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Idris Elba

Idris Elba Michael Tyrone Delaney - 05.abr.22/The New York Times

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The New York Times

Quando Idris Elba, 49, aceita um novo papel –quer de ficção, como o Stringer Bell de "A Escuta", quer histórico, como o Nelson Mandela de "Mandela - O Caminho para a Liberdade"—, ele em geral conta com alguma coisa real em que basear seu desempenho. Mas não foi esse o caso com seu mais recente personagem, um equidna rabugento chamado Knuckles.

Como explicou Elba em uma entrevista por vídeo na semana passada, "eu nunca fui apresentado a qualquer sujeito assim baixinho, recoberto de pelos e equipado com punhos gigantes. Lamento, mas é uma experiência que não tive. Pode ser que você tenha tido, mas não aconteceu, no meu caso".

Para toda uma geração de "gamers", Knuckles é mais conhecido como o rival de Sonic, o porco-espinho, o veloz astro de uma duradoura série de videogames da Sega.

Em 2020, um filme baseado nos jogos se tornou grande sucesso, com Ben Schwartz dando voz a Sonic e Jim Carrey interpretando seu grande rival humano, o Dr. Robotonik, em uma tradução muito elogiada dos games para o cinema, combinando animação e "live action".

Uma continuação, "Sonic 2 – O Filme", lançada pela Paramount há uma semana, traz de volta os personagens e os conflitos do original e acrescenta novos rostos conhecidos dos games, entre os quais Knuckles, um lutador poderoso com proporções físicas improváveis e uma grande birra contra o herói.

Elba, cujo longo currículo cinematográfico inclui filmes de ação ("Velozes e Furiosos: Hobbs e Shaw", "Esquadrão Suicida"), animação ("Zootopia: Essa Cidade É o Bicho") e um trabalho de animação baseado em captura de movimentos dos atores ("Cats", o musical de Andrew Lloyd Webber), disse que a oportunidade de interpretar Knuckles tinha sido "um grande presente".

Isso acontece em parte porque Elba é fã dedicado dos videogames e em parte porque ele (como o autor deste artigo) é pai de um menino de sete anos e estava com muita vontade de fazer filmes que os dois pudessem compartilhar como família.

Como explicou Elba, "você e eu nos lembramos daqueles nossos primeiros jogos, e agora estamos aqui. Nossos filhos podem dizer coisas como ‘vou assistir a Sonic 2 com o meu pai’, e isso é especial".

(Mesmo assim, quando mencionei que eu e meu filho também gostávamos de jogar videogame juntos, Elba alertou: "Ele gosta de Minecraft e Roblox? Cuidado. Você pode perder seu filho").

Elba falou mais sobre sua história como "gamer" e sobre onde foi procurar inspiração para Knuckles, o que inclui os pais do ator. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Você era "gamer", antes de fazer esse filme?
Era, 100%. Sempre carrego meu [Nintendo] Switch na mala. Quando comecei, eu tinha um Commodore 64 (um computador doméstico da década de 1980). Cara, eu estou nessa desde aquele tempo. E mais tarde, quando consegui dinheiro para comprar, arrematei um Sega Genesis. E tive praticamente todos os consoles que apareceram desde então. Sou um homem feito, agora, mas continuo a jogar FIFA e jogos de pilotagem de carros.

Também comecei com um Commodore 64. A reputação desse computador era a de que o software era incrivelmente fácil de piratear.
Engraçado você dizer isso. Lembro que era possível pegar uma fita cassete virgem e gravar um jogo nela. E depois você tinha de remover as abas de proteção da fita para que ninguém mais pudesse gravar por cima do jogo. (O tom de voz dele se torna exageradamente séria.) Mas é claro que todos os meus jogos foram adquiridos legalmente. Comprei todos.

Como é que lhe ofereceram o papel de Knuckles?
Eu já tinha feito trabalhos de voz em filmes de animação, e gosto de fazer trabalhos dirigidos a uma audiência mais jovem. Mas quando meu agente me telefonou para propor esse filme, não deixei nem que ele terminasse a sentença. Respondi que sim, absolutamente, na hora.

Você fez muitos trabalhos que o seu filho de sete anos só poderá assistir quando adulto. Era importante para você fazer alguma coisa que pudesse compartilhar com ele agora?
(Risos.) Há muitas coisas que fiz e que meu filho só poderá ver quando for adulto, e aí ele terá o direito de me julgar. Minha filha tem 20 anos, e ela vivia comigo quando eu fiz trabalhos anteriores como "Procurando Dory". Por isso, é uma sensação realmente boa que meu filho agora possa me ver fazer algo de que ele gosta, também.

O que você e o diretor Jeff Fowler discutiram com relação a Knuckles em sua primeira reunião de trabalho?
Nós experimentamos algumas vozes diferentes para tentar descobrir qual seria o som dele. Ele tem um jeito ameaçador (Elba flexiona a músculos dos braços exageradamente), e rosna. Eu queria usar uma voz fininha para ele, achei que poderia ser engraçado. Mas o pessoal não achou graça, e a ideia foi rejeitada imediatamente. (Risos.) Mas tentamos diferentes vozes, cadências, sotaques. Knuckles não costuma falar muito, mas, quando fala, ele é muito direto.

