O autor Stephen King NYT

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Erik Piepenburg

Se você mergulhar em um dos romances de Stephen King, 73, ou em uma das adaptações cinematográficas de suas obras, as alegrias da vida logo se tornam terrores. Carros se tornam armadilhas malévolas. Bailes de formatura são pesadelos. Cachorros? Máquinas de matar.

Mas se você perguntar a Pablo Larraín, diretor de “A História de Lisey”, nova minissérie de terror baseada em um romance de 2006, no mundo de King, o terror é alegria. Larraín descobriu isso em uma visita ao escritor em sua casa, no Maine.

“Ele me convidou para ficar na casa de hóspedes e disse que eu era o único convidado, mas que isso não queria dizer que eu estivesse sozinho, e me deixou lá”, disse o diretor chileno, mais conhecido pelo filme “Jackie”. “Mal consegui dormir”.

“Na manhã seguinte, ele chegou trazendo ovos e ficou zombando de mim”, acrescentou Larraín. King sabia que o tinha feito passar medo por nada.

Sozinho, mas não: é um tema recorrente na ampla obra do escritor, e retorna, para diversos personagens, em camadas diferentes de espaço e tempo, em “A História de Lisey”, que estreou no último dia 5 ) na Apple TV+.

Julianne Moore interpreta Lisey Landon, viúva de Scott Landon, um famoso romancista (interpretado por Clive Owen) cujos traumas de infância o levam a criar uma conexão com um mundo transdimensional chamado Lua de Boo’ya.

Como a série retrata vividamente, a Lua de Boo’ya é um lugar de beleza tranquila, uma espécie de terra das maravilhas pré-rafaelita. Mas também é um terreno ameaçador onde figuras embuçadas se sentam silenciosamente em um anfiteatro gigantesco aguardando a resolução de traumas terrenos.

Nos últimos anos, diversas obras de King receberam adaptações suntuosas na TV, entre as quais “The Outsider”, “Under the Dome” e “The Mist”. Mas “A História de Lisey” é diferente. King declarou no passado que o romance é um de seus favoritos e que gostaria de adaptá-lo pessoalmente.

E foi o que fez. King escreveu a série inteira, algo que não fazia para a adaptação televisiva de uma de suas obras desde que roteirizou a versão televisiva de “O Iluminado”, para a rede ABC, em 1997.

“Segurei esse livro como você segura alguma coisa que realmente ama”, disse King em uma conversa por telefone no mês passado.

Como em muitas histórias do escritor, um tema central de “A História de Lisey” é a doença mental. O território oscilante entre realidade e paranoia é retratado com delicadeza por Joan Allen em seu papel como Amanda, a irmã de Lisey, que está sendo tratada por catatonia e automutilação em uma instituição psiquiátrica; seus problemas na verdade ocultam segredos assombrosos.

Jennifer Jason Leigh interpreta a terceira irmã, Darla, que cuida de todos. Do outro lado há Jim Dooley (Dana DeHaan), "stalker" perturbado cuja busca obsessiva pela obra inédita de Scott tem consequências violentas para a família.

Falando do Maine, King comentou as muitas camadas de histórias em “A História de Lisey” sobre as responsabilidades dos criadores de obras de terror e sobre a mente humana, que talvez seja aquilo que gera o maior pavor. Abaixo alguns trechos da conversa.

Entre todos os seus romances, por que você escolheu adaptar “A História de Lisey” pessoalmente?
Eu segurei o livro, mas sem a expectativa de que faria alguma coisa com ele. No entanto, adoro essa história. Normalmente, despacho meus livros para o mundo como alguém manda um filho para a universidade.

Você tem a esperança de que eles se saiam bem, mas prefere não interferir. Se a adaptação ficou ótima, você pode dizer que “foi baseado no meu material”. Se não, você pode dizer que foram os outros que estragaram tudo. Se é para participar, é preciso participar plenamente. E isso é um compromisso pesado, quando você chega aos 70 anos.

Por que uma série de TV?
É uma forma mais próxima à do romance. “A História de Lisey” é um livro longo. Os romances que parecem funcionar melhor como filmes são os mais curtos e mais simples. Não acho que “A História de Lisey” funcionaria como filme, porque tem camadas demais.

Também amo a ideia de poder espalhar um pouco a história. Mas é preciso cuidado porque a série terá oito horas de duração e você precisa prender a atenção da audiência por todo esse tempo.

Determinar o que fica dentro e fora dos limites, ao retratar uma doença mental, pode ser complicado, especialmente no gênero terror onde a insanidade determina quase tudo. Como garantir que isso seja feito de modo sensível?
É importante ver personagens multidimensionais que não pareçam figurinhas de cartolina --e não zombar de uma pessoa que tenha uma doença mental ou dizer que é tudo culpa dela. Não acho que seja. É preciso ver o personagem que sofre de uma doença mental como alguém que não é culpado. Mas eles ainda assim precisam ser tratados ou levados a um lugar no qual não possam ferir outras pessoas.

Em que medida o personagem de Dana se baseia em “stalkers” reais famosos com quem você tenha alguma experiência?
Tivemos alguns caubóis do espaço em nossa vida. Um deles invadiu nossa casa. Eu não estava. Tabby (a mulher de King, a escritora Tabitha King) estava em casa sozinha, e o cara disse que tinha uma bomba. Era uma caixa, não era uma bomba.

