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Críticos e pesquisadores explicam sucesso de 'Lupin' entre o público brasileiro

Temática racial e atuação de Omar Sy explicam sucesso da série francesa

Omar Sy como Assane Diop em cena de 'Lupin' - Netflix
Daniella Franco
RFI

A série francesa "Lupin", foi uma das principais apostas da Netflix para o começo deste ano e alcançou um sucesso internacional inesperado. A produção registrou picos de audiência da plataforma não apenas na França, onde se passa a trama, mas nos Estados Unidos, México, Polônia, Vietnã, Filipinas e também no Brasil –onde o público foi conquistado pela atuação de Omar Sy e a temática racial da saga.

“Lupin” conta a história de Assane Diop, interpretado pelo ator francês Omar Sy, que, para vingar a morte do pai, se inspira nas aventuras de Arsène Lupin, "o cavalheiro ladrão". O personagem criado no início do século passado —célebre por sua capacidade de mudança de identidade e camuflagem para a prática de delitos— é protagonista de várias obras do escritor francês Maurice Leblanc, ícone da cultura popular francesa.

Na série, o imigrante senegalês radicado em Paris, Babakar Diop, transmite ao filho adolescente, Assane, a paixão pelos livros de Maurice Leblanc e o personagem Arsène Lupin. Babakar é empregado doméstico em um rica família da capital francesa, que o acusa de roubo. Sem nenhuma chance de defesa, ele é preso e, pouco depois, é encontrado morto em sua cela.

O adolescente Assane é entregue aos serviços sociais da França e se foca em um único objetivo: provar a inocência do pai. Nessa incessante busca por vingança, encarna uma espécie de Robin Hood contemporâneo, utilizando como filosofia de vida as peripécias do “cavalheiro ladrão”.

OMAR SY: ATUAÇÃO E REPRESENTAÇÃO

Omar Sy se tornou conhecido no Brasil com o sucesso internacional de "Os Intocáveis", em que interpreta um cuidador —trabalho que lhe valeu um César de melhor ator. No entanto, para o crítico e curador de cinema Filippo Pitanga, grande parte da admiração dos brasileiros por essa estrela do cinema francês tem relação com representatividade.

“O Brasil tem uma das maiores populações negras do mundo. Ver o sucesso e o talento de um grande ator como Omar Sy no cinema francês –que ainda é predominantemente branco– é muito importante. É uma identificação muito próxima com as questões que o cinema brasileiro também enfrenta e com as nossas reivindicações”, diz.

A questão da representatividade se alia à brilhante atuação de Omar Sy, reitera Filippo Pitanga. “Ele tem uma forma de humor muito peculiar. Em suas expressões e diálogos, ele consegue inserir a sutileza da ironia. Ao mesmo tempo, ele tem uma imponência, uma presença cênica muito forte. Ou seja, nós temos uma junção que vai desde a interpretação de texto à força cênica dele e a série 'Lupin' aproveita esse talento que ele traz”, destaca.

"Lupin" é uma série de ação, com boa parte dos episódios dirigida por Louis Leterrier, que tem forte experiência no gênero. Mas a produção vai muito além disso, trazendo à tona questões como racismo, corrupção e justiça social na França que também fazem parte do cotidiano dos brasileiros, como aponta Bianca Peter, professora e pesquisadora de Letras e Literatura da Unicamp e redatora do blog Nota Terapia.

“A produção da Netflix acaba tratando dessas temáticas que, talvez na época em que os livros de Maurice Leblanc foram publicados, não eram abordadas, como o estatuto do refugiado e o racismo estrutural. São questões que sensibilizam os brasileiros porque a gente vive um momento de instabilidade política e que vem colocando em xeque a vida das pessoas”, observa.

Bianca Peter percebe que mesmo que a trama se passe em Paris, inspirada em um ícone da cultura popular francesa, os brasileiros se enxergam muito facilmente com a saga de Assane Diop.

“O protagonismo de Omar Sy, que é muito carismático e cujos filmes fizeram muito sucesso no Brasil, atrai as pessoas a conhecer obras que são conhecidas pelos franceses. Ao mesmo tempo, ‘Lupin’ apresenta elementos novos, como a perspectiva de questionar a justiça, que é o acontece com esse personagem que foi criado especialmente para a série da Netflix, com o qual o público de outros países tanto se identificam.”

O LADRÃO DE CASACA

No Brasil, o livro mais conhecido de Maurice Leblanc é “O Ladrão de Casaca”, originalmente publicado em 1907. É desta época que data a a fascinação pelo personagem Arsène Lupin na França, que atravessa décadas e, com o sucesso da série da Netflix, cruzou também fronteiras.

“Se Arsène Lupin fascina tanto é porque, nos livros de Maurice Leblanc, ele é apresentado como uma espécie de super-humano, um indivíduo com uma força física e inteligência extraordinárias. Tem uma afirmação famosa de um de seus adversários que diz: ‘Como atacá-lo? Ele é inatacável. Como feri-lo? Ele é invulnerável’”, aponta o professor de Lingua e Literatura Francesa, Cédric Hannedouche, especialista em cultura popular e na obra de Maurice Leblanc

Hannedouche também destaca a complexidade de Arsène Lupin, de personalidade e físico camaleônicos. “Ele tem uma identidade proteiforme, transforma sua aparência e camufla seu rosto, utiliza diversas fantasias para isso. É um personagem que atiça a curiosidade por sua ambivalência, como Han Solo, de Star Wars, ou Sirius Black, do universo de Harry Potter, ou, ainda mais recentemente, temos um belo exemplo com o sucesso de Mandalorian.”

Segundo Hannedouche, ambivalência de Arsène Lupin é outra característica que cativa o público. “Lupin é um 'gentleman' ladrão. Ele não tem nada de heróico. Geralmente, um personagem é um ou outro: ou cavalheiro ou criminoso. E por isso nos perguntamos: como um ladrão pode ser apresentado de forma tão simpática?”.

O professor lembra que a forma como o personagem foi construído e moldado ao longo de vários anos resultou no Lupin tão célebre e adorado pelos franceses.

“Nem todos sabem que Maurice Leblanc começou a produzir obras sobre Lupin em 1905 e continuou durante quase 40 anos, até a sua morte, em 1941. Pouco a pouco ele moralizou o personagem, atribuindo a ele ações heróicas, o transformando em um justiceiro. Ele chega a fazer Lupin a afirmar: ‘liberar os bons, punir os malvados, é isso o que me interessa’".

SEGUNDA TEMPORADA DE LUPIN EM PRODUÇÃO

Para os fãs da série, a segunda parte da saga será lançada no segundo semestre deste ano. A Netflix mantém o mistério sobre uma segunda temporada, mas o próprio co-produtor da série, George Kay, já adiantou que a sequência está sendo preparada.

Omar Sy, inclusive, já anunciou que espera interpretar Assane Diop durante muito tempo ainda. “Não se começa uma série se não há esperança de várias temporadas. Seria uma loucura isso. E é justamente por isso que o personagem me interessou: ele é tão múltiplo, tão transformista, que será divertido vivê-lo durante várias temporadas sem me cansar”, afirmou recentemente em entrevista ao canal francês TF1.

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