A atriz Camille Cottin em Cannes, França Tania Franco Klein - 12.jul.2021/NYT

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Nicole Sperling
The New York Times

Em algum momento durante a pandemia, talvez entre a estreia de “Ted Lasso”, em agosto de 2020, e a de “Bridgerton”, em dezembro, você talvez tenha encontrado por acaso a série francesa “Call My Agent!”, em francês, "Dix Pour Cent”, na Netflix.

Série que zomba doce, mas absurdamente da indústria mundial do entretenimento, tal como vista pela lente de uma agência de talentos parisiense cujos agentes são quase todos sinceramente apaixonados pelo cinema, e vivem para satisfazer as exigências constantes de seus clientes.

Se esse é o caso, você deve ter sido uma das milhões de pessoas que descobriram Camille Cottin, 42, a atriz francesa que interpreta Andrea Martel, a batalhadora executiva de olhos verdes e penetrantes que tenta manter a agência à tona enquanto sua vida pessoal desmorona ao seu redor.

A série foi uma das poucas alegrias da pandemia, e ajudou a convencer os espectadores dos Estados Unidos a experimentar mais conteúdo internacional, como “Lupin” e “La Casa de Papel”, superando a barreira de dois centímetros de altura (as legendas) a que o cineasta sul-coreano Bong Joon Ho se referiu em seu discurso de agradecimento pelo Globo de Ouro que conquistou por “Parasita” em 2020.

O sucesso de “Call My Agent!” gerou séries derivadas em Quebec, no Reino Unido e na Turquia. E agora há rumores sobre um filme inspirado na série, que veria Andrea Martel a caminho de Nova York.

Mas Cottin, cuja formação inclui teatro e sketches de humor, não estava ciente do fenômeno em que “Call My Agent!” havia se transformado nos Estados Unidos, durante o período que passou em lockdown em Paris, com seu marido e os dois filhos pequenos do casal. Ela, na verdade, teve uma pandemia tão sofrida quanto a de todos nós.

“Fiquei preocupada demais durante a pandemia, e um pouco paralisada”, disse Cottin, em inglês, durante uma recente conversa por vídeo. “Eu queria fazer alguma coisa criativa, mas não conseguia pensar em nada. E também tinha a sensação de que nunca mais voltaria a trabalhar. Fiquei assustada”.

“Agora você me diz que, durante a pandemia, todo mundo estava assistindo a ‘Call My Agent!’. E eu lá, isolada, imaginando que tinha sido enterrada viva”, ela acrescentou, com um riso sinistro.

Cottin estava falando de seu carro, a caminho de uma visita ao estilista para experimentar a roupa que usaria no Festival de Cinema de Cannes. Não, fãs de “Call My Agent!”, a sessão não incluía um complicado vestido decorado com penas como o que Juliette Binoche usa, desajeitadamente, no episódio final da temporada dois da série.

O novo filme de Cottin, “Stillwater”, no qual ela interpreta Virginie, uma atriz em atividade, mãe solteira, que serve de guia a Matt Damon, um pai arrependido, durante uma viagem mal planejada a Marselha, tinha acabado de estrear, e as críticas eram quase todas positivas. Manohla Dargis definiu o desempenho dela como “eletrizante”, no The New York Times, e a revista Vanity Fair descreveu o trabalho de Cottin como “brilhante e cativante”.

Mas aquele momento no carro nada tinha de glamoroso. A filha de Cottin, de seis anos, estava dormindo, deitada no colo da mãe. E quando o carro parou, vi a versão multitarefas da atriz, carregando com um braço a filha semiadormecida, como uma almofada de tafetá cor de rosa, e continuando a conversa por vídeo com o celular na outra mão, sob um céu parisiense de um azul intenso.

Ela fez uma pausa breve na conversa para colocar a filha na cama, e depois retomou a ligação, sentada no chão do banheiro, a pedido da menina, que não queria que ela a deixasse sozinha. Então seu marido, Benjamin, chegou. “O pai está em casa!”, ela disse. “Virginie teria de lidar com uma situação como essa sozinha”.

Depois de um pequeno papel em “Aliados”, com Brad Pitt, em 2016, “Stillwater” representa a maior oportunidade de Cottin diante das audiências americanas. E pode ser o papel que permitirá que ela oficialmente se transforme de uma atriz francesa obscura em sensação internacional.

Dentro de algumas semanas, ela vai trabalhar com Lady Gaga e Adam Driver, em “House of Gucci”, de Ridley Scott, interpretando Paola Franchi, a namorada de Maurizio Gucci (Driver). E deve retomar seu papel como Hélène, uma integrante de alta patente da organização de assassinos The Twelve, na série “Killing Eve”, da BBC.