Lá dentro havia apontadores de lápis e coisas amarradas com barbante. Ela fugiu correndo de casa, foi a um vizinho e chamou a polícia. O cara provavelmente não era perigoso. Há um sujeito que circula por lá em um furgão e diz que eu matei John Lennon. Há muita gente louca no mundo.

O autor Stephen King - NYT

Há uma interação entre Jim e uma bibliotecária que vai ficando incrivelmente tensa. De onde veio a ideia para isso?
Não estava no original. Pablo me procurou e perguntou o que eu achava de ele [o stalker] estar na biblioteca. Perguntou se eu podia escrever alguma coisa ameaçadora mas meio esquisita. Ele mencionou Quentin Tarantino e aquele tipo de diálogo. Eu disse que era capaz de escrever algo daquele tipo. E escrevi.

Como seu trabalho nessa série difere de outras adaptações que você fez para a TV, como a versão de “The Stand”, da década de 1990?
Os comerciais quebram o fluxo. Se você quer convencer as pessoas a acreditar em eventos fantásticos, quando elas veem um comercial é como se acordassem de um sono profundo. Mas com uma adaptação como essa eu só precisava me preocupar em contar a história com clareza e deixar alguma coisa no final de cada episódio para que as pessoas quisessem continuar assistindo ao seguinte.

Dizem que, no minuto em que você mostra o monstro, tira o poder dele. “A História de Lisey” é uma adaptação que mostra e não conta, diferentemente de “The Outsider”, onde quase nada de sobrenatural aparecia na tela. Por que essa abordagem?
O mundo real precisa ser feito com muito cuidado. É preciso alinhavar a fantasia e o horror com pontos finos, para que a pessoa que assiste a série ou lê o livro acredite que aquelas são pessoas reais, e compreenda seus problemas. E aí você coloca aquelas pessoas que os espectadores conhecem e compreendem em uma situação diferente, e provavelmente irreal. “The Outsider”, a série e o livro, era sobre como reagimos ao inexplicável.

“A História de Lisey” tem elementos realistas. Pablo e eu passamos muito tempo em pré-produção e ele perguntou se a Lua de Boo’ya existia de verdade ou se ela era um lugar imaginário para o qual Scott vai para escapar de sua doença mental, como uma válvula de escape. E eu respondi que era um lugar real, não importa se preexistente ou criado por ele. Pablo aceitou realmente a resposta, e virou grande fã da ideia.

Existe uma cena entre os personagens de Julianne e Dana que envolve um cortador de pizza, e é muito sangrenta. Seus pensamentos mudaram, ao longo dos anos, sobre as responsabilidades dos artistas de terror ao retratar violência, especialmente violência contra as mulheres?
Mulheres sofrem violência, e a verdadeira questão (ao escrever ficção) é como a mulher reage. Lisey reage se tornando mais forte. Nesse sentido, ela é um exemplo. Ela não fica submissa e assustada. Finge isso, mas não está.

São cenas difíceis de assistir, mas é como Hitchcock disse sobre “Psicose”: a maior parte do que você acha que vê está em sua imaginação. Não vemos Julianne Moore sofrer um corte ou um soco no rosto. Ouvimos sons, e sua reação, e vemos o que acontece depois, mas não os atos em si.

Minha ideia sobre o que poderíamos chamar de pornografia da violência —ver o rosto de alguém retalhado— é que é importante que a audiência se importe com os personagens. Não é como nos filmes “Sexta-Feira 13” em que você vai ao cinema ver 16 adolescentes tarados morrerem de 16 maneiras interessantes, seja com uma flechada no seio ou com a cabeça esmagada. “A História de Lisey” é mais artístico e leva a pensar.

Você disse que “A História de Lisey” foi inspirado por uma experiência quase fatal. Como é que isso o fez reavaliar sua vida e obra?
Tive pneumonia dupla e passei muito tempo no hospital. Eu estava muito doente, e minha mulher aproveitou a oportunidade para redecorar meu escritório, que estava bem velho e mal cuidado. Para mim era como um terminal que eu usava para embarque e desembarque.

Quando saí do hospital, ela disse que eu talvez não devesse ir ao meu escritório, porque eu não ia gostar. E é claro que foi o que fiz imediatamente, e as coisas ainda estavam em transição. Os livros estavam em caixas e ainda não tinham sido recolocados nas estantes.

Eu estava tomando muitos remédios e olhei para o escritório todo e imaginei que na verdade tinha morrido. Era o que aconteceria: seria preciso limpar tudo depois que uma pessoa morre. E achei que aquela cena seria um grande começo de história. O resto veio disso.

Com a pandemia, a eleição e os protestos por justiça racial na metade do ano passado, muita gente passou a confrontar a própria mortalidade e decidiu mudar de vida. Isso aconteceu no seu caso?
Não sinto isso. Mentalmente, é um grande alívio Trump não estar mais na Casa Branca. Mas se meu trabalho reflete isso? Duvido.

Algum filme ou programa de TV assistido na pandemia o inspirou?
Vi um monte de episódios de “Law and Order: SVU”. São histórias boas. Digo sempre no Twitter que adoraria ver “Law and Order: Vampire Squad”.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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