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Eddie Murphy lança sequência e diz que 'Um Príncipe em NY' virou cult após 33 anos

Filme estreia nesta 6ª na Amazon com Arsenio Hall também no elenco

Eddie Murphy em cena de "Um Príncipe em Nova York 2" Divulgação

The New York Times

Houve uma época em que Eddie Murphy dominava as salas de cinema como um rei –ou pelo menos como um príncipe. Na década de 1980, ele coroou uma série de comédias (“48 Horas”, “Trocando as Bolas”, “Um Tira da Pesada”) e turnês de stand-up (“Raw”) de imenso sucesso com o filme “Um Príncipe em Nova York”.

Lançado em 1988, o longa trazia Murphy como o príncipe Akeem, rico potentado de Zamunda, um país africano imaginário, que viaja incógnito a Nova York com seu fiel escudeiro Semmi (Arsenio Hall), em busca de uma mulher que o ame por sua pessoa e não por sua posição.

“Um Príncipe em Nova York”, dirigido por John Landis, se beneficiou da química entre Murphy e Hall e da capacidade dos dois para interpretar inúmeros outros personagens, entre os quais um reverendo untuoso (Hall), um cantor de soul medíocre (Murphy) e os frequentadores turrões de uma barbearia local (Murphy, Hall e Murphy).

A carreira de Murphy teve muitos altos e baixos depois disso, ainda que recentemente ele esteja em alta, depois de projetos de sucesso como “Dolemite Is My Name”, uma cinebiografia de 2019. E agora ele vai voltar a Zamunda, em uma continuação aguardada há muito tempo, “Um Príncipe em Nova York 2”, que sai pela Amazon em 5 de março.

A continuação, dirigida por Craig Brewer, traz Akeem, mais velho, enfrentando dificuldades com sua filha adulta (interpretada por KiKi Layne), que quer uma oportunidade de governar o reino. Ele corre de volta a Nova York com Semmi, depois de descobrir que tem um filho lá (Jermaine Fowler), fruto de sua visita original.

Murphy e Hall retomam diversos dos personagens coadjuvantes que interpretaram, e contam com o retorno de alguns dos atores do elenco do primeiro filme, como James Earl Jones, Shari Headley e John Amos, e com novos personagens, interpretados por Wesley Snipes, Tracy Morgan e Leslie Jones.

A realização de “Um Príncipe em Nova York” e de sua continuação serve como uma crônica da amizade real entre Murphy e Hall, de seu primeiro encontro como humoristas stand-up aos dias de hoje. Murphy e Hall recentemente concederam uma entrevista em vídeo sobre a criação de “Um Príncipe em Nova York 2” e sobre a camaradagem entre eles, e trocaram provocações como só velhos amigos podem fazer.

Confira trechos editados da conversa.

Como é que vocês se conheceram?
Murphy Quando começamos a fazer humor, talvez houvesse, sei lá, 10 humoristas negros nos Estados Unidos, e assim todo mundo se conhecia. Humoristas são conhecidos por suas panelinhas, e assim você forma a sua, com as pessoas que acha engraçadas. Daqueles 10 humoristas negros, há uns quatro ou cinco com quem nunca fiz amizade. (Risos) Quando vim para cá (Los Angeles), fui apresentado a Arsenio por Keenen (Ivory Wayans).
Hall A gente estava na porta do [clube de comédia] Improv, e Keenen me apresentou. Apertei a mão de Eddie e conversamos um pouco, e aí Damon Wayans chegou. Mas eu não o conhecia. Keenen nos apresentou a Damon, e ele fez aquele personagem que Eddie o deixou fazer em “Um Tira da Pesada”, o cara do hotel. Foi tão convincente que nem ri, porque não sabia se era verdade. Mas foi como ele conseguiu o papel naquele filme.

Eddie, o que o interessou na ideia de ver os Estados Unidos e Nova York pelos olhos de um príncipe africano, Akeem?
Murphy Isso aconteceu no pico do meu primeiro período no negócio. Eu estava em turnê e tinha acabado de desmanchar com uma namorada, e surgiu uma conversa no ônibus da turnê sobre a vontade de conhecer uma garota que gostasse de mim por eu ser quem sou, e não por ser famoso.

