Janet Jackson Instagram/janetjackson

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The New York Times

Ao longo das duas décadas ou mais de sucesso que teve em sua carreira, Janet Jackson foi uma estrela pop espantosamente moderna –sempre disposta a correr riscos, dona de um estilo distintivo, dotada de uma presença e uma forma de apresentação vívidas e de uma compreensão inata da escala de trabalho requerida para produzir música que mova o mundo. Ela personificava autoridade e comando, quase não teve rivais em sua época e foi copiada pelas gerações seguintes.

Mas ao longo de "Janet Jackson", um documentário de quatro horas de duração que estreou no final de janeiro na Lifetime e A&E, os altos e baixos da carreira de Jackson são muitas vezes apresentados como danos ou ganhos colaterais. Seus irmãos ficaram famosos primeiro; Janet era a irmã caçula batalhadora que veio mais tarde. Quando seu irmão Michael, então o mais famoso astro pop do planeta, enfrentou suas primeiras acusações de conduta sexual imprópria, Jackson perdeu a oportunidade de um lucrativo contrato de patrocínio com a Coca-Cola. Quando um problema com seu figurino prejudicou sua apresentação no Super Bowl de 2004, foi a carreira dela que enfrentou problemas e não a de seu colaborador, Justin Timberlake, então um astro em ascensão.

É uma escolha curiosa para o primeiro documentário oficial sobre uma das cantoras mais influentes das últimas décadas. E o que a torna ainda mais curiosa é que Jackson mesmo é a produtora executiva do programa (com seu irmão e empresário, Randy). O documentário usa o acesso e a intimidade como isca –somos informados de que câmeras acompanharam Jackson por cinco anos para produzir o programa—, mas a proximidade serve mais para ocultar do que para revelar.

"Janet Jackson" é um documentário autorizado que causa a sensação de uma coleção de vídeos de notícias do YouTube. Jackson é entrevistada extensamente, mas ela oferece basicamente uma visão narrativa e não comenta a fundo sobre a história. Há momentos, especialmente os que ela aparece conversando com Randy, em que é Janet que faz perguntas, especialmente quando os dois voltam à casa em que a família vivia quando eles eram crianças, em Gary, Indiana.

Em quase todos os momentos emocionalmente importantes, o programa dispara um efeito sonoro eletrônico que parece ecoar inconscientemente a marca sonora dos intervalos do seriado "Law and Order" e imediatamente corta para os comerciais. Essa escolha torna melodramáticos os momentos densos e torna cômicos os momentos melodramáticos.

Em meio a todas essas elisões, "Janet Jackson" oferece imagens de arquivo fenomenais, a maioria das quais registradas pelo ex-marido de Jackson, René Elizondo Jr., que sempre carregava uma câmera durante o tempo em que eles estiveram juntos –como parceiros românticos e profissionais—, com a intenção de criar um grande arquivo de imagens da cantora. Vemos Jackson no estúdio com Jimmy Jam e Terry Lewis, em um conflito de vontades para definir o padrão sonoro durante a produção de "Janet Jackson’s Rhythm Nation 1814", o segundo disco que ela gravou com a dupla de produtores, logo depois de "Control", o álbum que definiu sua carreira.

Durante a gravação do single "Scream", em 1995, vemos Jackson e Michael conversando sobre a letra da canção, e Michael sugerindo que ela cante como em "Black Cat", um rock que a irmã tinha transformado em sucesso. Há imagens sonolentas, mas reveladoras de uma reunião com a Coca-Cola, quando Jackson recebe aquela oferta de patrocínio, e cenas de uma leitura do roteiro de "Sem Medo no Coração", filme de 1993 que Jackson estrelou com Tupac Shakur.

Quanto a momentos dramáticos, eles não existem, o documentário insiste. Tudo sempre esteve bem. Joe Jackson, o patriarca da família, é mostrado como um paradigma de trabalho árduo e disciplina e não de abuso, e sem ele o sucesso de seus filhos teria sido impossível, segundo o filme. Os ex-parceiros amorosos de Jackson —James DeBarge, Elizondo, Jermaine Dupri– são perdoados por quase todas as suas impropriedades.

