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Sebastian Stan e Lily James Ryan Pfluger/The New York Times

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Elisabeth Vincentelli
The New York Times

O ano de 1995 mal tinha começado e Pamela Anderson e seu novo marido, Tommy Lee, baterista da estridente banda de heavy metal Mötley Crüe, estavam no topo do mundo. Ela estrelava a série "S.O.S. Malibu", grande sucesso na televisão, e embora a banda de Lee já não fizesse tanto sucesso como na década de 1980, ele ainda podia continuar vivendo a vida louca de um astro do rock na mansão do casal em Malibu.

Não se pode culpá-los por quererem preservar para a posteridade alguns de seus momentos felizes –entre os quais, momentos muito sexuais e envolvendo muita nudez—, com a ajuda de uma câmera de vídeo Hi8. Mas em seguida, para grande insatisfação do casal, as imagens vazaram. E circularam muito.

Esses acontecimentos e suas consequências são dramatizados na minissérie "Pam & Tommy", de oito episódios, uma viagem louca e burlesca pelas casas noturnas, palácios e covis pornô da Hollywood da década de 1990, que estreou na semana passada no serviço de streaming Hulu —no Brasil, ela está disponível no Star+. Mas a série tinha mais em mente do que as traquinagens das celebridades ou uma reprodução fidelíssima das complicações e problemas absurdos do casal de protagonistas –embora isso também esteja presente.

A série usa o escândalo –que gerou fortunas, arruinou vidas e transformou os vídeos de sexo de celebridades em um artefato definitivo da era da internet– como um guia para um período de transição na cultura americana. Retrata um momento em que o "glam" deu lugar ao grunge, e em que o vídeo barato e os modems para conexão discada expandiram o alcance –e o grau de intrusão– do negócio de venda de imagens sexuais.

"Continuamos a viver no mundo que foi criado naquela época", disse D.V. DeVincentis ("The People v. O.J. Simpson: American Crime Story"), roteirista, produtor executivo e um dos showrunners da série. "Seria possível argumentar que tudo vem, se não daquele momento, pelo menos daquele período, e é algo que jamais conseguiremos colocar de volta na garrafa".

É difícil, hoje, compreender o escopo do caso, que terminou envolto em uma névoa indistinta de nostalgia pelos anos 1990.

"Obviamente, Pamela era uma parte muito importante do mundo de todos e aquele período todo da década de 1990 terminou um pouco romantizado em minha cabeça –um momento louco com as Spice Girls, os tops curtos que exibiam o umbigo", disse Lily James, 32, que interpreta Anderson em "Pam & Tommy". "Mas também falamos sobre a existência de uma outra história, que vai mais fundo, e terminou por ser meio ignorada pelas manchetes".

Seth Rogen, 39, um dos produtores executivos da série, interpreta Rand Gauthier, o eletricista que, na vida real, roubou, copiou e distribuiu o vídeo. Rogen recordou, em uma conversa por telefone, o momento em que primeiro descobriu a existência daquelas imagens. "Eu tinha 13 ou 14 anos quando aquilo apareceu e assim não estava ciente da história toda, de maneira alguma", ele disse. "Eu só sabia que aquilo circulou um pouco no meu grupo social –e era visto como uma coisa mítica, quase como ‘O Senhor dos Anéis’".

Mas como contar uma história assim com seu evidente sex-appeal de uma maneira que divirta, mas não agrave a exploração? (Anderson e Lee não participaram da produção.) Era uma proposição complicada, especialmente porque a verdade sobre o caso é tão fantasiosa que poderia servir para reforçar o mito.

Baseado estreitamente em um artigo investigativo minucioso escrito em 2014 por Amanda Chicago Lewis para a revista Rolling Stone, o programa decola com o equivalente a uma arrancada de carro esportivo. O homem que coloca a história em movimento –e que, nos primeiros episódios, parece servir como centro moral da série– é Gauthier, filho de um membro da pequena nobreza de Hollywood. (Seu pai, Dick Gautier, interpretou Robin Hood em "When Things Were Rotten", uma sitcom de Mel Brooks que foi cancelada quase instantaneamente em 1975. Rand mais tarde alterou a grafia de seu sobrenome.)