Arsenio, àquela altura acho que seu único papel no cinema tinha sido uma ponta cômica em “Amazonas da Lua”. Como você terminou envolvido no filme original?
Hall Foi divertido. Eu não era astro de cinema, era só um humorista stand-up...
Murphy Oh, não, não, não. Ele também tinha feito um episódio da “refilmagem” de “Love American Style”. Ele estava com uma dançarina do [programa] Soul Train, chamada Damita Jo Freeman, e os dois interpretam um casal. Já procurei em toda parte. Procurei no YouTube, mas não consigo encontrar. Nós éramos amigos, e sempre gosto de trabalhar com outros humoristas para que a coisa seja o mais engraçada que puder. Trabalhei com Richard (Pryor) em “Os Donos da Noite”, trabalhei com Arsenio, trabalhei com Martin (Lawrence) em “Até que a Fuga os Separe”. Não vou carregar essa [palavrão] sozinho!}
Hall Mas é engraçado você mencionar “Amazonas da Lua” – Eddie e eu estávamos andando de carro em Manhattan, em um Corvette branco que ele tinha acabado de comprar, e Eddie disse que tínhamos de encontrar alguém para dirigir o filme. E eu lembro de ter dito que não teria muito como ajudar, porque só tinha feito um filme, “Amazonas da Lua”, e o diretor tinha sido John Landis. E percebi na hora que aquilo tinha dado uma ideia a Eddie.}
Murphy Sabe o que foi engraçado? Eu estava conversando com John Landis, e ele me disse: “Um comediante realmente divertido é Arsenio Brown”. E eu: “Arsenio Brown? Não seria Arsenio Hall?” Landis disse, “isso, Arsenio Hall”. E até hoje Arsenio diz que se chama Brown.
Hall Acho que o reverendo Brown veio disso.
Murphy Arsenio Brown! O nome realmente tinha um som bacana. Arsenio Hall parece pseudônimo, como se ele tivesse inventado um nome. Arsenio Brown parece um nome de verdade.

Quem teve a ideia de vocês fazerem múltiplos personagens, no filme?
Murphy A ideia original não envolvia personagens múltiplos. Mas quando John Landis entrou na equipe, ele sabia que eu imitava bem o sotaque do idioma iídiche, e disse que aquilo seria muito engraçado. Ele tinha trabalhado com Rick Baker (o criador das maquiagens para o filme), e disse que Rick era capaz de me caracterizar como um velho judeu –o que seria muito engraçado. E foi assim que aquilo tudo começou.

As carreiras de vocês seguiram em direções muito diferentes depois de “Um Príncipe em Nova York”. Isso dificultou que vocês mantivessem contato?
Murphy Nunca houve um período em que não fôssemos amigos.
Hall Nós podemos falar sobre experiências muito diferentes. Parte da coisa é se sentir confortável sendo quem você é, sabendo quem você é. Eu sou um humorista stand-up e um cara de TV. Eddie é astro de cinema. Mas nós conseguimos compartilhar muitas coisas porque nos sentimos confortáveis em nossas peles.

O que vocês veem de diferente em vocês mesmos?
Hall Eu estou aqui porque estou falido. Ele está aqui porque ele é bom. (Risos)
Murphy Não me vejo como astro do cinema, ou humorista, ou qualquer dessas coisas. Vejo-me como artista. E acho que posso me expressar de muitas maneiras diferentes.
Hall Se você aparecer na casa de Eddie, ele mostra uma canção para você. E você nem consegue acreditar, “espera aí, isso é você na guitarra? Você é que está cantando? Você compôs e produziu essa faixa?” É o que ele faz para se divertir. Para ele, é como fazer um gorrinho de crochê.
Murphy Gravei muita coisa, colaborei com muita gente –Michael Jackson, El DeBarge– pessoas com quem trabalhei no estúdio ao longo dos anos, mas jamais completamos os projetos, ou não lançamos as faixas.
Hall Ele faz um monte de coisas. E as faz tão bem quanto qualquer cara da área. Ele é fera. É difícil aceitar.

