Colo de Mãe

A maternidade é tão visceral que te faz doer

Ser mãe em tempo integral (e profissional, dona de casa e casada) é puxado

Mulher branca com celular na mão, ri enquanto escreve. À sua frente, um computador aberto. Ao lado, uma criança de cerca de dois anos segura o urso de pelúcia enquanto vê a mãe escrever

Eu sou mãe em tempo integral. E também trabalho fora. Nos dias atuais, com as definições de maternidade, eu não deveria usar este termo para falar de mim. Afinal, ele tem sido usado para definir as mães que não trabalham e ficam o tempo todo com os filhos.

Mas, como já falei muitas vezes aqui nesta coluna, nada me limita, e termos também não vão me limitar. Por isso, sinto-me autorizada a usá-lo para me referir a mim e à minha maternagem. Sou mãe em tempo integral e explico: embora eu trabalhe fora, não dá para tirar o “uniforme” de mãe quando entro na empresa. O contrário, na minha profissão, também não é possível. Não tiro o “avental” de jornalista quando chego em casa.

Ser mãe em período integral é puxado e muito tenso. Toma tempo. Pede nossa atenção. Não interessa se você fica em casa, se está  no trabalho, se foi ao médico ou se está na academia. E, sim, eu me compadeço das mães que estão o tempo todo em casa. Porque ser mãe em tempo realmente integral, ou seja, sem ter nem um minutinho para respirar fora das tarefas da maternidade, é difícil em qualquer lugar.

O fato é que ser mãe é uma atividade que exige dedicação total. Exige estar inteira, sempre pronta, ter as respostas na hora e tomar decisões mesmo quando você está sonolenta sem nem saber qual é o número do novo dia que está nascendo. Ser mãe é um trabalho integral, que exige, que te faz ficar alerta. Ser mãe é aprender diariamente a se reinventar. 

É ajudar a administrar antibiótico por telefone. É tentar explicar as raízes das desigualdades brasileiras por WhatsApp. Ser mãe é a maior chance que a vida te dá de ser inteira, fazer mil coisas ao mesmo tempo e se superar.

Cansa? Muito! Dá vontade de desistir e ficar em casa, sendo muito mãe, sem estar no mercado de trabalho? Dá. Mas não adianta o local para onde uma mãe vá. Ela sempre será uma mãe. E terá de ser inteira. Terá de ter disponibilidade integral.

A maternidade nos faz ter mais atenção e muito, muito mais resiliência para aguentar as constantes mudanças da sociedade. 

A maternidade é tão visceral que te faz doer não só por você ou pela situação de amigas e colegas próximas. A maternidade faz com que você se compadeça da dor de muitas mães que sofrem, como você, no mercado de trabalho ou sufocadas em suas casas, ou que sofrem porque perdem seus filhos em tiroteios de balas perdidas que são achadas nas costas de suas meninas. Sim, refiro-me a Ágatha, 8 anos, morta no Rio de Janeiro de uma forma tão violenta que não dá para não chorar.

Ser mãe em tempo integral (e profissional, dona de casa e casada) é puxado. Principalmente quando seus filhos ficam doentes. Principalmente quando o trabalho também precisa de você.

Ser mãe em tempo integral realmente é difícil. Ainda mais quando seu filho precisa de você para estudar e você tem que trabalhar. Mas não há outro caminho possível na maternidade do que ser mãe e viver por seu filho. Não há possibilidade que não seja estar entregue, no comando
de sua vida.

Agora

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 40, é mãe de Luiza, 12, e Laura, 7. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é editora-assistente de Grana do jornal Agora, empresa do Grupo Folha. Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie-o para o e-mail colodemae@grupofolha.com.br com nome completo e idade da criança, nome e celular do responsável.

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