Emily Blunt e John Krasinski em cena do filme

Emily Blunt e John Krasinski em cena do filme "Um Lugar Silencioso - Parte 2" Jonny Cournoyer/Paramount Pictures

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The New York Times

Na noite de 8 de março de 2020, John Krasinski estava celebrando o lançamento iminente do novo thriller pós-apocalíptico "Um Lugar Silencioso - Parte 2", que ele escreveu e dirigiu.

Percorreu com orgulho o tapete vermelho, na noite de estreia, posando para fotos com sua mulher, Emily Blunt, a estrela do filme. Ele disse à plateia no Jazz at Lincoln Center que estava empolgado por dividir o filme com eles e, dentro de poucos dias, com as audiências do mundo inteiro.

Em lugar disso, nos dias seguintes, o mundo se transformou em uma espécie de filme de terror. Um inimigo invisível levou as pessoas a se isolarem; locais até então prósperos se esvaziaram, e setores econômicos inteiros se viram paralisados. O lançamento de "Um Lugar Silencioso - Parte 2" foi adiado.

Krasinski passou os meses seguintes preocupado acima de tudo com a segurança de sua família, mas, quando refletia sobre a situação do setor no qual trabalha, imaginava o que aconteceria com seu filme. "Foi a circunstância mais bizarra", ele diz em uma conversa recente. "Qual seria o destino do filme? Quando as pessoas poderiam vê-lo? Será que vão vê-lo? A coisa começou a ficar muito estranha."

O filme original, grande sucesso em 2018, também dirigido por Krasinski, era uma trama de ficção científica quase sem diálogos, sobre um casal (interpretado por Krasinski e Blunt) que tenta orientar seus filhos (Millicent Simmonds e Noah Jupe) sobre como viver em um mundo que caiu sob o controle de criaturas malévolas que entram em ação movidas por barulho, e que seriam capazes de matar a família inteira se eles fizessem qualquer ruído.

A continuação, cujos cartazes debotados eram visíveis em muitas das fotos distópicas do mundo real durante a pandemia, preserva essa linha narrativa e leva a história adiante. Mas agora há muito mais coisas a considerar do que uma ressonância fantasmagórica com os acontecimentos correntes.

A recepção do público à continuação vai revelar se os espectadores, que passaram os últimos meses se fartando de filmes e programas nos serviços de streaming, estão prontos para voltar em grande número às salas de cinema.

O lançamento será um teste significativo para "Um Lugar Silencioso" como franquia para o estúdio Paramount, que realmente necessita de uma, e para o trabalho de Krasinski, um ator e diretor afável que não havia deixado marca como diretor de filmes comerciais até fazer o primeiro "Um Lugar Silencioso".

Krasinski está bem ciente de tudo isso. Falando por vídeo de Budapeste, onde retomou recentemente as gravações de “Jack Ryan”, série de ação da Amazon, ele afirma ter passado os últimos 12 meses “oscilando entre o otimismo e a ingenuidade”, enquanto esperava a chegada de “Um Lugar Silencioso - Parte 2”.

Ele acrescenta que "não acredito que alguém estivesse realmente preparado para o que estava prestes a acontecer no mundo real".

Quase dois anos atrás, em agosto de 2019, Krasinski estava dirigindo o elenco no set de "Um Lugar Silencioso Parte - 2" em Buffalo, Nova York. Em pé em um estúdio gigantesco concebido para parecer a câmara subterrânea de uma usina siderúrgica abandonada, ele pediu silêncio, e suas instruções reverberavam em forma de sussurros rápidos para membros da equipe que as retransmitiam em todos os cantos do set.

O ator John Krasinski
O ator John Krasinski - Bryan Derballa-6.mar.2020/NYT

Os atores iniciaram a cena: Blunt, agora uma sobrevivente experimentada da invasão alienígena, tinha chegado ao esconderijo de um resistente descabelado interpretado por Cillian Murphy, o astro de “Peaky Blinders”. Murphy parece desesperado quanto ao futuro da humanidade, mas Blunt lhe diz para não perder a esperança porque...

De repente o silêncio é interrompido por um ruído repetitivo: o filme de uma das câmeras tinha acabado e estava girando em falso, irritantemente. Krasinski gritou “corta”; a tomada foi perdida; e a cena teria de ser refeita. Como explicaria Blunt mais tarde, ela estava acostumada a esse tipo de interrupção. "Isso já aconteceu muitas vezes", ela diz. “E em geral acontece na melhor tomada”.

Krasinski diz que era tudo parte de um elaborado processo que descreveu, em tom brincalhão, como “terapia conjugal” —"basta montar uma câmera e submeter sua mulher a um monte de situações torturantes: muita coisa termina sendo revelada, assim".

Se você só conhece Krasinski, 41, por sua interpretação do brincalhão e galante Jim Halpert, na série “The Office”, já sabe mais do que imagina sobre ele. Ele é um cara sincero, e não tenta esconder isso. Quando se empolga por uma cena ter dado certo ou um diálogo ter funcionado, ele grita coisas como “yahtzee!”.