A comunidade internacional já tinha despertado para os encantos de Cottin antes que os americanos todos terminassem presos em casa. Quando “Call My Agent!” começou a ser exibida na TV britânica, Cottin descobriu que a série desenvolveu uma audiência fiel do outro lado do Canal da Mancha. Em 2019, ela compareceu a um festival de diretores de elenco em Kilkenny, na Irlanda, acompanhada de sua agente francesa. E de repente se tornou o centro das atenções.

“As pessoas pediam para tirar selfies comigo, e eu fiquei espantada, porque entre elas estava o diretor de elenco de James Bond”, ela disse, rindo. Aquela viagem, e uma visita a Londres em seguida, a levaram a ser escalada para “House of Gucci” e a uma reunião com o produtor de “Killing Eve”.

Mas “Call My Agent!” não influenciou a escolha de Cottin por Tom McCarthy, o diretor de “Stillwater”. O cineasta ainda não tinha visto a série quando ele e seus dois parceiros na criação do roteiro, Thomas Bidegain e Noé Debré, decidiram contratar a atriz, com base em uma audição que os espantou.

“É impossível desviar o olhar dela quando ela está na tela”, disse o diretor em uma entrevista, da França. “Ela é meio dispersa, parece estar em toda parte. É engraçada, é autodepreciativa, é simpática. E em minha opinião, depois de passar 18 meses vendo seu trabalho na sala de edição, cada momento em que ela está na tela parece um momento realmente vivido”.

Para Cottin, Virginie, uma mulher aberta e solidária, sempre à procura de algo para consertar (exatamente como o caipira de Oklahoma interpretado por Damon), é quase uma duplicata dela. “Virginie é a personagem mais próxima de mim que já interpretei”, ela disse, embora esse tenha sido um dos poucos papéis que interpretou em inglês. “Temos a mesma energia. E até agora, costumavam me escalar para fazer mulheres mais tensas. Mais no controle”.

Há uma acessibilidade cativante em Cottin, que fica clara já no momento em que ela se apresenta sem exibir qualquer traço da aparência gélida que parece definir sua personagem em “Call My Agent!”. Ela não se leva muito a sério –McCarthy a define como “brincalhona”– e seu potencial para a comédia é imediatamente perceptível.

É um talento que Cottin exibiu em seu papel mais conhecido na França, como personagem principal da série “Connasse”, um título que quer dizer “cadela” em seu idioma natal. As peripécias da personagem incluem escalar as muralhas do Palácio de Kensington para tentar conhecer o príncipe Harry.

Um dos produtores de “Call My Agent!”, Dominique Besnehard, descreve Cottin como “bonita, mordaz e ousada”, e diz que, no papel de Andrea, ela “é muito boa em retratar a transição da dureza para a fragilidade”. Para Cottin, é uma personagem que ela tanto admira quanto compreende, mas que ainda assim parece um pouco distante de sua personalidade.

“Sou muito menos segura do que Andrea; ela é mais confiante, mais estratégica, e é boa em tomar decisões”, disse a atriz. “Se eu tenho de fazer uma escolha, sempre demoro, demoro demais. E peço a opinião de todo mundo a respeito”.

Cottin decididamente não se sente incerta quanto à sua carreira, mas, como atriz na casa dos 40 anos, está ciente que o ponto alto de que está desfrutando agora talvez não sirva como indicação do que verá no futuro.

“Talvez, se eu ainda estivesse na casa dos 20 anos, eu começasse a imaginar que tenho chance de ganhar um Oscar”, ela disse, rindo, em um sotaque americano zombeteiro. “Mas a trajetória nunca é vertical. Você dá um passo, acha que está subindo e, de repente, lá vem o tombo."

"Nada acontece em linha reta. Vejo esses projetos como viagens, grandes viagens. Não posso dizer que, após fazer tal coisa, sei o que virá a seguir, porque, na verdade, não sei. E não há garantia de que essas coisas venham a acontecer de novo”.

Besnehard disse que ela talvez possa ter uma carreira como a de Binoche, fazendo filmes na França e nos Estados Unidos. “Mas espero que o povo americano não a monopolize”, ele acrescentou.
McCarthy vê uma trajetória muito mais clara.

“Prevejo coisas excelentes para Cami, e não só por causa de nosso filme, no qual acho que ela está sensacional, mas porque chegou a sua hora”, ele disse. “Dá para sentir o momento em que uma pessoa conquistou o direito a um momento em sua carreira, o pôs em uso no trabalho, e está pronta para tomar o controle de suas oportunidades”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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