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Sandra Bullock, Channing Tatum e Daniel Radcliffe, que estrelam o filme

Sandra Bullock, Channing Tatum e Daniel Radcliffe, que estrelam o filme "Lost City" Amy Harrity/The New York Times

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Kyle Buchanan
The New York Times

Eles interpretam potenciais amantes em "Lost City" (ou "Cidade Perdida", em português", mas na vida real Sandra Bullock e Channing Tatum têm uma conexão muito diferente: as filhas deles são amigas.

Em uma animada conversa via Zoom da qual também participou seu colega de elenco Daniel Radcliffe, Bullock e Tatum descreveram como a filha dela, Laila, e a filha dele, Everly, chegaram ao estágio de dormir na casa dos amigos. "Daniel, você vai passar por isso um dia", disse Bullock. "É uma grande vitória quando você consegue permitir que seu filho passe a noite na casa de outra pessoa sem ter medo de que ele vá morrer".

Em "Cidade Perdida" —que estreia nos cinemas americanos nesta sexta (25), mas no Brasil apenas em 22 de abril—​, Bullock interpreta uma romancista que escreve histórias de amor, Loretta Sage, e cuja vida funciona meio que em piloto automático até que um ricaço excêntrico (Radcliffe) a sequestra por acreditar que ela possa conduzi-lo a um tesouro secreto enterrado no meio de uma selva.

Alan (Tatum), o modelo que posa para as capas dos livros da escritora, organiza um implausível resgate, ajudado, às vezes, por um mercenário igualmente bonitão, mas muito mais competente (Brad Pitt, em uma participação especial). E quando Loretta e Alan tentam escapar juntos, surgem fagulhas entre eles, enquanto socos são trocados e sanguessugas do pântano removidas cuidadosamente do corpo nu do ator.

Mas o filme coloca ainda mais coisas em jogo para o futuro de Hollywood depois da pandemia: com a redução no número de espectadores que vão às salas de cinema, será que as pessoas continuarão dispostas a sair de casa para assistir a uma aventura cômica à moda antiga, na qual o único superpoder que os atores têm é seu carisma como grandes estelas?

O fato de que "Dog", que Tatum estrelou e codirigiu recentemente, tenha se transformado em sucesso nas salas de cinema ajuda, mas Hollywood estará de olho em "Cidade Perdida" e "Trem-Bala" (comédia de ação protagonizada por Brad Pitt na qual Bullock retribuiu o favor dele com uma participação especial) a fim de determinar se existe um caminho para os filmes dos grandes estúdios fora do Universo Cinematográfico Marvel.

A esperança é de que as audiências continuem ávidas por ver grandes astros de cinema sendo astros, e a química entre Bullock, Tatum e Radcliffe era evidente nas provocações entre eles durante a entrevista via Zoom. Em dado momento, quando Tatum foi interrompido pela aparição de um pastor holandês que parecia determinado a lamber seu rosto, Bullock revirou os olhos. "Ele está promovendo ‘Dog’", ela brincou. "Timing perfeito, Channing". Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Channing e Sandra, vocês se lembram do dia em que se conheceram?
Tatum:
Tento reprimir essa lembrança

Bullock: Foi um momento traumático.

O que aconteceu?
Bullock:
Nós nos conhecemos em um momento dramático, no escritório da diretora da pré-escola. Fomos chamados porque Everly e Laila estavam tentando dominar uma à outra, e cada um de nós estava torcendo para que a culpa fosse da filha do outro. Mas na verdade acho que nos conhecemos em uma festa de aniversário para mim. Ele veio com alguém.

Tatum: Isso mesmo, acho que foi na minha primeira semana em Hollywood. Você foi a primeira celebridade que conheci. Chris Huvane [um empresário de atores que morreu este ano], Deus o abençoe, me levou à festa. Acho que naquela época ele era DJ. Não era empresário ainda.

Bullock: Era, sim. Os Huvane todos tomaram o controle da minha festa. Eu não tinha poder algum sobre meu próprio aniversário. Reclamei que eu só tinha três amigos lá e os outros eu não sabia quem eram.

Às vezes isso resulta em uma boa festa.
Bullock:
Pode ser que sim, se a coisa estivesse a meu favor. Mas o que eu estava pensando era se alguém estava lá por minha causa.

Tatum: Eu me diverti demais. Eu era só um garoto da Flórida e àquela altura basicamente nem era ator. Era só modelo e consegui ir à festa dela!

Bullock: Você nunca foi só um modelo, Chan.

