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'Only Murders in the Building': Amy Ryan fala sobre final surpreendente da série

Atriz aborda suas inspirações para a personagem e sobre aprender a tocar fagote (mais ou menos)

Steve Martin em cena da série "Only Murders in the Building" com Amy Ryan
Steve Martin em cena da série "Only Murders in the Building" com Amy Ryan - Divulgação
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Sarah Bahr
The New York Times

ALERTA SPOILER: A entrevista abaixo tem grandes spoilers sobre o final da primeira temporada de "Only Murders in the Building".

"Nunca confie em uma fagotista", disse Amy Ryan, rindo. Ela sabe bem do que está falando. Ryan interpretou uma fagotista na primeira temporada da comédia de mistério "Only Murders in the Building", cujo episódio final está disponível no Brasil, na plataforma Star+.

E a fagotista em questão, como o episódio mostrou, era a maníaca por trás do homicídio que serve de tema central à história na primeira temporada da série. (O programa voltará para uma segunda temporada.)

Depois de numerosas reviravoltas e pistas falsas —em determinado momento, o suspeito do crime é o cantor Sting— , Jan é apanhada depois que Oliver Putnam (Martin Short), um produtor fracassado na Broadway, descobre que o que ele achava ser um brinquedo sexual encontrado no apartamento da vítima, Tim Kono, é na verdade... um limpador de fagote.

O detalhe revela que Jan, vizinha de Kono, tinha sido amante da vítima. Mas ela não quer sair de cena sem antes derrubar o seu novo amor, o ato decadente Charles Haden-Savage (Steve Martin), usando para isso um lenço embebido em veneno.

As coisas felizmente não acabam mal para Charles, que é encontrado por Oliver e pela jovem parceira deles em um podcasts sobre crimes, Mabel (Selena Gomez). Os três chegam à sala das caldeiras do edifício (Charles transportado em um carrinho de bebê) em tempo para impedir que Jan mate todos os moradores por meio de um gás venenoso. E depois disso eles chamam os serviços de emergência para socorrer Charles.

O papel de Ryan como a astuciosa vizinha assassina é uma grande virada com relação à personagem pela qual ela talvez seja mais conhecida, Holly Flax, uma gerente de recursos humanos meio nerd em "The Office".

Mas a atriz já interpretou uma boa cota de garotas duronas no passado, entre as quais a policial Beadie Russel, de Baltimore, na série "The Wire", e uma mãe displicente no filme "Medo da Verdade", papel que lhe valeu uma indicação ao Oscar.

Ela também tem uma carreira notável na Broadway, com indicações ao Tony por seu trabalho em uma montagem de "Tio Vânia", em 2000, e em uma remontagem de "Um Bonde Chamado Desejo", em 2005.

Em uma conversa recente por telefone, de sua casa em Nova York, ela falou sobre as inspirações para sua personagem em "Only Murders in the Building", sobre aprender (mais ou menos) a tocar fagote, e sobre como é trabalhar com Martin e Short. Abaixo, trechos editados da nossa conversa.

Você sabia antes de aceitar o papel que Jan seria a assassina? Ou pelo menos uma das assassinas?
Sim. Antes de fechar o contrato, John Hoffman (um dos criadores da série) me descreveu em linhas gerais como seria a história –o roteiro completo ainda não estava pronto– e revelou que a assassina era eu.

Você acreditava que Jan seria capaz de matar?
Encontrei um artigo no The New York Times sobre uma mulher –nova-iorquina– que começou como escritora de humor e depois se tornou maníaca por conspirações, uma dessas pessoas do QAnon. No caso dela, as coisas foram mudando lentamente, a realidade dela foi se distorcendo. E pensei comigo mesma que "essa podia ser Jan".

Morando sozinha no Upper West Side, perdendo os amigos um a um. Não que eu esteja insinuando que as pessoas do QAnon sejam assassinas, mas elas têm problemas para lidar com a realidade – achei que essa poderia ser a porta de entrada de Jan para esse processo.

Kono foi sua primeira vítima?
Não, com certeza ela já tinha assassinado outras pessoas. Na cena final com Steve, quando ele está no chão e ela reconhece todos os sinais –"oh, está vendo, agora você não consegue mais falar direito, sim, estamos a caminho". Não acho que Tim Kono tenha sido a primeira vez dela. (Risos.)

Jan é psicopata?
Conheço uma pessoa que cometeu um assassinato —não é alguém de quem eu seja próxima– e, no caso dela, foi algo que aconteceu e a fez perder o controle. Não sei exatamente o que faz com que uma pessoa chegue mais, mais e mais perto do ato. E no caso de que estou falando, foi algo que aconteceu uma única vez, ou seja, como definir uma pessoa que o faça múltiplas vezes? Acho que Jan é psicopata, sim.