Você recentemente fez um western, "Vingança e Castigo". Um vilão como Rufus Buck ainda estava em sua cabeça quando você estava tentando descobrir como interpretar Knuckles?
Não "Vingança e Castigo", mas meu personagem no mundo da Marvel, nos filmes de Thor, Heimdall. Existe uma sensação de simetria entre essas duas vozes. Olha, tenho uma voz bem grave, e poderia simplesmente usar minha voz natural. Mas eu não queria, conscientemente, soar parecido demais com Heimdall. No entanto, é, pode ser que as vozes deles se pareçam bastante. (Risos.)

A sensação era a de que você tinha uma ideia muito específica sobre de onde veio Knuckles e de como você queria que a voz dele fosse. Você tem uma explicação para isso?
A primeira coisa que observamos foi que ele vem de um mundo antigo, ele é um guerreiro de sua tribo, e o inglês não é seu idioma de origem. Ele não tem senso de humor, diferentemente de Sonic. É um sujeitinho muito seco, muito direto, e ele usa o inglês só para dizer o que precisa, e segue em frente. Não tem tempo para perder com gentilezas. Usamos essa ideia como forma de desenvolver como seria a voz dele.

Você já encontrou em sua vida pessoas com foco muito intenso em seu objetivos mas que talvez precisem de alguma ajuda em situações pessoais, ou que talvez não sejam muito capazes de entender o sarcasmo?
Trabalho em um ramo no qual muitas instruções são transmitidas o tempo todo –faça isso, faça aquilo– e muitas vezes as pessoas eficientes são aquelas que adotam a atitude de, ei, vamos fazer o serviço de uma vez. Meus pais são do oeste da África –se mudaram de Freetown, na Serra Leoa, para Londres no começo da década de 1970. Por isso, o inglês não era o primeiro idioma, para eles, e a cultura era diferente –o senso de humor inglês é algo que muita gente não entende. Fui testemunha disso.

Você cresceu em Londres. A cultura e os costumes da cidade se tornaram mais orgânico para você do que para os seus pais?
Eu nasci lá, e por isso não era capaz de reconhecer essa situação até que cheguei a uma idade que me permitiu compreender que a cultura inglesa não era a deles. Lembro de ter exatamente esse sentimento. Minha mãe dizia coisas como, "lá em casa, na África, fazemos as coisas desse jeito". E eu nunca ousava dizer, mas sempre pensava comigo mesmo, que não estávamos na África –estávamos na Inglaterra. Foi esse o começo de minha compreensão daquele choque de culturas. Mas viajei à África algumas vezes, e me lembro de visitar a Serra Leoa e de reconhecer todas aquelas coisas culturais que tinha visto minha vida toda mas que não sabia de onde vinham. E lá estava, a origem dos meus pais. Foi fascinante.

Você prefere trabalhos só de voz, como Knuckles, a outros trabalhos anteriores que envolviam técnicas de captura de movimentos?
Não necessariamente. A captura de movimentos é uma arte e uma disciplina fascinante, e merece atenção. Mas, neste filme, não seria vantagem dar qualquer dos meus traços faciais a Knuckles. Não faria sentido.

Ou seja, você não saiu necessariamente insatisfeito de sua experiência em "Cats"?
Obrigado por saltar de ouriços para gatos. Percebi bem o que você fez. Do ponto de vista do desempenho, foi uma experiência incrível, ser um felino. É algo que experimentei, e que não preciso voltar a experimentar. Um item que tiquei em minha lista.

A Paramount foi franca e admitiu que gostaria de fazer ainda mais coisas com Knuckles, o que inclui outro filme "Sonic" e uma série de TV com o seu personagem. Isso é parte do que o atraiu ao papel?
Acabou por ser. Honestamente, quando consegui o papel eu nem fazia ideia de que isso poderia aparecer na conversa. Mas agora, a possibilidade de voltar a interpretar Knuckles e talvez participar de uma série centrada no mundo dele parece ótima.

Há uma outra franquia cinematográfica da qual as pessoas amariam vê-lo fazer parte, e estamos todos aguardando ansiosamente notícias a respeito. Isso continua a ser uma possibilidade para você?
(Silêncio.)

Você sabe do que estou falando? Aquele espião com a arma na mão?
Não sei bem o que você quer dizer.

Ele tem um codinome famoso, que envolve dígitos...
Dígitos? Knuckles! Knuckles tem dígitos [dedos]. Mas arma nenhuma.

Ou seja, posso afirmar que você não vai divulgar notícia alguma sobre James Bond em uma conversa sobre Sonic, o ouriço.
Nããããão. Não. Lamento desapontar.

Deixando isso de lado, seria uma surpresa para você se, dentro de muitos anos, os papéis pelos quais você será lembrado forem, por exemplo, Stringer Bell, Nelson Mandela e Knuckles?
Acho que, para qualquer ator, o sonho é poder interpretar papéis diferentes sem ser rotulado, e sinto que tive sorte por ter uma carreira como essa. Mas é interessante. Fui a um programa de rádio outro dia, e eles dispararam a falar (ele imita a voz estrondosa do locutor): "Ele interpretou Luther. Ele trabalhou em ‘Beasts of No Nation’. E agora ele é Knuckles". E eu pensei que eles poderiam ter acrescentado que interpretei uma foca em "Procurando Dory" e um búfalo em "Zootopia: Essa Cidade É o Bicho". E um gato. E agora eu sou Knuckles. Parece uma descrição mais apropriada. Ir de Nelson Mandela a Knuckles é tirar as coisas de proporção, um pouco.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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