Channing, depois daquela primeira festa, você imaginou que um dia estaria nu em uma praia da República Dominicana enquanto Sandra Bullock procurava sanguessugas em seu corpo?
Tatum:
Olha, eu talvez pudesse acreditar que estaria nu na República Dominicana. Mas, sim, na hora de filmar uma cena daquelas você simplesmente sai dizendo ‘oi, pessoal, meu nome é Channing. Hoje vou trabalhar sem roupa. Podem apertar o botão de gravando’.

Bullock: E aí eu me ajoelho e começo a cutucar para ver se a coisa está funcionando. ‘Isso está funcionando? Vou apalpar para ver se está funcionando’.

Tatum: Estava funcionando. Com certeza estava funcionando.

Daniel, como foi interpretar o vilão contracenando com esses dois?
Radcliffe:
Foi uma imensa diversão. É estranho porque os dois trabalharam pesado nesse filme, com um cronograma de filmagem muito árduo fisicamente, e eu pude ficar me divertindo e comentar coisas como ‘nossa, pessoal, vocês parecem cansados’. Mas, Sandra, suas filhas também conviveram bastante durante a filmagem, não é?

Bullock: Foi o motivo de fazermos esse filme, para que as crianças pudessem brincar à vontade livres da Covid. Levamos até motos para lá. Tudo que importava era que Everly e Laila se divertissem o máximo que pudessem.

"Cidade Perdida" será um dos títulos com que Hollywood está contando para avaliar o futuro das salas de exibição. Sandra, você é uma das produtoras do filme. Isso traz alguma pressão adicional?
Bullock:
Tínhamos até o dia 9 de fevereiro para decidir se o filme sairia nos cinemas ou se haveria lançamento conjunto com o streaming, mas o que nós queremos é divertir, de qualquer que seja a maneira pela qual o filme venha a sair. Foi a mesma coisa durante a filmagem. Nós organizamos a quarentena, abrigamos e alimentamos 650 pessoas, 450 das quais dominicanas, que voluntariamente deixaram suas famílias por três meses a fim de trabalhar em segurança. A logística foi uma encrenca.

Tatum: E isso é dizer pouco.

Bullock: Mas fazemos tudo isso para criar um filme em que haja algum escapismo, em uma locação que merece ser vista por todos. Por isso, estamos dispostos a lançá-lo de qualquer maneira que as pessoas desejem vê-lo, mas nossa maior esperança é poder lançá-lo nos cinemas.

Vocês todos estrelaram em imensos sucessos de bilheteria, mas como é que decidem agora se vão fazer um projeto para streaming ou para os cinemas? A distinção importa para vocês?
Tatum:
As regras são tão amorfas no momento que não acho que a decisão caiba a nós. Eu acabo de estrear ‘Dog’ e não sabíamos se seria ou não exibido nos cinemas quando a Amazon adquiriu a MGM. E nossa reação foi a de que nós éramos um filme pequeno e na verdade não tínhamos controle sobre ele ser lançado direto em streaming. Mas eu estava confiante em que ‘Cidade Perdida’ merece ser lançado nos cinemas e sempre achei que Sandy protegeria isso.

Radcliffe: No caso específico deste filme, espero que as pessoas estejam em situação de querer ir ao cinema para curti-lo, porque é uma daquelas experiências feitas para ver com os amigos, uma grande ocasião comunitária. Em última análise, o que quero é fazer filmes, sem me importar demais com o lugar em que serão vistos. Muitas das coisas que faço são tão esquisitas que o que passa pela minha cabeça é ‘quem é que me deixe fazer isso, é com ele que vou trabalhar’.

Sandra, seu thriller "Bird Box" foi um dos primeiros grandes sucessos do streaming.
Bullock:
‘Bird Box’ originalmente era um projeto da Universal com produção de Scott Stuber e deveria ser feito para o cinema, mas não conseguimos a verba necessária para a produção. Scott tinha acabado de ser contratado pela Netflix, e ele me perguntou se eu aceitaria fazer o projeto lá, porque teríamos condições de fazer o filme exatamente como queríamos. Fiquei intrigada com essa possibilidade porque, como mulher, você está sempre limitada em suas escolhas, mas, quando fomos à Netflix, eles disseram que ‘nós lhes daremos qualquer coisa de que vocês precisem’.

