende do interesse, do lugar. Eu acho interessante o programa, quero mostrar que eu não tenho nada contra as emissoras de televisão. O meu posicionamento político é uma coisa, as emissora de televisão, outra coisa. É claro que depende do programa. O Domingo Espetacular eu acho legal e vou dar entrevista, ponto.

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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