Por que vocês demoraram tanto para fazer uma continuação de “Um Príncipe em Nova York 2”?
Murphy Nunca tínhamos pensado em fazer uma continuação. A forma pela qual a história terminou era “e eles viveram felizes para sempre”. Mas o tempo passou, e o filme se tornou cult. Bordões do filme começaram a se incorporar à cultura. Restaurantes imitavam a decoração do McDowell’s. Vi Beyoncé e Jay-Z vestidos como personagens de Zamunda em um Halloween.
E aí apareceu Ryan Coogler, antes de ele dirigir “Pantera Negra”. Conversamos um dia e ele disse que queria fazer uma continuação de “Um Príncipe em Nova York”. A ideia dele era que Michael B. Jordan interpretasse meu filho, que estaria à procura de uma noiva. Mas eu achei que o filme seria mais sobre o filho e menos sobre nossos personagens, e a história seria a mesma. O projeto não rolou.
Mas isso me fez começar a pensar que talvez devêssemos fazer uma continuação. Vi a versão de “Exterminador do Futuro” em que eles rejuvenesceram Arnold Schwarzenegger --o rosto parecia o de Arnold, mas jovem-- e foi ali que me veio a ideia. (Estala os dedos) Se usássemos aquilo para parecermos jovens, e criássemos uma cena na casa noturna (que eles visitam na primeira versão para procurar garotas), a história se encaixaria. Eu teria ido para casa com uma garota, meio chapado. Foi isso que deu partida à história.
Hall Nunca pensei no assunto, porque tínhamos combinado deixar “Um Príncipe em Nova York” onde ele ficou. Mas às vezes trocamos mensagens de texto quando saio para comprar café, e ele me perguntou o que eu estava fazendo e me pediu para ler o roteiro na hora. Li metade do roteiro sentado no jardim da casa dele. Era muito empolgante, e muito bom.

O processo judicial vencido por Art Buchwald, que afirmou que “Um Príncipe em Nova York” se baseava em uma versão do roteiro que ele escreveu, prejudicou a realização de uma continuação?
Murphy Não, de jeito algum. Nem sei bem como aquela coisa toda foi resolvida, qual era a terminologia exata. Mas no fim das contas, acho que tudo ficou bem. Nos letreiros, o espólio de Art Buchwald recebe um agradecimento.

Nas duas versões do filme, vemos Zamunda como uma nação na qual os cidadãos negros foram capazes de desenvolver seu potencial e atingir a grandeza sem interferência ou opressão dos brancos. Isso era algo que vocês procuraram expressar explicitamente?
Murphy Não é algo que dizemos. Jamais mostramos a história do país. Ele só existe. Como Wakanda.
Hall E foi perfeito filmar “Um Príncipe em Nova York 2” em Atlanta, onde o clima é muito quente e existe um palácio, que pertence a Rick Ross.
Murphy E, a casa dele é tão grande que bastou decorá-la para criar o palácio. Quando você me vê caminhando pela planície africana, com antílopes correndo ao meu redor, no filme, tudo aquilo é o quintal de Rick Ross. Ele tem 120 hectares de terreno, algo assim.
Hall E um lago! Você tem um lago? O negócio é fazer rap. Vamos lá, cantem comigo (na voz de Rick Ross), “Hunh”.

Houve alguma cena escrita para personagens menores que terminou cortada na continuação?
Murphy Havia um rascunho de cena no qual os barbeiros usavam bonés MAGA, e descobríamos que eles eram republicanos. Mas não porque eles defendessem Trump –eles apoiavam Herman Cain. Achamos a ideia engraçada, mas usá-la dataria o filme. Também tínhamos dois pastores disputando um bode, e a cena culminava com um deles [fazendo sexo] com o bode. Mas, opa, James Earl Jones está no filme –vamos manter a classe. (Risos) Nos primeiros rascunhos, Tracy Morgan era meu filho.
Hall Adoro Tracy, e ele é o cara mais engraçado do mundo, mas calma lá, Ed, vocês têm praticamente a mesma idade. (Imitando Murphy:) “Nós vamos resolver, cara, vamos descobrir um jeito. Ele é engraçado”.

Os caras da barbearia mantêm a mesma idade eternamente?
Murphy Preste atenção na maquiagem. Nós os envelhecemos bem. Eles estão no fim dos 80 anos, começo dos 90, agora. Na primeira versão, me espantei ao perceber que parecíamos jovens demais –a pele firme, Saul (o freguês da barbearia) sem marcas de idade no rosto, e com uma face bem definida.

