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Zapping - Cristina Padiglione

Chico Pinheiro chegou à Globo após contestar chute na santa, pela Record

Jornalista ganhou espaço depois de ser demitido por noticiar episódio com bispo da Igreja Universal

O apresentador e jornalista Chico Pinheiro
O apresentador e jornalista Chico Pinheiro ajudou a derrubar pedestais que antes cabiam à figura do apresentador de telejornal - Alex Carvalho/Globo
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Uma das passagens mais tensas da carreira de Chico Pinheiro, 68, que teve sua saída da Globo anunciada nesta sexta-feira (29), não consta do longo texto de despedida distribuído internamente na emissora pelo diretor de jornalismo Ali Kamel. O episódio diz respeito ao chute de Sérgio Von Helder, então bispo da Igreja Universal, em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 1995, quando Pinheiro era âncora do Jornal da Record e tinha, sob contrato, autonomia sobre a edição do noticiário.

Na ocasião, o jornalista recebeu da alta direção da Record a incumbência de anunciar um vídeo de Edir Macedo, dono da emissora, tentando explicar a posição de Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), mesmo grupo da Record. Disposto a dar espaço ao outro lado, ele então propôs que o noticiário deveria ouvir representantes da Igreja Católica, ofendida com a agressão à imagem sacra.

Veio desse embate a sua demissão da emissora, onde esteve por apenas um ano, egresso da Bandeirantes, que o projetou nacionalmente a partir da ancoragem do Jornal da Noite e do Jornal da Band. No texto de despedida de Kamel, a passagem pela Record sequer é mencionada.

Foi logo após a demissão na Record, emissora que o jornalista processou (a Justiça chegou a apreender um helicóptero pertencente ao grupo como garantia de pagamento), que ele chegou à Globo. Em 1996, assumiu a ancoragem do Bom Dia São Paulo e do jornal do meio-dia na rádio CBN, ainda nas instalações da Globo na Praça Marechal Deodoro, e da CBN, na vizinha rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília.

Desde o trabalho na Band, Chico se notabilizou por ajudar a derrubar o pedestal que por anos marcou a apresentação de telejornais, e levou o modelo para a Globo, onde muitas vezes fugia do teleprompter, para a apreensão de alguns parceiros de bancada e editores. Mas nunca falhou no improviso, mesmo quando era flagrado sem perceber que estava no ar, como aconteceu recentemente durante o Bom Dia São Paulo.

Ao telejornal de rede matutino da Globo, onde estava desde 2011, levou os bordões "Coragem, hoje é segunda-feira!", e "Graças a Deus, hoje é sexta-feira! É vida que segue", cumprimento que chegou a anunciar em uma edição de plantão de sexta no Jornal Nacional, o mais sóbrio dos noticiários da casa. Também levou ao Bom Dia o hábito de mencionar, a cada manhã, quais cidades estavam aniversariando.

A informalidade, marca do mineiro nascido em Santa Maria da Boca Monte, no Rio Grande do Sul, fervoroso torcedor do Galo, era um atrativo para a audiência, que interagia com suas intervenções no Twitter.

A paixão pela música, bem manifestada por ele em um bom acervo do extinto "Sarau", programa semanal que apresentava na GloboNews, e o tom conversado que alcançava como âncora, o levaram também às transmissões do Carnaval de São Paulo, um paradoxo para suas origens: "Mineiro gosta é de procissão, de Semana Santa, não de Carnaval", disse-me em mais de uma entrevista sobre a cobertura da folia.

Cioso do hábito de se posicionar com clareza sobre suas ideias e de defender seus argumentos, sempre soube sustentar seus conceitos a partir de fatos, mesmo diante das pressões nas redes sociais. Bem antes de o STF anular as decisões do juiz Sergio Moro que resultaram na prisão do ex-presidente Lula, Chico já havia registrado em áudio a sua indignação com o episódio que ele próprio tivera de noticiar em um plantão de sábado do Jornal Nacional.

A gravação, feita para um grupo de WhatsApp, vazou, chegou ao conhecimento da imprensa e das redes sociais, e ele foi chamado pela chefia para se explicar, o que o fez sem fugir da responsabilidade sobre o áudio e das argumentações jurídicas que sustentavam sua percepção.

A Globo anuncia formalmente a saída de Chico um dia depois de William Bonner noticiar, pelo mesmo Jornal Nacional, que o Comitê de Direitos Humanos da ONU considerou que Lula teve seus direitos políticos violados e que a proibição de concorrer à presidência da República em 2018 foi "arbitrária".

Zapping - Cristina Padiglione

Cristina Padiglione, 50, é jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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