Alexandre Orrico

BBB 21: Aceitem, não há BBB sem interferência

Pitacos de globais e pressão de patrocinadores sempre foram determinantes

Karol Conká leva as mãos ao rosto com cara de surpresa, atrás de uma bancada com latinhas de Coca
Karol Conká após vencer prova do líder no BBB 21 - Reprodução
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O Big Brother Brasil não é um experimento antropológico ou científico. É um programa de entretenimento.

Parece óbvio, mas entender a natureza do reality é fundamental para aceitar e compreender que sem interferência não existe programa, seja ela praticada por marcas ou mandachuvas da Rede Globo. O BBB21 movimenta, apenas em cotas de patrocínio, mais de meio bilhão, um valor colossal demais para que o programa não seja minimamente controlável.

A forma como Karol Conká venceu a prova do líder nesta quinta (11) levantou suspeitas nas redes sociais sobre uma possível manipulação da direção do programa para favorecer a cantora. É impossível saber ao certo se houve manipulação; acho que neste caso Karol teve sorte e o povo brasileiro, azar. Mas é fato que a Globo dispõe de muitas ferramentas, visíveis e invisíveis, para influenciar o andamento do programa.

O confessionário tem sido usado com frequência para conversas privadas e passagem de informação privilegiada aos participantes. A Globo confirmou ao menos um destes papos, quando Boninho falou com Projota sobre Lucas, que havia acabado de desistir do programa. O próprio Projota já havia recebido ao vivo informações alguns dias antes, desta vez de Tiago Leifert, que agradeceu o "enquadro" que o rapper deu em Lucas.

Na quarta (10) foi Karol quem disse que conversou com "gente importante do programa" e que recebeu dicas sobre seu comportamento na casa. A proteção dos famosos pode ter objetivos de curto e longo prazo (manter a audiência nesta edição e não desestimular a participação de celebridades em edições futuras).

Os pitacos não estão restritos a famosos e nem a esta edição: Felipe Prior, participante do BBB 20, disse que foi alertado pela produção após tentar fazer uma piada com zoofilia. Lá atrás, Dhomini (vencedor do BBB 3, que voltou a participar no BBB 13) disse que torturou um cachorro e há relatos de que teria sido orientado no confessionário a desmentir a história.

Isso sem falar no contragolpe, uma novidade surgida no ano passado e ativado apenas quando a produção do programa quer, que permite o emparedado indicar alguém ao mesmo paredão. No ano passado favoreceu Prior e neste ano apareceu novamente para aliviar a barra dos mocinhos Gilberto, Juliette e Sarah.

As intromissões desempenham um papel fundamental no programa, seja para forçar o encaixe de participantes em determinados papéis (toda edição precisa de um roteiro, com mocinhos, jornadas de herói ou anti-herói, pares românticos e vilões) ou para corrigir os rumos do jogo. Discussões, barracos e brigas são estimulados –mas racismo, assédio e outros crimes podem gerar muitas reações negativas na audiência e afetar o humor dos patrocinadores.

O público tem a palavra final. Mas o caminho até lá é cheio de interferências e injustiças, como sempre foi e como sempre vai ser.

Alexandre Orrico

Foi repórter e editor da seção de tecnologia da Folha entre 2009 e 2015. Colaborador da Folha, hoje trabalha para a ICFJ (International Center for Journalists) e edita o Núcleo Jornalismo.

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