Na versão retratada por "Pam & Tommy", Gauthier estava trabalhando na reforma da casa de Lee e Anderson, mas foi demitido, e Lee (Sebastian Stan), sovina e mimado, decidiu não pagar o dinheiro que lhe devia. Credor de milhares de dólares, Gauthier voltou à casa para recolher suas ferramentas e, ao menos de acordo com seu depoimento para o artigo, se viu ameaçado por Lee com uma espingarda. (Lee e Anderson não quiseram comentar para o artigo da Rolling Stone.)

Furioso, ele montou um plano complicado para recuperar o dinheiro perdido: ele roubaria um cofre de dois metros de altura da casa de Lee sem saber o que havia dentro dele. Uma das cenas mais engraçadas da série mostra Gauthier tentando enganar as câmeras de segurança de Lee ao cobrir suas costas com uma capa de pelos brancos e entrando no terreno de quatro para se parecer com o cachorro gigante do baterista. "Porque sou eu que estou envolvido na série, as pessoas acham que isso foi inventado", disse Rogen.

Lee tinha guardado o precioso vídeo no cofre ao lado de suas armas e das joias de Anderson. O casal parecia ter esquecido que o vídeo existia quando, no começo de 1996, descobriu que imagens explícitas de suas atividades em um barco no Lago Mead estavam em circulação. Anderson e Lee, agora objetos de atenção maliciosa, só então perceberam que o vídeo tinha sido roubado; não demorou para que os dois, e o vídeo, se tornassem alvo de piadas nos programas noturnos de entrevistas.

Em uma trama digna de um filme dos irmãos Coen, o roubo ganhou dimensões cada vez mais absurdas, se expandindo aos quadrantes mais suspeitos da América do Norte. O elenco de personagens reais cresceu e passou a incluir motociclistas, apostadores, um agiota brutal chamado Butchie (Andrew Dice Clay) e escroques variados como o cúmplice de Gauthier, Milton Ingley (Nick Offerman), pornógrafo no vale de San Fernando.

Toques sacanas acentuam o clima sórdido da Los Angeles da metade da década de 1990, especialmente nos episódios iniciais. Em uma cena, Lee, famoso pelo tamanho de seu equipamento, discute seu amor por Anderson com uma versão de animação de seu pênis (com a voz de Jason Mantzoukas). É tão divertido quanto surreal, mas a cena não resultou de uma fantasia criativa dos roteiristas: diálogos como esses são parte frequente de "Tommyland", o livro de memórias que Lee publicou em 2004. (Um porta-voz da Hulu disse que os diálogos da série são originais.)

Muitas vezes, truques como esses são acrescentados digitalmente na pós-produção, disse Jason Collins, cuja empresa, Autonomous FX, projetou e produziu as diversas próteses usadas na série. Mas o membro falastrão de Lee era um fantoche manipulado por dois técnicos armados de controles remotos.

"Fazer as cenas assim permite que o diretor e os criadores sugiram linhas de diálogo para os operadores e para Sebastian", disse Collins, "e oferece uma chance de um improviso a mais e de trabalhar de modo mais solto na filmagem".

À medida que os episódios avançam, as simpatias dos espectadores começam a oscilar. A produtora de Rogen e Evan Goldberg, Point Grey, desenvolveu a série para a Hulu com a Annapurna Pictures, e ele sente empatia por Gauthier e seu papel ambíguo no acontecido.

"Acho que no começo as pessoas gostam dele porque é um cara simples, meio tonto, que está tentando fazer o melhor que pode –você não acha que ele está fazendo algo de tão ruim porque ele mesmo não acha que está fazendo algo de tão ruim", disse Rogen.

"Mas a verdade é que ele não pensou em ninguém mais além dele mesmo", acrescentou o ator. "E teve um imenso impacto negativo sobre a vida de outras pessoas".

Mesmo Lee pode ser adoravelmente sonso, demonstrando imenso afeto por Anderson e curtindo todos os clichês da vida de um astro do rock. Mas Anderson gradualmente emerge como o coração emocional e moral da história. E ela está sempre um passo à frente de todos que a cercam, especialmente de seu marido, ainda que seu instinto e sua inteligência sejam ignorados repetidamente.

"Ela na verdade é nosso personagem principal", disse Robert Siegel ("O Lutador"), criador da série e um de seus showrunners. "É ela que perde mais com a história, de um ponto de vista profissional e de percepção do público, mas certamente sai de nossa série como a melhor pessoa".