Ele também é fã ardoroso do cinema popular. O escritório de sua produtora no centro de Manhattan, que visitei em janeiro de 2020, é decorado com cartazes de seus filmes favoritos, como “Se Meu Apartamento Falasse”, “A Primeira Noite de um Homem” (e um pôster em espanhol de “Kramer vs. Kramer”).

Uma sala menor, na entrada, é decorada com fotos de família, além de um presente de aniversário que Blunt deu a Krasinski no set do primeiro "Um Lugar Silencioso": um retrato autografado de Steven Spielberg, posando na boca do tubarão mecânico do filme "Tubarão", a que Krasinski e Blunt assistiram pelo menos oito vezes quando começaram a namorar.

Depois que "The Office" acabou, Krasinski estrelou em “13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi”, dramatização dirigida por Michael Bay dos ataques contra americanos em Benghazi, em 2012, o que atraiu a atenção de Andrew Form e Brad Fuller, antigos sócios de produção de Bay.

Form e Fuller queriam Krasinski para o papel-título de "Jack Ryan", mas lhe mostraram um rascunho de "Um Lugar Silencioso", criado pelos roteiristas Bryan Woods e Scott Beck, na esperança de que interpretasse o papel de pai da família protagonista.

Para surpresa deles, Krasinski não só aceitou o papel como quis reescrever o roteiro e dirigir o filme. Woods e Beck também levam crédito como roteiristas de "Um Lugar Silencioso", e crédito pela criação dos personagens na Parte 2. Por intermédio de um representante, eles se recusaram a comentar para este artigo.

Se feito do jeito certo, diz Krasinski, o filme seria uma homenagem “à paternidade e à força da família”. Mas àquela altura, seu currículo como diretor incluía apenas alguns episódios de “The Office” e dois longas pouco vistos: uma adaptação de “Breves Diálogos com Homens Horríveis”, de David Foster Wallace e uma comédia dramática familiar chamada “Família Hollar” (2016).

"Não havia nada que pudéssemos usar como prova de que John Krasinski tinha capacidade de dirigir um thriller", diz Fuller. O que o levou a conquistar o posto foi seu entusiasmo, nas conversas com os produtores e com executivos do estúdio. Depois de uma reunião com a Paramount, afirma Fuller, “não houve resistência a que fizéssemos o filme. Nossa paixão se baseava nos insights e na paixão de John”.

Blunt diz que não pretendia fazer um filme com o marido. Mas lembrou da empolgação de Krasinski com o roteiro original de "Um Lugar Silencioso" na época em que Violet, a filha mais nova do casal, tinha só seis semanas. Gradualmente, ela começou a se identificar com a personagem de uma mãe armada até os dentes que tinha acabado de ter um bebê.

“É ela, se posicionando na frente das crianças e defendendo-as a todo custo”, diz Blunt. “A linha que me separava da personagem, que em geral é bem clara para mim em todos os filmes, ficou mais confusa. E algumas das cenas me derrubaram completamente."

"Um Lugar Silencioso" tinha enxutos e tensos 90 minutos, e arrecadou mais de US$ 340 milhões em todo o mundo, com um orçamento de cerca de US$ 17 milhões, o que tornava uma continuação praticamente inevitável.

Krasinski não tinha planejado escrever ou dirigir uma sequência, e tinha medo de que os espectadores considerassem o projeto como mercenário. Também se preocupava com a possibilidade de que as qualidades do primeiro filme fossem acidentais, e que uma continuação fracassada pudesse servir para comprovar que era esse caso —apreensões que ele atribuiu a “aquela coisa de irlandês católico de Boston”.

"Fomos criados para nunca achar que tínhamos valor e que merecíamos as coisas", explica Krasinski. “É como se uma bile escura e tóxica aflorasse a cada vez que você pensa alguma coisa nesse sentido."
Mas gradualmente Krasinski começou a ver uma nova história tomar forma, e preparou um rascunho para a segunda parte, em três semanas e meia de trabalho intensivo.

Se o "Um Lugar Silencioso" original era sobre "a promessa que todos os pais fazem aos filhos de que estarão sempre lá para protegê-los", ele diz, "bem, em algum momento essa promessa precisa ser quebrada".

"Assim o segundo filme é sobre, quando a promessa é quebrada, o que é preciso fazer para sobreviver?", prossegue Krasinski. "Mas também é sobre a esperança que uma nova geração tem, e a mais velha não."

Amigos antigos de Krasinski dizem que o enorme sucesso de "Um Lugar Silencioso" não o mudou muito. Ryan Reynolds, astro de "Deadpool" e amigo estreito de Krasinski e Blunt há anos, disse que Krasinski mantinha sua humildade essencial, mesmo depois que seu filme "virou sucesso entre os fãs de cinema mais convencionais".

“John certamente não é o tipo de cara que se vangloria de qualquer coisa”, diz Reynolds. “Antes da estreia de ‘Um Lugar Silencioso’, ele não andava por aí dizendo que o filme seria um dos grandes sucessos do cinema. Ele fala baixinho, sobre a maioria das coisas."

Reynolds, que tem três filhas, afirma que as conversas deles durante o lockdown eram sobre suas famílias, e não sobre trabalho. "Nós conversávamos principalmente sobre como é criar filhos em meio a uma pandemia", diz Reynolds.