Foram precisos três anos para que você estrelasse um novo projeto, o drama "Imperdoável", também para a Netflix.
Bullock:
Nenhum estúdio teria feito ‘Imperdoável’ e o colocado na tela grande em um momento como o que vivemos. Gosto de poder trabalhar em todos os campos e não quero me sentir limitada. O que me interessa é que as pessoas vejam histórias com as quais se identificam, seja em casa, seja no cinema.

O filme originalmente se chamava "A Cidade Perdida de D.". O que aconteceu ao D.?
Bullock:
Gosto de imaginar que a Paramount se tornou uma empresa não evoluída que imaginou que não seria bacana favorecer uma determinada letra. Por que dar toda a atenção ao D? Por que não a cidade perdida de V.? Nem todo mundo gosta do D. Muita gente admira o V, gosta demais dele.

Channing, você em breve vai trabalhar em "Pussy Island", com direção de Zoë Kravitz, e por isso talvez queira falar sobre essa questão da paridade de títulos. ["Pussy" é um termo indelicado para a genitália feminina.]
Radcliffe:
Melhor título de todos os tempos.

Tatum: É por isso que eu quis fazer o filme. Uma afirmação muito, muito ousada. O filme na verdade precisa ter esse nome, não é só uma brincadeira, e espero que possamos mantê-lo.

"Cidade Perdida" tem muitos elementos de comédia romântica, e esse é um gênero que não é muito visto no cinema hoje em dia. Por que vocês acham que a comédia romântica caiu em desfavor?
Bullock:
Porque elas foram diluídas e subestimadas demais –sempre que alguém usa termos como ‘filme para garotas’ ou ‘comédia romântica’, é com a intenção de menosprezar. Mas se você recua às décadas de 1930, 1940 e 1950, qualquer coisa com uma base de comédia e aventura, mas também um lado romântico não era marginalizada, ao contrário do que acontece agora. Acho que quando as coisas viraram em favor de filmes de ação e aventura muito masculinos, as mulheres se viram relegadas à posição de par decorativo ou donzela em perigo. E quando as comédias românticas surgiram, era sempre com a condição de ‘vamos deixar que as mulheres voltem a ter papéis centrais, mas sempre com a fórmula de que gostamos e sem nada muito ousado’.

Daniel, mesmo quando você estrelou em "Será Que?", uma comédia romântica de 2013, a sensação era a de que esse tipo de filme já estava se tornando raridade.
Radcliffe:
Falando de títulos, aliás, esse é um caso interessante, porque ‘Será Que?’ em dado momento tinha o título ‘The F Word’. No contexto o F era para ‘friend’ [amigo], mas os produtores ainda assim disseram que ‘não podemos deixar passar qualquer insinuação no título’, e por isso escolheram ‘Será Que?’, que poderia ser o título de qualquer filme, sobre qualquer coisa. ["F word", em inglês, é uma maneira delicada de abreviar um termo chulo começado pela letra F.]

O filme segue bastante a tradição de "Tudo Por Uma Esmeralda", uma aventura com elementos de comédia romântica. Mas "Tudo Por Uma Esmeralda" saiu há quase 40 anos. É surpreendente que Hollywood tenha demorado tanto tempo para voltar a esse filão.
Radcliffe:
‘Tudo Por Uma Esmeralda’ é obviamente um grande ponto de comparação, mas outra referência é o primeiro ‘A Múmia’, com Brendan Fraser e Rachel Weisz. É um dos meus filmes favoritos e parece um filme clássico de aventura no qual você torce pelos personagens e pelo relacionamento deles, mas é um universo um pouco exagerado, onde mesmo nos momentos mais sérios e perigosos as pessoas são engraçadas e trocam gracejos. É um filme delicioso.

Bullock: É realmente difícil fazer comédia e conseguir alguém que escreva uma comédia com três papéis principais é quase impossível. E depois disso acrescente ação e aventura, escopo e profundidade, e temos três tons diferentes rolando, e é preciso combiná-los; se não os combinássemos, o filme não funcionaria. O estúdio continuava dizendo que ‘não há um filme com que isso possa ser comparado’. E nós...

Tatum: E nós dizíamos que era aquele o ponto, exatamente. É um comentário bem de executivo sem noção, preocupado com o orçamento. ‘Qual é a comparação para esse filme?’

Bullock: Bem, faz sentido. E se eles investirem todo aquele dinheiro e o filme for uma completa bomba? Entendo a questão do ponto de vista financeiro, mas também sei quando é hora de apanhar o telefone e começar a berrar e reclamar. Tive de fazê-lo duas vezes.