O terceiro marido de Jackson, Wissam Al Mana (eles se separaram em 2017) não é mencionado, mas o filho deles, Eissa, é citado e mostrado em um vídeo curto. Quanto a apresentação no Super Bowl que tirou a carreira dela dos trilhos, bem, Jackson e Timberlake continuam a ser grandes amigos, ela diz.

Ou talvez haja alguma outra coisa acontecendo. "Ela sofre constantemente em sua vida pessoal, mas não envolve qualquer um de vocês", disse Wayne Scot Lucas, estilista de Jackson há muito tempo.

Isso parece incluir Benjamin Hirsch, o diretor do filme e o entrevistador que faz perguntas a Jackson ininterruptamente. Em diversos segmentos, Hirsch usa o áudio de sua pergunta a fim de oferecer um quadro mais completo sobre a resposta incompleta que recebe. Ele questiona Jackson de maneira gentil, mas direta, exibindo apenas uma sombra do desconforto natural que surge quando uma pessoa famosa e conhecida por defender ferozmente sua privacidade é forçada a avançar por um território desconfortável.

Muitas vezes, durante as entrevistas, Jackson é mostrada no assento traseiro de um veículo que a está transportado a um lugar cuja função é a de reavivar sua memória. O aspecto mais vulnerável dessas cenas é a proximidade física, uma aproximação física que substitui a proximidade psicológica que seria criada por sentimentos compartilhados.

Quando a câmera se volta para outras pessoas, especialmente os colaboradores de Jackson nos bastidores, como Lucas e a dançarina Tina Landon, emergem pequenos vislumbres de clareza. E uma apreciação mais plena do valor artístico de Jackson vem de Jam e Lewis (que também servem como supervisores musicais do documentário) e de Paula Abdul, que foi coreógrafa de Jackson. Muitos outros superastros oferecem depoimentos —Whoopi Goldberg, Mariah Carey, Samuel Jackson, Barry Bonds (!), Missy Elliott—, mas se limitam a repetir platitudes elogiosas, o que representa a perda de uma oportunidade colossal.

Seria ranzinza demais reclamar sobre as coisas que o documentário não cobre, mas se considerarmos que documentários oficiais tendem a ser hagiografias, há perigosamente pouca análise ou apreciação da música e dos vídeos de Jackson; o que ouvimos são apenas afirmações de o quanto eles são excelentes.

A única exceção é Questlove, que fala sobre ter proposto Jackson para o Hall da Fama do Rock. A vida de Jackson resultou em muitos traumas, mas o filme os retrata de maneira velada e não exalta suficientemente os triunfos da cantora. Além disso, a edição é entrecortada e a iluminação muitas vezes é péssima –um tratamento em estilo tabloide para uma artista que merece o luxo.

Mas esse lado escuro vem de dentro da casa. Mesmo no auge de sua fama pop, Jackson muitas vezes parecia uma estrela relutante e anos de escândalos públicos, que a macularam mesmo por trás de todas as suas proteções, aparentemente a levaram a não fazer muito mais do que dar de ombros e voltar às sombras.

Nesse sentido, o documentário é um sucesso. E às vezes a reticência é mostrada do modo mais literal. Quando a mãe de Jackson é perguntada sobre a morte de Michael, ela reluta por alguns instantes em responder, e a voz de alguém que não aparece na câmera (aparentemente Jackson) pergunta se a entrevista é um peso grande demais para ela. A mãe de Jackson indica que sim, e a conversa acaba. E o momento em que Jackson fala da morte de seu pai –"tive a oportunidade de agradecer a ele, graças a Deus"— é um dos raros em que ela se deixa dominar pela emoção. Depois de um ligeiro tremor, no entanto, ela volta a erguer sua muralha. "OK, Ben, isso basta". Basta?

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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