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Colo de Mãe

No Dia da Mulher, faço uma carta para minhas filhas fortes e potentes

Há pouco o que se comemorar neste 8 de março, mas não podemos nos dobrar

Garota passeia entre sapatos usados em protesto na Albânia contra violência feminina - Florigon Goga/Reuters
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São Paulo

Minhas queridas Luiza e Laura, é 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. O sol brilha enquanto uma guerra deixa centenas de desabrigados e refugiados. Uma guerra iniciada por homens e protagonizada por homens. No mundo todo, mulheres sofrem. Não apenas na disputa entre Rússia e Ucrânia.

É Dia Internacional da Mulher, o sol brilha e eu gostaria de lhes dizer que nossa condição feminina tem tudo para melhorar amanhã, mas isso não é verdade. Na Câmara dos Deputados (vejam bem a grafia da palavra) do Brasil, 15% das parlamentares são mulheres. Talvez por isso não se chame Câmara das Deputadas. No Senado brasileiro, 17% são mulheres. Perdemos até para o Afeganistão, onde há 27,9% de mulheres no parlamento.

A condição feminina não é fácil no Afeganistão, como tanto estudamos e nos chocamos durante a pandemia, por meio da história da ativista Malala, e com a retomada do poder pelo Talebã. Ainda assim, o país segue melhor colocado do que nós no ranking de representatividade feminina nos parlamentos, que contabiliza dados de mais de 180 países. Perdemos ainda para Cuba, México, Ucrânia e Paraguai.

É Dia Internacional da Mulher e ressoam em mim áudios sexistas de um deputado paulista, cujo salário é pago com nosso dinheiro, dizendo que as mulheres ucranianas são fáceis porque são pobres. Os áudios revelam não são o machismo do parlamentar, mas de boa parte de seus colegas de vida (não nos esqueçamos do deputado que apalpou a colega em sessão da Alesp e não foi punido como deveria).

Segundo ele, um de seus amigos vivencia com frequência uma espécie de turismo sexual no leste europeu em busca de "blonds", especialmente em locais mais pobres, onde, sem condições de viver bem, elas se entregam a homens deste tipo.

Não vejo, no horizonte atual, condições melhores para nós mulheres no curto prazo. A pandemia acentuou diferenças salariais e de empregabilidade entre homens e mulheres. O número mulheres fora do mercado de trabalho é muito maior que o dos homens. Retrocedemos mais de dez anos em apenas um, no que diz respeito ao emprego.

Somos as responsáveis pelos lares, pelos doentes, pelas crianças, pela aula que não foi dada na pandemia e, muitas vezes, a Covid entra nos lares por meio de companheiros que não respeitam a quarentena, colocando em risco a vida da mulher reclusa.

Somos as que fazem o trabalho de casa e ainda buscamos uma forma de sobreviver em meio a uma crise econômica sem precedentes, que vem empobrecendo a população e nos negando direitos básicos, como alimentação de qualidade, moradia, cultura, sonhos e esperanças.

Converso e convivo diariamente com mulheres que estão exaustas. E a exaustão leva à infelicidade. Muitas delas, assim como eu, têm filhos, e isso é o que as faz seguir em frente. A mim, que tenho vocês, não me resta apenas seguir em frente, mas ter certeza de que, por vocês, minhas filhas, eu e muitas delas construiremos dias melhores.

Há apenas o que lamentar? Não. Jamais. Há o que se comemorar também. Avançamos em direitos que antes nos eram negados. Podemos votar, podemos trabalhar, podemos nos divorciar, tomar pílulas anticoncepcionais, escolher ter filhos e não os tê-los, usar calças, viajar sozinhas, nos casarmos entre nós, mesmo que isso ainda choque muitos por aí.

Quando escolhi ser mãe, não imaginei que seria presenteada com mulheres lindas, fortes, companheiras e potentes. Mas, hoje, escolho de forma certeira, a cada dia, o caminho que vai libertá-las ainda mais. Luto para que sejam humanamente, femininamente e sexualmente livres.

Luto para que saibam respeitar o útero que receberam da mãe natureza, mas que não se dobrem apenas a ele. Que não percam sua feminilidade, a força, a doçura, a vontade de sonhar e seus encantos.

Em nome de diversas mulheres que mudaram o mundo, sigamos juntas, minhas filhas, mudando, primeiro, a nós mesmas e, com isso, reverberando amor, esperança e liberdade e possibilidade de um mundo novo a nossa volta.

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 42, é mãe de Luiza, 15, e Laura, 9. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é jornalista de economia na Folha. Opiniões, críticas e sugestões podem ser enviadas para o email colodemae@grupofolha.com.br.

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