Como é que Brad Pitt se envolveu em "Cidade Perdida"?
Tatum:
Brad trabalha no filme?

Bullock: Quem?

Sei que é uma participação sem crédito, mas ele está no trailer.
Bullock:
Oh, totalmente. Estamos violando a cláusula que diz quantos segundos podemos usar a imagem dele no trailer, porque o contrato dele era exatamente igual ao meu para ‘Trem-Bala’. Brad e eu trocamos favores como esses já há alguns anos. Janine Thompson, que cuida do meu cabelo, também cuida do cabelo de Brad, e ele falou com ela ao telefone e perguntou se eu podia fazer uma participação em ‘Trem-Bala’. E quando vimos aquele papel, eu disse a Janine, ‘você está pertinho do ouvido de Brad –basta se inclinar e murmurar que ele vai fazer ‘Cidade Perdida’. Foi o que ele fez.

Parece que ele está parodiando o cara musculoso e de longos cabelos que interpretou em filmes do passado.
Bullock:
Quando ele chegou, eu perguntei ‘o que aconteceu com o seu corpo?’ Ele respondeu que tinha feito musculação para o papel. E eu perguntei se aquilo era mesmo para o papel no meu filme, no qual ele trabalharia por três dias e meio. Ele nos deu até um dia a mais. Tive de ir ao trailer dele e pedir. ‘Sr. Pitt, o senhor só nos deu três dias de trabalho, de acordo com o contrato, mas se incomodaria em fazer um pouco mais?’

Channing, você em breve vai filmar o terceiro "Magic Mike".
Tatum:
Embarco para Londres amanhã e vai ser uma loucura. O roteiro é bem radical –depois dessa história, nunca mais será preciso fazer um filme sobre strippers. Vamos fazer uma história de peixe fora da água, uma espécie de ‘Uma Linda Mulher’ com gêneros invertidos e que termina com muita dança.

Daniel, você está fazendo um filme sobre Weird Al Yankovic, conhecido pelas paródias de canções pop. Como está indo o trabalho?
Radcliffe:
Estou muito entusiasmado e quero que as pessoas assistam. Gravei uma cena outro dia e Al veio falar comigo depois e me perguntou se aquilo era a coisa mais esquisita que já tive de fazer. Eu respondi que era uma das duas mais esquisitas; a outra foi Paul Dano montando em mim como se eu fosse um jet-ski em ‘Um Cadáver para Sobreviver’.

Tatum: Adoro a ideia de que ele [Al] esteja no set.

Radcliffe: Ele está lá todos os dias, e é um cara muito gentil.

Bullock: Conversei com ele uma vez em Nova York, depois de mentir para conseguir um emprego como bartender. Ele veio e pediu um daiquiri de mirtilo, e eu respondi ‘hein?’ Ele perguntou se eu queria que ele me dissesse como preparar o drinque, e aí percebeu que eu estava suando de nervoso. ‘Ela não faz a menor ideia do que está fazendo’, ele comentou. E eu não sabia. Ele foi adorável.

Radcliffe: Vou contar essa história para ele amanhã, 100%.

Chris Columbus, que dirigiu os dois primeiros filmes de Harry Potter, recentemente disse que espera dirigi-lo em uma adaptação da peça "Harry Potter and the Cursed Child". Tendo revisitado aquele mundo em um especial da HBO Max, como você se sente quanto a retornar para fazer um filme inteiro?
Radcliffe:
Essa não é a resposta que as pessoas querem ouvir, mas acho que só pude voltar àquele ambiente e curtir porque deixou de ser parte de minha vida cotidiana. Estou chegando a um ponto em que acho que consegui deixar Potter para trás sem grandes problemas, estou muito feliz com o lugar em que estou agora, e voltar seria uma mudança grande demais em minha vida. Não gosto de dizer ‘nunca’, mas os caras de ‘Star Wars’ tiveram 30 ou 40 anos de pausa antes de retornar. Para mim, foram só 10. Não é algo que eu esteja interessado em fazer, a esta altura.

Sandra, o que você pode revelar sobre "Trem-Bala?"
Bullock: Foi um papel pequeno, três ou quatro dias de trabalho, nada em comparação com o que o resto do elenco está fazendo. Eu simplesmente deslizo para dentro da cabeça de Brad e fico lá até o fim. Não vi o filme pronto ainda –acho que por enquanto quero só ser uma espectadora de cinema e curtir as coisas quando saem, ficar empolgada. Mal posso esperar pelo lançamento.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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