Ela ama Charles de verdade? Ou é tudo fingimento?
Ela sabe que está mentindo quando conta a ele que é a primeira fagotista da orquestra, e que tem uma apresentação importante naquela noite, mas, quando diz isso, ela acredita no que está dizendo. E acredito que, naquele momento, ela ame Charles. Ama, sim.

O fato de que ela coloca uma almofada sob a cabeça dele depois de envenená-lo é perversamente romântico.
Sim. (Risos.) Charles é provavelmente a pessoal especial, no grupo das vítimas dela. Foi provavelmente o primeiro que retribuiu o amor dela.

Você tem uma habilidade notável na manipulação de suas expressões faciais –franzir ligeiramente os olhos, tensionar os maxilares. Você treina se olhando no espelho?
(Risos.) Não. O fato é que nunca fiz nada para alterar meu rosto –nunca injetei coisa alguma. Quando era criança, eu costumava me olhar no espelho e praticar, sonhando que um dia poderia me tornar atriz. Mas agora, não, não pratico.

Você curtiu aquele figurino clássico, todo preto, que usou na cena final de confronto?
Meu Deus, amei. Ganhei aquela roupa de presente da produção, quando terminamos a gravação. Não sei se existe algum lugar em que eu possa usá-la, agora –talvez só em casa. As pessoas poderiam se assustar. Amo as roupas que eles escolheram para Jan.

Encontramos um monte de ombros com corte muito feminino –roupas com ombros bufantes. Quando gravei a série, de janeiro a abril do ano passado, eu vinha de um período em que usava agasalhos de ginástica o dia todo, e pude usar aquelas roupas. Foi uma delícia.

Você se sente confortável lidando com armas? (A entrevista foi realizada antes do acidente no set de filmagem do filme "Rust", com Alec Baldwin.)
Tive que dar muitos tiros em "Um Espião e Meio" (comédia de ação de 2016), e não foi divertido. Mesmo armas falsas, que disparam balas de festim –o recuo, a vibração, e você passa seis horas por dia atirando. Não gosto disso. Não gosto de armas.

A violência de colocar a arma na boca de Tim –foi algo horrível de fazer. Era só fingimento, mas ainda assim é um gesto muito violento, e eu só queria acabar a cena rápido. Não visto completamente a personagem, nos momentos violentos e repletos de ódio. Sou só uma atriz que se esforça para não puxar demais a gravata dele, e para não lascar um dente do colega ao colocar a arma em sua boca.

Você aprendeu a tocar fagote?
Não havia tempo, mas trabalhei com uma instrumentista maravilhosa, Jackie Henderson. Ela gravou algumas das peças que Jan toca na série, e eu estudava os vídeos de Jackie –as pausas para respirar, o movimento de seus dedos nas chaves. Eu movia os dedos nas chaves, acompanhando o vídeo, e, quando chegou agora de gravar, eu o fazia no ritmo, por exemplo movendo os dedos na ordem 3-2-1-2-2-3-3-2-2-1. Era só imitação.

Tenho certeza de que os fagotistas que assistem à série se sentiram representados.
Estou assistindo a "Fleabag", e o personagem do sobrinho. "Meu Deus, um fagote! Ele toca fagote, nossa!" Fiquei empolgada.

Você acompanha histórias sobre crimes reais?
Não sou fã de histórias de crimes reais –não tenho paciência para essas coisas. Não gosto de resolver enigmas. Quero saber a resposta imediatamente.

Você tem histórias divertidas sobre trabalhar com Martin e Short?
Conheço todos os filmes de Steve Martin. Ouvia aos discos de comédia dele quando era menina. Minha ideia de comédia surgiu vendo o que ele fazia e pensando que "eu deveria tentar fazer o mesmo". E assim, havia momentos em que eu estava no set e não conseguia ignorar as lembranças dos meus 12 anos.

É estranho – como é que você faz para estar lá, presente, e na companhia de um ator que por acaso se chama Steve Martin, e ignorar que foi ele que me inspirou quando eu era criança? Mas não posso ficar lá, idolatrando. É bem difícil.

O mesmo vale para Martin Short. Sei que o melhor é ficar quieta –deixar que eles façam a coisa deles, sem interferir, sem tentar entrar na brincadeira, fora do set. A conversa entre eles é sempre tão brilhante, e eles estão sempre escrevendo, trabalhando. Você está lá, e aquelas pérolas todas são largadas no estúdio. É impressionante como os cérebros deles funcionam rápido.

Existe alguma chance de você voltar para a temporada dois?
Talvez Jan volte, não sei –alguém vai levar um bolo para ela na prisão, quem sabe. Jan pode dividir a cela com Selena, algo assim. Ou enlouquecer de vez.

É claro que ela vai encontrar uma maneira de recuperar o fagote, enlouquecer todos os outros prisioneiros.
Isso seria maravilhoso.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci. 

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