Mas Krasinski reconheceu que houve momentos em que ele se sentiu frustrado e inseguro com relação ao destino de "Um Lugar Silencioso - Parte 2", cujo lançamento foi adiado múltiplas vezes. Quando ele e a Paramount aceitaram a necessidade evidente do primeiro adiamento, diz o diretor, "precisamos de semanas, ou mesmo meses, para compreender o que estava acontecendo e o que teríamos de encarar".

Entre os colegas cineastas com quem Krasinski disse ter comiserado no período estava o amigo Paul Thomas Anderson, um arisco realizador de filmes de arte. Krasinski recorda uma de suas conversas.

"Ele disse que é como se você tivesse tido um bebê e o médico o devolvesse para dentro do útero e dissesse que não tinha certeza de quando sairia”. (Por meio de um representante, Anderson confirmou pelo menos que ele e Krasinski são amigos e conversam regularmente).

Krasinski também se concentrou em projetos como Some Good News, o talk show online que ele apresenta de sua casa em Brooklyn, conversando com celebridades e organizando campanhas de caridade em benefício de pessoas cujas vidas foram afetadas pela pandemia.

Mas o anúncio, no segundo trimestre do ano passado, de que ele havia licenciado Some Good News para a ViacomCBS, que planejava fazer dele uma série de streaming, atraiu queixas de fãs, que acreditam que isso contraria o espírito altruísta do programa. Krasinski diz agora que quaisquer planos de adaptação foram abandonados.

“A ViacomCBS e eu estávamos tentando descobrir uma maneira de criar um programa noticioso semanal”, ele diz, “mas no fim os dois lados concordaram em não levar essa ideia adiante e em manter o formato original”. A ViacomCBS preferiu não comentar.

A Paramount vendeu alguns dos filmes que tinha prontos para serviços de streaming, durante a pandemia, mas afirma que sempre considerou “Um Lugar Silencioso - Parte 2” como uma obra destinada às salas de cinema.

“É uma experiência que requer imersão”, diz Emma Watts, que se tornou presidente do grupo de cinema da Paramount na metade de 2020. “As pessoas vão preferir assisti-lo sem estar fazendo qualquer outra coisa. Vão querer estar completamente presentes."

O filme estará disponível no serviço de streaming Paramount+ 45 dias depois de sair nos cinemas, o que reduz à metade a espera característica para que grandes produções de cinema cheguem ao streaming, e cria outros problemas.

A Bloomberg News noticiou que Krasinski e Blunt querem mais dinheiro da Paramount porque o prazo mais curto de exclusividade nos cinemas reduzia seu retorno pessoal com o filme, que está ligado em parte à venda de ingressos. Krasinski e a Paramount preferiram não comentar sobre essa reportagem, e Watts não quis dizer quais eram suas expectativas financeiras para “Um Lugar Silencioso - Parte 2”.

Mas quando conversei com Krasinski em abril, ele disse que seu foco não era a venda de ingressos. Em lugar disso, mencionou seus planos de ir a alguns dos cinemas que exibirão o filme, para mostrar solidariedade às plateias que decidam assisti-lo.

“Não faço ideia do que acontecerá em termos de bilheteria”, disse Krasinski. “Para mim o mais importante é que, se as pessoas quiserem ver o filme, eu o exibirei para elas”. Falando em volume exagerado, ele disse, “mas volte a falar comigo três meses depois do lançamento e eu vou dizer: O que aconteceu? Por que fui dizer aquilo?”.

A Paramount está ansiosa por manter seu relacionamento com Krasinski. Marcou o lançamento de um novo filme para novembro de 2023, que ele estrelará com Reynolds e terá por base um roteiro que ele escreveu durante a pandemia. Krasinski não quis falar sobre a trama do novo filme, e Reynolds se limitou a dizer que “farei qualquer coisa que John Krasinski me mandar fazer no set”.

O estúdio tampouco é reticente quanto às suas esperanças de que “Um Lugar Silencioso” se torne uma franquia por direito próprio, reforçando o acervo de velhos sucessos controlados por ele, como “Star Trek”, “Missão Impossível” e “Transformers”. Para isso, eles já assinaram com Jeff Nichols (“Destino Especial”) para escrever e dirigir um terceiro filme da franquia, que Krasinski ajudará a produzir.

Krasinski afirma que deve ter apenas uma folga curta entre terminar a rodagem de “Jack Ryan” e iniciar a do novo filme. Mas se ele aprendeu alguma coisa com a pandemia é que desafios precisam ser encarados sem hesitação.

Ele refletiu sobre as primeiras semanas de lockdown, que passou vendo suas filhas imitarem a cara zombeteira de Jim Halpert, enquanto ele e Blunt tentavam ajudá-las via Zoom nas lições de casa. “A cara que elas fazem quando você pergunta quanto é quatro mais quatro...”, diz Krasinski. "A reação é sempre ‘nós não vamos fazer isso de verdade, vamos?’ Sim, vamos. Vamos fazer a conta juntos."

Tradução de Paulo Migliacci.

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