O que vocês fazem para se distrair enquanto estão sendo maquiados?
Hall É engraçado, porque nossas soluções são diferentes. Não podemos usar o mesmo trailer. Ele assiste a certas coisas, e eu a outras. Tentamos fazer a maquiagem juntos no primeiro dia, mas houve momentos em que eu não queria mais ver vídeos de Prince.
Murphy Oh, você não queria ver MonoNeon?
Hall Meu Deus.

Murphy: MonoNeon. Qual é a melhor maneira de descrevê-lo?
Hall Como algo que faz Arsenio precisar de um trailer só para ele.
Murphy MonoNeon é um músico, contrabaixista, e ele é incrível. Ele é como Jimi Hendrix, Basquiat e Skittles, tudo combinado. Passo horas, horas e horas assistindo aos vídeos dele. (Hall começa a fazer caretas, e Murphy imita a voz do amigo.) “Você está vendo MonoNeon de novo?”
Hall Eu adoro notícias, e assisto programas de esquerda, direita e centro o dia inteiro.
Murphy Eu sou o completo oposto. Nunca sei o que está acontecendo. Fico perguntando o que aconteceu. “Trump agora é presidente?” Não acompanho nenhuma dessas coisas.

No novo filme, vemos Akeem se ajustar à nova época e aprender a levar em conta as vontades de seus filhos já adultos. Eddie, isso seria uma metáfora sobre sua vida? Você já está pensando no legado que um dia vai deixar?
Murphy Quando eu penso no meu legado –e é algo que faço raramente--, minha carreira não é parte da coisa. Meu legado são meus filhos. Quando eu morrer e alguém discursar na cerimônia, não quero alguém parado na frente do caixão e dizendo (em voz de pregador): “E aí ele fez ’48 Horas’, um filme maravilhoso. Chegou ao sucesso com Nick Nolte, e abalou o mundo. Depois veio ‘Trocando as Bolas’, e em seguida o grandioso ‘Um Tira da Pesada’. E o clássico vídeo de ‘Raw’ –vamos mostrar um trecho” (risos).
Hall (Apontando para a coleção de troféus diante dos quais Murphy está sentado) Você pode achar que esses prêmios são pelo trabalho dele, mas na verdade são prêmios de Pai do Ano.
Murphy Um de cada filho.

Vocês planejam voltar a colaborar?
Hall Para mim, o plano é voltar aos clubes de comédia. Sexta-feira tenho uma apresentação no Through Your Nose, no Canadá.
Murphy O plano era nós todos fazermos stand-up. Quando tirei o traseiro do sofá para fazer esses filmes, a ideia era fazer “Dolemite”, apresentar “Saturday Night Live”, fazer “Um Príncipe em Nova York 2”. Porque eu quero voltar ao stand-up, mas não quero aparecer lá quando as pessoas não me veem ser realmente engraçado há um bom tempo. Eu não queria fazer stand-up se o último filme meu que as pessoas viram foi “O Grande Dave”. (Risos) Queria lembrá-las de que sou engraçado. E aí chegou a pandemia e tivemos de adiar tudo. Mas quando a pandemia acabar, e voltar a ser seguro estar perto de pessoas, vou fazer stand-up de novo. Adoraria fazer uma turnê com todos os humoristas, eu, Arsenio, Leslie Jones, Tracy Morgan, Trevor Noah, Jermaine Fowler, Louie Anderson, Michael Blackson.

É perigoso para vocês saírem juntos em público? Se as pessoas os veem juntos, elas começam a citar os diálogos de “Um Príncipe em Nova York”?
Murphy Faz um ano que a gente não sai, porque o mundo ruiu. Mas quando o mundo voltar ao normal, não acho que será problema ir a lugar algum. Quando eu era jovem, andava com seguranças. Mas um dia pensei comigo mesmo que não precisava daqueles seguranças todos. (Risos) E não tenho mais seguranças, desde então. Se você vai a algum lugar, é só dizer oi e deixar que as pessoas tirem uma foto, e seguir em frente.
Hall Mal posso esperar pela volta desses tempos. O único problema no Starbucks é que Eddie dá gorjetas generosas demais. Se volto lá sozinho, as pessoas me olham diferente (imita alguém verificando se Murphy está com ele). Eu deixo US$ 5 (cerca de R$ 28) de gorjeta. Eddie deixa um pneu de Rolls-Royce.

Tradução de Paulo Migliacci

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