Para garantir isso, disse DeVincentis, a série trabalhou para sublinhar as maneiras imensamente divergentes pelas quais Anderson e Lee vivenciaram o acontecido. Lewis, a autora do artigo da Rolling Stone, trabalhou como consultora da série e havia duas mulheres entre os roteiristas. Alguns dos episódios posteriores da série foram dirigidos por mulheres, entre as quais Lake Bell, Gwyneth Horder-Payton e Hannah Fidell. (Craig Gillespie, o diretor de "Eu, Tonya", respondeu pela direção dos três primeiros episódios.)

"Aquelas duas pessoas tiveram exatamente a mesma experiência no filme, o filme que o mundo viu, mas ela terminou sendo escorraçada da televisão e foi chamada de vagabunda enquanto ele terminou salvo da decadência e reinventado com uma espécie de deus do sexo", disse DeVincentis. "A única diferença entre os dois era seu gênero".

Algumas críticas iniciais acusaram "Pam & Tommy" de tentar, ao mesmo tempo, resgatar Anderson da humilhação e explorar o sex-appeal do tema. A série conta a história de um vazamento de imagem não autorizado, mas foi realizada sem o consentimento de Anderson. O sexo e a nudez não são tratados com sensacionalismo, mas tampouco são disfarçados.

Mencionando fontes anônimas próximas a Anderson, múltiplos veículos noticiosos, entre os quais Entertainment Tonight, US Weekly e The Sun, noticiaram que ela não está satisfeita com a série. Os produtores disseram que tentaram: Anderson recusou múltiplos convites da produção para se envolver na série, disse um porta-voz da Hulu. (Anderson não respondeu a pedidos de comentários para este artigo.)

"Nós procuramos monitorar constantemente o equilíbrio entre revelar a maneira pela qual Pam foi vítima da situação, mas sem deixar de retratar aquelas pessoas que viviam a vida do rock and roll", disseram os showrunners em um email posterior. "Todos os envolvidos na série mantiveram um diálogo quase constante sobre a maneira pela qual nosso retrato da situação buscaria manter esse equilíbrio delicado".

James, atriz inglesa mais conhecida por papéis em "Downton Abbey", "Cinderela" e "Em Ritmo de Fuga", disse que suas tentativas de contatar Anderson foram infrutíferas. Siegel admitiu que James de certa forma não parecia uma escolha intuitiva para o papel, mas que ele desejava subverter as expectativas.

"Muita gente presumiu que fôssemos escalar quem quer que fosse a gostosa do momento", ele disse. "Mas uma das coisas que a série ensina é que Pam não é a pessoa que você acha que ela seja, e nós sempre a subestimamos. Talvez Lily esteja sendo julgada injustamente da mesma maneira que Pam foi".

James e Stan, 39, tiveram de desaparecer em seus personagens. Os dois falaram sobre ter de perder peso e de se exercitar constantemente para os papéis. Stan admitiu que se sentiu um pouco intimidado nas cenas em que tinha de tocar bateria, especialmente porque Lee sempre foi um músico altamente intenso. (Lee não foi convidado a se envolver na série, mas Stan conversou com ele e diz que o músico parecia "muito tocado" por os dois terem se aproximado. Lee se recusou a comentar para este artigo.)

"Você precisa lembrar que ele era um cara que tocava de cabeça para baixo em uma montanha russa", disse o ator, mencionando algo que acontecia rotineiramente nos shows da banda. "É preciso muita energia para lidar com isso".

E havia também as prolongadas sessões de maquiagem: James precisava de quatro horas diárias; Stan precisava de três horas, muitas das quais para a aplicação detalhada das tatuagens de Lee.

"Foi bem louco, porque Lily e eu não nos víamos sem o figurino do filme até o final da rodagem", ele disse. "Mesmo agora, quando nos vemos nos eventos de divulgação da série, a vontade é sempre perguntar, ‘mas esse é mesmo o seu cabelo?’"

Os dois protagonistas aproveitaram as horas passadas na maquiagem para assistir a incontáveis vídeos no YouTube e treinar seus sotaques. A tarefa de James era complicada por ter de adotar um sotaque diferente (Anderson nasceu no Canadá) enquanto usava uma prótese dentária.

No fim, aperfeiçoar as aparências importava menos do que captar os personagens. E no caso de James, o fato de que não pôde se encontrar com Anderson só serviu para motivá-la mais.

"Eu simplesmente me dediquei ainda mais à minha pesquisa –fiquei ainda mais determinada a fazer absolutamente o melhor que pudesse para interpretá-la autenticamente e fazer jus ao papel e à pessoa que ela é", disse James.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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